Chuva num dia de Santo Antônio pós dia dos namorados em que eu tive de ir a uma festa infantil (e graças a Deus uma mãe teve pena de mim e me chamou pra conversar) é dose. Só queria dormir, curtir meu edredon, comer bolo do aniversário da comadre, que a ressaca foi dureza. Desde quinta a gente comemora - cada uma aos trancos e barrancos - pois o mês de junho está sendo pauleira de tanto trabalho.
Tenho andado aérea. Mas o forró estava ótimo. Aliás, ter saído na quinta, organizado uma festa, produzido cartões para outros namorados, dançado dois dias seguidos contribuiu para manter a mente longe do que eu não quero nem pensar. Porque mulher é um bicho que gosta de complicar. E de ficar nessas de refletir.
Parei para me perguntar o porquê das coisas. Adianta não. Não tenho nenhuma resposta convincente. Só sei que está chovendo né? E quem sai nesse tempo ou se molha e pega um resfriado, ou curte o frio e esses beijos gelados que chegam com o vento.
Apois, tenho o que dizer mais não. Só que seria bom alguém conversar bem muito comigo para me distrair. Tipo assim, horas a fio. Até eu dormir.
Carlota
130610
domingo, 13 de junho de 2010
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Uma canção de amor
Pra você, Marguinha, meu feliz aniversário
Beijo, flor
Já escrevi pequenos cantos de ano novo. Hoje vou relembrar uma canção de amor que trago no peito. Que apesar de tudo ou talvez por isso mesmo, me faça ser tão vibrante e apaixonada por viver. Mas não viver uma vida meia boca, uma coisa assim sem graça, um jeito de quem quase não anda a pé. Mas uma vida de quem se irrita e estremece e enternece com aquele olhar quase sem chão de quem tem pouco ou nada tem.
A canção de amor fala de amizade. De uma, que nasceu tão longe, mas que é minha, pela perfeição. Esteve em momentos cruciantes, imprescindível presença a dizer-me isso passa. A dizer que apesar do meu ano que era mais um, sim, sou mais velha, eu era ainda tão imatura nesse jogo que é viver a vida.
Ela a salvou quando quase morri. E a cicatriz que trago assim, na lateral do abdomen, só me lembra que estou aqui. E que durante 10 dias ela me carregou ao hospital acreditando piamente que minhas dores existiam, não eram fruto de imaginação nem de problemas, que naquele ano tão pesado não faltaram.
Nós, quase siamesas no pensamento, confundíamos o porteiro do terapeuta que tínhamos em comum. Mesmo sem nunca termos ido lá juntas, aquele cara na portaria me chamava por seu nome. Até que ouvi, ao reclamar disso: vocês parecem irmãs. Eu disse: mas ela é branca, eu sou tão negona...
Somos irmãs de alma. Daquelas que nascem procurando pela outra. Daquelas que sabem que encerram em seu peito mais do que segredos ou sofrimento. Encerram no peito alegria por terem participado de momentos importantes: o primeiro filho, a defesa do mestrado, a separação dolorida, o crescimento dos meninos.
Essa menina tão querida, que se chama Margarette, escolhi como sócia, como amiga, como pessoa que é, surpreendente. E descobri, eu que me achava tão minúscula perto do poder que ela exibia na vida, com os homens, com a família e as finanças, que podia também ensinar. Porque nesse percurso aprendi a perdoar, a amar, a vibrar, a querer e mostrar meus quereres a quem me interessar. Aprendi a ser cáustica quando necessário e até a brigar com minha amiga querida, a questionar suas frases, suas ações, seus elaborados pensamentos.
Aprendi que também posso lhe ensinar que a vida é pra gente viver. E quebrar a cara e se arrepender. E que mesmo esse arrependimento pode ser aprendizado. Porque a gente se inspira para outras coisas, se prepara para novas histórias, se mostra mais verdadeira, porque falhou ou porque aprendeu, finalmente, que não é preciso ser perfeita.
Ensinei, acredito, que não tenho culpas. Não vou me arrepender das vezes em que fui com amigos beber cerveja e deixei os filhos dormindo em casa. Não vou me arrepender de algum projeto que ficou pela metade, nem dos momentos em que tive de emendar um trabalho no outro até sentir dor e não conseguir mais fazer um cartaz que fosse.
