quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Insônia




Não tenho dormido bem. Não sei bem por quê. Não tenho estado, desde que voltei das férias, em um período de observação de mim. Entrei na moenda dos dias corridos, da tentativa de academia – ainda não curto, mas estou indo – da necessidade de integrar meu tempo a todas as demandas que surgem e que eu não posso deixar passar. Tem aulas, tem conversas, tem gente junto, tem supermercado, condomínio, aluguel, teve festa, encerramento de ciclos e nessa roda-viva a ayurvédica que marquei no início da manhã foi desmarcada apenas uma hora depois. Lembrei da reunião já acertada e pensei que iria adorar observar meu corpo e os pensamentos que o povoam nesse fim e começo.

De repente hoje bateu uma paúra pelo tanto que estou planejando, eu que geralmente sigo o fluxo e vou encaixando as coisas de um jeito que até parece que foi acertado de antemão. Habilidade de olhar e ver o que dá ou não pra fazer, concluir, dissipar. Do que é possível atender, corpo e mente permanecendo sãos. Parei dia desses pra perguntar aos meus três filhos se eles estavam satisfeitos comigo, naquele sentido de quem ficou um tempo ausente e ainda está meio desconectada da ligação filial. Eles riram e me abraçaram. Amor sempre tem, né?

Queria o tempo suficiente pra me encaixar num abraço que não veio, pra feira que deixei pra depois e que agora me obriga a comer fora de casa e deixar pra lá a vontade de cozinhar. Preciso de pouso. E faz tão pouco estava solta, leve, curtindo ruas desconhecidas e outras que relembrei. Ainda não tive tempo de dar aquela parada que faz tudo encaixar. Aquela em que a gente se descobre, porque quase todo dia tenho de responder perguntas, lembrar da rotina, planejar futuro. Ainda não sei como pegar o que senti ao sair pelo mundo de um jeito que nunca tinha sido. Não deu tempo.

Começar este agosto é desafio. É entender dessa entrega e de como a gente quer muito que tudo dê certo. No percurso, mesmo não estando dormindo bem, acredito que as coisas se arrumam pela força amorosa que trago (sem modéstia nem convencimento). Apenas ela explica essa sequência de belezas que me surpreendem. O acolhimento de quem também entrega pra mim o que tem de bom, de esperançoso, de entusiasmo. Sigamos. Posso dormir jajá.


Carlota
080818


sábado, 18 de novembro de 2017

Ampulheta

Sou dessas pessoas que contam o tempo. Sei exatamente há quanto tempo a gente se conhece. Sei do dia que tua palavra veio em meio a outras mensagens e eu terminei me enredando nessa conversa e esquecendo de responder às aflições indistintas que me chegavam em paralelo à tua fala.

Sou dessas pessoas que contam. E nem precisa facebook pra lembrar que a amizade começou faz tempo, mais do que aquele que o algoritmo inventou de registrar. Sei a idade dos meus filhos, há quanto estou onde trabalho, o dia em que comecei meu primeiro, segundo e terceiro empregos.

Sei também dos aniversários queridos, dias e meses, porque os  anos acho que a gente acertou de não registrar. Conto ainda as laranjas quando as vou colocando no cesto, mesmo sabendo que comprei dez e depois mais duas, para aquele bolo de ameixa que, por incrível que pareça, também leva essa fruta e que uma amiga-vizinha me ensinou uma vida atrás.

Sim, conto esse tempo que me trouxe 48. Conto o tempo que perdi com medo de escrever a tese, conto o tempo daquele desabafo que, no final, tinha só duas linhas e meia e que era muito maior no pensamento.  Conto o tempo de quando cheguei a uma vila charmosa, faz um ano, tempo esse que fazia dois de um conhecimento, uma conversa em meio a mensagens aflitas, me trazendo uma brisa de mar bem pertinho, revolvendo cachos e sorrisos. Era um jeito de contar o passar, refugiada em edredons, séries e adolescências presentes em casa.

Eu conto o tempo o tempo todo. Sei de quando se vão, quando chegam, quando se apartam, quando brigam, quando amam. Sei de quando vivi, perdi, encontrei. Conto o tempo, compasso que não investiga minutos nem horas. Tampouco anos. O tempo é aquele que a gente precisa, fluxo que vem e vai, sem dizer muito.  

No conta-conta se muda tanto que, ao relembrar um instante distinto, a gente se vê diverso desse tempo passado. E aquilo que por ventura doía, alegrava ou inspirava conversas que chegavam em meio a mensagens aflitas e não respondidas, vira um tempo que não se precisa e não é mais.