Queria mesmo era dizer o quanto lhe sou grata. Porque se ela não abrisse meus olhos para o que eu sou, falando da vida que carrego, como Carlos, que eu amo, eu teria esquecido desse sentir. De como curto andar, dançar, parir. O quanto sou família e o quanto sou mulher. O quanto quero sempre descobrir e aprender.
Em julho tem curso de ilustração, tem espanhol. Talvez viagem no próximo ano. Encontrar outros amigos, outros mundos, outras coisas que sosseguem um coração desarvorado pela vontade que sinto de viver entre os meus. E de ser e estar e sentir-me sempre viva. Apesar dos problemas, apesar das coisas que deixei pendentes, apesar de. Porque é preciso ir. Sempre.
Hoje, 11 de junho de 2010, saúdo minha amiga que finalmente completou 40 anos. Sabendo o peso e a importância dessa idade. Sabendo do quanto somos efêmeros. E de como é preciso viver.
Hoje, 11 de junho, digo: te amo para sempre, minha querida.
Carlota
11062010.
Beijo, flor
Já escrevi pequenos cantos de ano novo. Hoje vou relembrar uma canção de amor que trago no peito. Que apesar de tudo ou talvez por isso mesmo, me faça ser tão vibrante e apaixonada por viver. Mas não viver uma vida meia boca, uma coisa assim sem graça, um jeito de quem quase não anda a pé. Mas uma vida de quem se irrita e estremece e enternece com aquele olhar quase sem chão de quem tem pouco ou nada tem.
A canção de amor fala de amizade. De uma, que nasceu tão longe, mas que é minha, pela perfeição. Esteve em momentos cruciantes, imprescindível presença a dizer-me isso passa. A dizer que apesar do meu ano que era mais um, sim, sou mais velha, eu era ainda tão imatura nesse jogo que é viver a vida.
Ela a salvou quando quase morri. E a cicatriz que trago assim, na lateral do abdomen, só me lembra que estou aqui. E que durante 10 dias ela me carregou ao hospital acreditando piamente que minhas dores existiam, não eram fruto de imaginação nem de problemas, que naquele ano tão pesado não faltaram.
Nós, quase siamesas no pensamento, confundíamos o porteiro do terapeuta que tínhamos em comum. Mesmo sem nunca termos ido lá juntas, aquele cara na portaria me chamava por seu nome. Até que ouvi, ao reclamar disso: vocês parecem irmãs. Eu disse: mas ela é branca, eu sou tão negona...
Somos irmãs de alma. Daquelas que nascem procurando pela outra. Daquelas que sabem que encerram em seu peito mais do que segredos ou sofrimento. Encerram no peito alegria por terem participado de momentos importantes: o primeiro filho, a defesa do mestrado, a separação dolorida, o crescimento dos meninos.
Essa menina tão querida, que se chama Margarette, escolhi como sócia, como amiga, como pessoa que é, surpreendente. E descobri, eu que me achava tão minúscula perto do poder que ela exibia na vida, com os homens, com a família e as finanças, que podia também ensinar. Porque nesse percurso aprendi a perdoar, a amar, a vibrar, a querer e mostrar meus quereres a quem me interessar. Aprendi a ser cáustica quando necessário e até a brigar com minha amiga querida, a questionar suas frases, suas ações, seus elaborados pensamentos.
Aprendi que também posso lhe ensinar que a vida é pra gente viver. E quebrar a cara e se arrepender. E que mesmo esse arrependimento pode ser aprendizado. Porque a gente se inspira para outras coisas, se prepara para novas histórias, se mostra mais verdadeira, porque falhou ou porque aprendeu, finalmente, que não é preciso ser perfeita.
Ensinei, acredito, que não tenho culpas. Não vou me arrepender das vezes em que fui com amigos beber cerveja e deixei os filhos dormindo em casa. Não vou me arrepender de algum projeto que ficou pela metade, nem dos momentos em que tive de emendar um trabalho no outro até sentir dor e não conseguir mais fazer um cartaz que fosse.
Queria mesmo era dizer o quanto lhe sou grata. Porque se ela não abrisse meus olhos para o que eu sou, falando da vida que carrego, como Carlos, que eu amo, eu teria esquecido desse sentir. De como curto andar, dançar, parir. O quanto sou família e o quanto sou mulher. O quanto quero sempre descobrir e aprender.
Em julho tem curso de ilustração, tem espanhol. Talvez viagem no próximo ano. Encontrar outros amigos, outros mundos, outras coisas que sosseguem um coração desarvorado pela vontade que sinto de viver entre os meus. E de ser e estar e sentir-me sempre viva. Apesar dos problemas, apesar das coisas que deixei pendentes, apesar de. Porque é preciso ir. Sempre.
Hoje, 11 de junho de 2010, saúdo minha amiga que finalmente completou 40 anos. Sabendo o peso e a importância dessa idade. Sabendo do quanto somos efêmeros. E de como é preciso viver.
Hoje, 11 de junho, digo: te amo para sempre, minha querida.
Carlota
11062010.
sábado, 5 de junho de 2010
A cerimônia do adeus
Roubo de Simone de Beauvoir o título dessa crônica, ela que escreveu esse livro em uma homenagem a Sartre. Quem não leu Tete a Tete, procure-o na livraria para conhecer mais desse casal revolucionário, e dos códigos de conduta temporários de Sartre. Mas não é este o motivo da crônica. O motivo é o adeus de uma amiga (o meu, dei anos atrás); Por sinal, ela começa assim:
Hoje eu tenho de te dizer adeus. Pra quê? Já não fora dito? Já não tinha sido uma escolha? Os caminhos não tinham se separado antes de hoje à tarde?
Sim, mas eu sempre senti que podia. Voltar, me aninhar em seus braços, deixar cair os muros que levantei tão sem sentir. Ou melhor, após sentir tanta dor.
Não é hoje que você vai embora. Você vai há muito tempo. E a coragem de libertar minhas amarras você também deixou para trás. Porque houve tantos não ditos, tantas palavras que mesmo ditas não surtiram efeito, porque todas as mágoas, rancores, angústias, demoraram a passar.
Tinha de ser em pleno inferno astral? Não, não tinha. Mas tinha de ser em algum momento. Porque talvez o que ainda está perto possa ser menos doído à distância. Talvez o que fique longe alivie nossa alma e finalmente a liberte.
Mas esse adeus não pode ser sem um último beijo, sem esse abraço sufocante de não querer ir e nem deixar partir. Não pode ser sem eu me entregar mais uma vez, porque desespero com esse ir, que me diz: não vou voltar. Deixa eu te amar. Deixa. Desse jeito morno, desse jeito de quem conhece teu corpo, para quem o meu se entrega docemente, não, hoje ele é quase feroz, de tanta vontade de você de tanto tempo de tanta falta de tanta lembrança que chegou e não foi.
Há quanto tempo minha história é você? Há quanto decidi que você foi meu grande amor? Como não lhe ver nunca mais ou lhe ver em períodos determinados pelo voltar um dia ou nunca?
Ai que essa dor vai doer muito. Que esse dia não chegue hoje. Que ele sempre seja só amanhã. Que a noite se prolongue e meu choro se misture com meu gozo e queria gozar mil vezes e te beijar milhões e te encontrar sempre meu, sem reservas hoje, sem vontade de ganhar disputas verbais ou dizer que eu estava certa.
Sim, eu estava certa. E ainda estou. Certa de que você é meu grande amor. E que esse coração vai precisar de outra pausa, até chegar o tempo de renascer.
Hoje, meu amor, te digo adeus. Não volte, não me olhe, não me esqueça.
Carlota
04062010
Hoje eu tenho de te dizer adeus. Pra quê? Já não fora dito? Já não tinha sido uma escolha? Os caminhos não tinham se separado antes de hoje à tarde?
Sim, mas eu sempre senti que podia. Voltar, me aninhar em seus braços, deixar cair os muros que levantei tão sem sentir. Ou melhor, após sentir tanta dor.