Carlota

181117


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Costelas



Feche o ciclo. Feche a porta. Abra as gavetas e jogue fora as contas pagas há sete anos, o comprovante do depósito, a foto revelada por engano, de alguém que você nem sabe quem é.  Feche o ciclo. Feche a porta. Abra as cortinas da janela às 8h de uma manhã que parecia cinco, deixa pra lá o blackout, mania de dormir no escuro essa, abre logo a janela, anima pra sair da cama, tem um bando de passarinhos cantando loucamente e tá estranho, mas tá tranquilo, tá confuso, mas é assim mesmo, tem um certo encantamento nesse encerrar das coisas e começar tantas outras.

Feche o ciclo. Feche os olhos. Abra esse peito como quem afasta com as mãos as costelas e sente os ossos com segurança e pés no chão. Como quem encaixa de verdade o ar dentro do pulmão esquerdo, do pulmão direito, assim, ao mesmo tempo, ampliando o esterno, esticando o ombro, vendo o diafragma subir e descer e dando meio que uma tontura por respirar direito.

Feche o ciclo. Feche as mãos, os braços em volta do corpo e acolha. Acolha a dor, se houver, acolha a alegria que surgir, acolha o envelope pardo e rabiscado que é o corpo, acolha a música desse passarinho insistente, acolha a luz amorosa, abra o espaço exato entre o que há e o que houve, entre o que se sente e o que se teve, entre a mesa e a cadeira, o lápis e o computador.

Feche o ciclo e encontre. Feche o ciclo e perdoe. Feche o ciclo e respire. Feche o ciclo e se alegre. Vai lá no coração do universo, feche o ciclo e festeje. Feche o ciclo e agradeça. Feche o ciclo e comece.

Comece um ciclo, mais outra e outra e outra volta em torno do sol. Comece mais um caminho, comece pela incerteza, comece pela vontade, comece pelo que se pretende, comece pelo que alegra.

Entenda, meu bem, é fluxo. Um jorro de luz, uma ou outra pedra escondida, faca amolada, corte, bordado, enfrentamento, medo, tudo junto, fluxo contínuo de energia infinita, universo feito gente, eu pedaço de mundo, de ciclos que se fecham e começam, entrelaçados.

Carlota
271017

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sobre os tempos

Faz tempo quero escrever esse texto, motivada principalmente pela conversa com um amigo querido. Aquele que há alguns anos é um dos afetos que dividem o espaço do cotidiano em mensagens pelo whatsapp, recados no fb ou nos fortuitos encontros que acontecem pra nos lembrar que sempre é tempo de conversar e aprender mais sobre a gente.

Em uma noite na qual estava particularmente melancólica, ele relembrou de mim, tirando do juízo a lembrança de minhas próprias reflexões sobre um momento da vida dele. E fiquei lá, meio besta, me perguntando porque tem horas que a gente desaprende a viver aquilo no qual acredita. Sei lá que coisa doida é essa, que desarvora tanto e nos deixa sem ação. Sem vontade. Sem memória. 

São tempos, Carla. E lá foi ele me dizer o que eu mesma lhe havia dito. E que lhe tinha sido afago. Que a gente precisa entender que nem sempre tudo vai durar pra sempre. Que há os tempos de cada um junto da gente, assim como o tempo pra dor, o tempo para aquele riso solto ou pra carreira desabalada que a gente dá querendo encontrar alguém. 

E nem por isso, quando acaba, quer dizer que foi ruim. Nem por isso, quando acaba, é preciso sofrer pensando no que ficou pra trás e que às vezes volta, tão forte, que faz uma falta danada. Daquele colo incrível, da franqueza possível e construída junta, da familiaridade de dividir segredos com as pessoas que te recebem pela madrugada, cedem seu tempo, sua família, sua casa e apenas acolhem. 

Tem tempo que amizade acaba. Tem tempo que amor vai embora. Tem tempo do irmão que morre. Tem tempo do rebento que cresce e surpreende com o tamanho dos próprios sonhos.  Tem tempo de sentar na mesa e chorar. De morder o lábio de nervoso. De pingar a lavanda pra ansiedade acabar. 

Tem tempo pra tanta coisa e cada uma com seu espaço na vida, ou sua ausência, que é preciso, ou melhor, que eu preciso ver de pertinho com meu coração. Cheio de reservas, como quem estranha ser querido. Como quem às vezes se vê muito alegre e tranquilo. Ou descobre amor pela muda de limão galego que trouxe de um hostel na Vila Nazaré. Pedaço de gentileza que espero ver crescer. A seu tempo.

Para Marcelo, Clarissa, Jéssica e Francisco

Carlota

01122016


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Sobre minha avó

Escondeu direitinho todas as histórias de infância e adolescência que não fossem aquelas que quis contar. Teve um irmão, Daniel, uma mãe, Josefa, não sei o nome de seu pai. Trabalhou na Renda Priori, morou na rua dos Pescadores, conheceu meu avô no Batutas de São José. Tinha uma cicatriz no lábio. Quando perguntei, respondeu brusca. E não falou mais. 