Não é hoje que você vai embora. Você vai há muito tempo. E a coragem de libertar minhas amarras você também deixou para trás. Porque houve tantos não ditos, tantas palavras que mesmo ditas não surtiram efeito, porque todas as mágoas, rancores, angústias, demoraram a passar.
Tinha de ser em pleno inferno astral? Não, não tinha. Mas tinha de ser em algum momento. Porque talvez o que ainda está perto possa ser menos doído à distância. Talvez o que fique longe alivie nossa alma e finalmente a liberte.
Mas esse adeus não pode ser sem um último beijo, sem esse abraço sufocante de não querer ir e nem deixar partir. Não pode ser sem eu me entregar mais uma vez, porque desespero com esse ir, que me diz: não vou voltar. Deixa eu te amar. Deixa. Desse jeito morno, desse jeito de quem conhece teu corpo, para quem o meu se entrega docemente, não, hoje ele é quase feroz, de tanta vontade de você de tanto tempo de tanta falta de tanta lembrança que chegou e não foi.
Há quanto tempo minha história é você? Há quanto decidi que você foi meu grande amor? Como não lhe ver nunca mais ou lhe ver em períodos determinados pelo voltar um dia ou nunca?
Ai que essa dor vai doer muito. Que esse dia não chegue hoje. Que ele sempre seja só amanhã. Que a noite se prolongue e meu choro se misture com meu gozo e queria gozar mil vezes e te beijar milhões e te encontrar sempre meu, sem reservas hoje, sem vontade de ganhar disputas verbais ou dizer que eu estava certa.
Sim, eu estava certa. E ainda estou. Certa de que você é meu grande amor. E que esse coração vai precisar de outra pausa, até chegar o tempo de renascer.
Hoje, meu amor, te digo adeus. Não volte, não me olhe, não me esqueça.
Carlota
04062010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Quase isso
Sentiu vontade de ouvir segredos. Daqueles, descritos nos olhos, repletos de silêncios. Havia uma caixa aqui. Estava fechada e de repente escorregou. Exposta assim sua forma, parecia simples, artefato de madeira que não encaixava mais direito e, por isso, permanecia aberto.
Esforço. Tentativa. Nada. Continuava lá, aberta. Incerta. Poderia reunir poemas, fotos antigas, ter guardado uma minúscula mecha de cabelo ou o crucifixo da família. Pequena. Nada tinha disso. Leve. Quase pluma.
Como etérea fosse, permitiu correr. Vento no rosto amenizava a canseira do dia. Passos cada vez mais rápidos impediam o pensamento traiçoeiro. Ainda não. O lugar não é esse. Continua a correr. Está mais longe.
Sem fôlego. Respirar era difícil. Abre o peito e sente o ar entrar. Devagar agora. Baixa o ritmo de vez, tonta do esforço. Os pés doem, as mãos formigam. Vertigem. Libertadora. Não precisava ser firme nem ater-se ao gesto.
Delicada vontade de ouvir segredos. Manhã de caixa e peito abertos. Por um triz.
Esforço. Tentativa. Nada. Continuava lá, aberta. Incerta. Poderia reunir poemas, fotos antigas, ter guardado uma minúscula mecha de cabelo ou o crucifixo da família. Pequena. Nada tinha disso. Leve. Quase pluma.
Como etérea fosse, permitiu correr. Vento no rosto amenizava a canseira do dia. Passos cada vez mais rápidos impediam o pensamento traiçoeiro. Ainda não. O lugar não é esse. Continua a correr. Está mais longe.
Sem fôlego. Respirar era difícil. Abre o peito e sente o ar entrar. Devagar agora. Baixa o ritmo de vez, tonta do esforço. Os pés doem, as mãos formigam. Vertigem. Libertadora. Não precisava ser firme nem ater-se ao gesto.
Delicada vontade de ouvir segredos. Manhã de caixa e peito abertos. Por um triz.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Domingo de mãe
Acho que cada mãe já teve um insight sobre isso. Não naquele estilo comercial da Avon (locomotiva de amor), tampouco daquele da Renner (horrível, para as que são mães e para as que continuam sonhando). Mãe sabe o quanto é difícil ser. O quanto tem dias de não sabermos ao certo nem quem somos e nos quais a responsabilidade de ter aqueles olhos cheios de confiança nos olhando pesa, porque não queremos decepcionar e nem que o filho sofra uma.
Meu dia das mães começou com crianças me falando de sua fome (e com beijos, beijoqueiros esses meninos!). O almoço foi festivo, com tia e prima-sobrinha-afilhada temperando a tarde com suas companhias, assim como a de minha irmã. Presente ainda o marido da tia, que terminou roubando de mim sua presença pouco depois de nos empanturrarmos de afeto.
Assisti a um filme, subi para tirar um cochilo. Mas antes disso, na despedida, lembrei de minha avó, a matriarca da família Pacheco. A que nos reunia em torno dela em datas especiais, com uma culinária de anos passados junto ao fogão, com prazer. Ainda não comi feijão nem peixada de coco mais gostosos. Mesmo imitando-a na arte de fazer fatia parida, não chego aos pés no sabor. Talvez porque eu use leite de coco de caixinha, ao invés de raspar o fruto por horas...
Quando criança dizia que ela era meu travesseirinho (barrigudinha, minha avó). Calada, olhos profundos, dizia tão pouco de si. Mas sabia tanto e sempre. Senti sua falta nesse domingo. Falta do seu apetite na mesa, daquele estar prolongado, em que a gente nem mais conversa, mas convive e partilha o sentimento simplesmente por estar perto.
Dela herdei o gosto de receber amigos, mesmo que isso seja raro, por parar pouco em casa. O receber, o dar, o doar o que sei, termino levando comigo para onde vou. Na casa da comadre faço bolos, crepes, lavo os pratos. Ou só converso junto a um balcão, arrastando um banco, cadeira, o que estiver mais perto.
Dos presentes recebidos, alguns foram inesperados. Ian inventando música enquanto tomava banho, finalzinho de noite, rimando, aquele menino cacheado. Marina me dando aqueles mil pequenos beijos e perdoando do jeitinho dela meu atraso na festinha da escola. Igor me dizendo: você é legal assim, apertando o meu pescoço num abraço, durante o qual repetiu: mãe, você é muito legal!
Presentes são eles, por fazerem parte. Por saberem de minhas dúvidas, temores, angústias. Por conhecerem meu humor, minha paciência, minha quase demência quando estou alegre. Por saberem que podemos contar uns com os outros, companheiros de vida e de afeto, de felicidade e de poesia, porque eles - assim como eu - inventam músicas, versos, desenham - expressam de mil formas diferentes o que pensam, o que sonham, o que às vezes nem conseguimos dizer direito.
O domingo foi de sol. A tarde, após o cochilo, foi encerrada com um breve passeio de bicicleta ao lado de meu filho mais velho. Que pediu, chegados à nossa rua, vamos lado a lado? Vamos filho. Lado a lado. Feliz por estar aqui.
Carlota
11052010
Meu dia das mães começou com crianças me falando de sua fome (e com beijos, beijoqueiros esses meninos!). O almoço foi festivo, com tia e prima-sobrinha-afilhada temperando a tarde com suas companhias, assim como a de minha irmã. Presente ainda o marido da tia, que terminou roubando de mim sua presença pouco depois de nos empanturrarmos de afeto.
Assisti a um filme, subi para tirar um cochilo. Mas antes disso, na despedida, lembrei de minha avó, a matriarca da família Pacheco. A que nos reunia em torno dela em datas especiais, com uma culinária de anos passados junto ao fogão, com prazer. Ainda não comi feijão nem peixada de coco mais gostosos. Mesmo imitando-a na arte de fazer fatia parida, não chego aos pés no sabor. Talvez porque eu use leite de coco de caixinha, ao invés de raspar o fruto por horas...
Quando criança dizia que ela era meu travesseirinho (barrigudinha, minha avó). Calada, olhos profundos, dizia tão pouco de si. Mas sabia tanto e sempre. Senti sua falta nesse domingo. Falta do seu apetite na mesa, daquele estar prolongado, em que a gente nem mais conversa, mas convive e partilha o sentimento simplesmente por estar perto.