Era uma mulher forte. E só reconheci fortaleza quando me peguei olhando pra trás. Quando vi a coragem que é se impor em um universo branco e masculino, onde a mulher não cuidava dos negócios e, possivelmente, era enganada quando perdia o marido.

Só reconheci a beleza arrebatadora de sua alma, quando entendi o quanto acolheu todos os amigos, as amigas, os párias, as exceções. Seguia firme e só cambaleou quando as pernas começaram a doer.  O passo ficou pequeno, inseguro, e seu ir e vir “à cidade” mais espaçado.

Nunca foi de chamar pra cozinhar. Não suas netas, pelo menos. Nunca foi muito de macaxeira. Antes cuscuz ensopado, banana comprida, fatia parida, sopa de feijão. Entrava na cozinha e o almoço saía na hora. E fui aprendendo a cozinhar de tudo, sem medo. Ela conduzia.

Ninguém a enrolava no troco. Tinha só o quarto ano primário e dizia sempre: estude pra ser gente. Olhando pra trás e pra frente, cada vez que fui a um museu e me deparei com uma obra de arte; cada vez que vi o mundo em uma nova cidade; cada vez que venci uma etapa – uma delas no dia de seu aniversário – era dela que eu lembrava.

Foi pra Dona Creusa que corri no primeiro emprego, quando ainda tinha dúvidas. Foi a primeira que soube do primeiro bisneto. Era no espaço de sua cama solteirão, ao lado dela, que eu ficava pra curar as feridas ou falar das coisas da vida.

Era escorpiana de 24 de outubro, nasceu em 1919. Quando morreu, quase não tinha brilho nos olhos. Dois anos antes tinha perdido o caçula. Aquele pra quem tinha o jeito mais amoroso. E de quem sentia falta todo dia.

Tive a sorte de contar com seu afeto na infância e na vida, de pousar a cabeça no travesseirinho feito na barriga, de ter aprendido o nome das ruas do centro do Recife de tanto visitar as lojas que hoje nem existem mais.

Da senhora, Dona Creusa, ainda queria a convivência com os bisnetos. Eles iam aprender direitinho o que é ter uma avó de implicar brincando, de costurar vestidos, de avisar que o mundo é grande e a gente cabe nele. E, hoje ainda, quando escuto a ave maria, lembro de quem me ensinou a viver. A benção, minha vó.

Carlota
27072016

domingo, 17 de julho de 2016

Espaços habitados

Hoje me peguei andando pela casa, descalça, tentando encontrar um velho caminho que já não faço mais. O chão não tem mais o frio da cerâmica. Não preciso mais subir escadas para chegar ao quarto. Há pouco aprendi o lugar de todas as tomadas e interruptores. Ainda me assusto com o ruído de motos velozes pela madrugada. E olho a porta de madeira tentando ver o terraço que, ops, virou varanda ladrilhada.

Fico sentindo a mudança como tentativa de encaixe. Meu corpo se estende, amplia, reverbera pelos cantos, paredes, pelo piso de madeira. Sou do tamanho desses quartos, das janelas que ocupam uma parede inteira. Sou do tamanho da cozinha, da área onde coloquei a máquina de lavar.

Ocupar, habitar, viver. Comecinho tive de acalmar o coração enquanto desencaixotava os lençóis, os pratos, meus livros. Tive de me convencer de que o caminho era certo, que tudo ia ser bom. Tive de falar isso várias vezes pra mim. Já acendi incensos, instalei a rede, quase matei uma planta, dei sorrisos aos vizinhos.

Já recebi amigos, pra visita, dormida, cerveja, vinho. Um de cada vez, porque ainda tem um monte de reticências aqui. Mistura de medo de me apegar ao espaço, como era à minha buganvília, ao jardim da frente de casa, à goiabeira, ao pé de laranja. Às janelas da minha cozinha. Aos pássaros pela manhã.

Faz pouco descobri um ninho na árvore que cobre praticamente todo o meu andar. Ele fica bem pertinho da janela dos meninos. Dei um sorriso e procurei passarinhos. Eles cantam bem cedinho, talvez pra avisar que eu não devo sentir tanta falta de casa. Que casa é minha alma habitando o espaço em que resolvi pousar. Com um trio amoroso e cúmplice bem junto. Eles me ancoram. E habitam esse lugar.

Carlota

17072016 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A falta que ela me faz

Tenho um histórico de mulheres fortes no caminho. Daquelas que não desistem, que alcançam, dão tudo de si. Tenho um histórico de mulheres que foram embora, seja pela morte ou por viagem, seja por uma briga ou por alguns equívocos que nem sempre a gente pode desfazer.