Dela herdei o gosto de receber amigos, mesmo que isso seja raro, por parar pouco em casa. O receber, o dar, o doar o que sei, termino levando comigo para onde vou. Na casa da comadre faço bolos, crepes, lavo os pratos. Ou só converso junto a um balcão, arrastando um banco, cadeira, o que estiver mais perto.
Dos presentes recebidos, alguns foram inesperados. Ian inventando música enquanto tomava banho, finalzinho de noite, rimando, aquele menino cacheado. Marina me dando aqueles mil pequenos beijos e perdoando do jeitinho dela meu atraso na festinha da escola. Igor me dizendo: você é legal assim, apertando o meu pescoço num abraço, durante o qual repetiu: mãe, você é muito legal!
Presentes são eles, por fazerem parte. Por saberem de minhas dúvidas, temores, angústias. Por conhecerem meu humor, minha paciência, minha quase demência quando estou alegre. Por saberem que podemos contar uns com os outros, companheiros de vida e de afeto, de felicidade e de poesia, porque eles - assim como eu - inventam músicas, versos, desenham - expressam de mil formas diferentes o que pensam, o que sonham, o que às vezes nem conseguimos dizer direito.
O domingo foi de sol. A tarde, após o cochilo, foi encerrada com um breve passeio de bicicleta ao lado de meu filho mais velho. Que pediu, chegados à nossa rua, vamos lado a lado? Vamos filho. Lado a lado. Feliz por estar aqui.
Carlota
11052010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
De como as palavras geram mal-entendidos
Terça-feira o despertador me assustou. Pensei ser 10 da manhã, quando na verdade eram 7h40. Aproveitei e, antes do trabalho, fui caminhar na praia. Melhoro meu tempo a cada dia, porque faço o mesmo percurso de antes e ainda dou uma parada para olhar o mar, chegando em casa exatamente uma hora depois de ter saído.
Haviam tarefas me esperando. Por vezes não sei por qual delas começar. A opção, algumas vezes, é o mais urgente. Mas como as urgências estão cada vez mais frequentes, tenho dias de ansiedade. Mas na terça, não. Tinha tranquilidade por saber ter tempo para criar. Canetas, caderno, lápis de desenho, revistas, uma infinita pesquisa por fontes e referências legais.
O lance foi uma frase. Justo para quem trabalha com elas. Cada um entendeu de um jeito e se armou como pode. Ergueu muros de defesa ou de irritação. No desespero, fiquei sem rumo. E como a adivinhar o desamparo, liga um ex-vizinho falando da saudade, da convivência, do querer que eu conhecesse a casa nova. E ainda diz que me ama no final da ligação, coisa boa de ouvir assim, de surpresa, ainda início de tarde.
Minha avó me orientava a não falar certas palavras em casa, uma espécie de superstição sobre a força de cada uma delas. Hoje prefiro que meus filhos também não digam algumas, a herança é maior que a racionalidade. Uma frase pode provocar reações inesperadas. Lembro das que escrevi para algumas pessoas. Mesmo depois de meses, eram capazes de repeti-las, numa espécie de acusação ou de deslumbre, dependendo da dor ou do afeto.
Algumas eu disse mesmo. E me arrependi. Algumas histórias contei não sei pra quê. Mania de ser sincera demais, expor demais o que nem sempre é preciso. Porque depois disso, não tem volta. Não tem borracha ou amnésia. Está lá.
Ao mesmo tempo, a escrita me ajudou na mesma semana em que falaram do meu auto controle. Para suavizar um percurso que provocava angústia, fui retomando coisas que me deixam feliz, repassando-as para alguém querido. Engraçado foi ter de repetir a lista para mim mesma quase como um mantra, até equilibrar de novo a mulher que eu sou.
Bem, o final do domingo me trouxe de volta. Amigo me visita para ouvir de mim. Elogios pelo jantar, perguntas sobre a vida, café relembrando antigos convívios. E antes que eu notasse, estava amena. Precisava daquela partilha, daquele café, daquela companhia. Precisava de alguém para quem eu me mostrasse sem reservas, pelo amplo tempo de amizade construída.
Chegou, enfim, a segunda. E a semana será minha.
Carlota
19042010
Haviam tarefas me esperando. Por vezes não sei por qual delas começar. A opção, algumas vezes, é o mais urgente. Mas como as urgências estão cada vez mais frequentes, tenho dias de ansiedade. Mas na terça, não. Tinha tranquilidade por saber ter tempo para criar. Canetas, caderno, lápis de desenho, revistas, uma infinita pesquisa por fontes e referências legais.
O lance foi uma frase. Justo para quem trabalha com elas. Cada um entendeu de um jeito e se armou como pode. Ergueu muros de defesa ou de irritação. No desespero, fiquei sem rumo. E como a adivinhar o desamparo, liga um ex-vizinho falando da saudade, da convivência, do querer que eu conhecesse a casa nova. E ainda diz que me ama no final da ligação, coisa boa de ouvir assim, de surpresa, ainda início de tarde.
Minha avó me orientava a não falar certas palavras em casa, uma espécie de superstição sobre a força de cada uma delas. Hoje prefiro que meus filhos também não digam algumas, a herança é maior que a racionalidade. Uma frase pode provocar reações inesperadas. Lembro das que escrevi para algumas pessoas. Mesmo depois de meses, eram capazes de repeti-las, numa espécie de acusação ou de deslumbre, dependendo da dor ou do afeto.
Algumas eu disse mesmo. E me arrependi. Algumas histórias contei não sei pra quê. Mania de ser sincera demais, expor demais o que nem sempre é preciso. Porque depois disso, não tem volta. Não tem borracha ou amnésia. Está lá.
Ao mesmo tempo, a escrita me ajudou na mesma semana em que falaram do meu auto controle. Para suavizar um percurso que provocava angústia, fui retomando coisas que me deixam feliz, repassando-as para alguém querido. Engraçado foi ter de repetir a lista para mim mesma quase como um mantra, até equilibrar de novo a mulher que eu sou.
Bem, o final do domingo me trouxe de volta. Amigo me visita para ouvir de mim. Elogios pelo jantar, perguntas sobre a vida, café relembrando antigos convívios. E antes que eu notasse, estava amena. Precisava daquela partilha, daquele café, daquela companhia. Precisava de alguém para quem eu me mostrasse sem reservas, pelo amplo tempo de amizade construída.
Chegou, enfim, a segunda. E a semana será minha.
Carlota
19042010
terça-feira, 6 de abril de 2010
Diz
Existe algo que não é dito, assim como há pessoas que, em algum momento, deixam de falar. E escondem, sublimam, anulam.
Tentei lembrar de quando começou o silêncio. Mais ou menos quando a gentileza foi posta de lado e o desejo assumiu a carne.
Estranhos que se tocam e silenciam, por não haver nada a dizer ou no temor de revelar algo profundo, sobre o qual é difícil contar.
Palavras sugestivas, estimulantes, provocadoras. Frases ditas ao ouvido, às escuras, ao som intermitente de um cd.
Uma espécie de dor essa, esconder-se da fragilidade, do querer coisas outras. Me surpreendo com esses silêncios, sem partilha, entrega. Mas houve dias de entrar no jogo e ficar e também de ter angústia.
Quando não é preciso dizer o encontro suprime a falta. Quando não há compaixão, o silêncio cala fundo.
Carlota 06042010
Tentei lembrar de quando começou o silêncio. Mais ou menos quando a gentileza foi posta de lado e o desejo assumiu a carne.
Estranhos que se tocam e silenciam, por não haver nada a dizer ou no temor de revelar algo profundo, sobre o qual é difícil contar.
Palavras sugestivas, estimulantes, provocadoras. Frases ditas ao ouvido, às escuras, ao som intermitente de um cd.
Uma espécie de dor essa, esconder-se da fragilidade, do querer coisas outras. Me surpreendo com esses silêncios, sem partilha, entrega. Mas houve dias de entrar no jogo e ficar e também de ter angústia.
Quando não é preciso dizer o encontro suprime a falta. Quando não há compaixão, o silêncio cala fundo.
Carlota 06042010
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