Quando lembro de minha avó, Dona Creusa, todo um universo de felicidade chega pra mim. Quando lembro dela, vem o gosto de feijão com arroz, revejo brincos e colares de aniversário, ouço novamente seus conselhos. E sinto o corpo quente, gordinho, acolhedor, meu travesseiro na infância e meu pouso e calmante na adolescência e vida adulta.

Minha mãe, presença menorzinha em minha vida, afinal foram só nove anos, lembro pelas unhas vermelhas e intensa vontade de viver. Pelos gritos e exuberância, pelos cabelos arrumados e olhos amendoados como os da minha irmã. Revejo cada um dos seus sorrisos, saboreio até as migalhas de seus bolos maravilhosos. Eró, a irmã mais velha dos meus tios, a mulher com tudo para ter vivido mais. Mas, pelo que viveu, foi muito e foi linda.

Penso na amiga querida que uma sociedade estragou. E quase não consigo admitir essa falta, uma angústia de dois anos. Até eu entender que tudo muda. E a gente tinha mudado, não era mais cúmplice não. Mas o desejo de que a vida seja leve pra nós duas permanece. A gente precisa é muito disso. Leveza, alegria, amor.

Aí vem uma delícia de aluna, de ex-aluna, de amiga, a resolver empacotar todos os pertences, jogar fora as tralhas e partir. Recife não cabia mais nos sonhos, era pequeno, era só isso, Recife. Com lembranças legais e outras não. Gabriela. A quem entrego muito amor e partilha, por tudo que ela me ofereceu: de vistas lindas do Capibaribe até amigos, até o vinho, até a dor que vez em quando eu lhe contava.

Sinto falta dessas mulheres pertinho. Sinto falta também da minha filha, minha nega, minha linda. Que cresceu, é Marina, e não mais menininha, Nina ou Pipoca. A que ainda hoje guarda no espaço entre a raiz dos cabelos e a testa um perfume doce e todo seu. O cheiro da minha flor menina. .

Pra essas mulheres incríveis e lindas, tão fortes e corajosas, desejo todo o bem do mundo. E incluo no pacote outras a me fazer falta mas próximas, ao alcance de um post, uma ligação, um abraço. Salett, Aline, Verônica, Cris, Mariana. Tenho de aprender a entregar o amor pessoalmente. Quem sabe assim ele circula mais forte e esperançoso de dias de sol. Iluminado. 

Carlota

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Halloween

O amor chegou hoje. E eu, que da última vez tinha dito, passe outro dia, tive de lidar com esse estranho que resolveu chegar. Foi no meio do pinot noir, do edam e dos damascos, tarde de compras que também incluiu lâmpadas e creme dental. Chegou pra esfriar meu sofá.  Pra me fazer olhar as janelas e nem ver. Tirando minha fome e travando a garganta, que ainda está um nó.

Chegou me dando vontade de dormir. Na rede, abraçada, juntinho, colada. Estabelecendo parâmetros e perspectivas, parecendo uma pesquisa científica, um novo paradigma. Veio feito um puto, pronto pra briga e, eu, na minha. Olhei e foi só cansaço, estou rendida faz tempo, tem necessidade disso não, cara.

Dia das Bruxas, 13º, vontade de comprar uma bicicleta e sair por aí. A crônica de Xico Sá no El país, falando de quando o amor começa e de Love em 3D. Que insistência e que coração desaprumado esse meu.

Sexta-feira e eu bebendo o vinho do amor inesperado.

Carlota

30102015

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

De leve

Eu poderia dizer mil vezes que eu não tenho nenhuma leveza. Que sou uma alma angustiada. Que tenho uma gastrite que me ataca de vez em quando e me obriga a um tratamento de 30 dias com omeprazol. E que óleo essencial de lavanda pra mim é tão necessário quanto um beijo bom.

Eu queria mesmo era dizer de novo que não, não sou calma. E que dentro de mim ficam se balançando todas as cartas do tarô: o diabo, o eremita, o louco, a roda da fortuna, sol, lua e imperatriz. E que jogo o I Ching e ele me aconselha a ficar em silêncio, a perceber as virtudes do sábio, a observar a natureza da água, da montanha, do ar.

Aproveito e entrego que leio mensalmente o horóscopo de Susan Miller. E digo, puta merda, de novo Saturno tá lascando minha vida! Que já pensei em jogar tudo para o alto e se não jogo nunca é porque alguns laços são queridos e importantes demais. Que bate um cansaço do caralho quando a rotina ainda me inclui um trânsito insuportável e viagens de avião em pequenos intervalos. E que gosto de Jack Daniel’s e Malboro. E sinto falta de dançar.

Mas também quero falar dessa vontade de distribuir amor quando estou feliz. Que envio ondas mentais de carinho para meus queridos. Que saudade quando aperta me faz ligar e propor um café, uma cerveja, qualquer desculpa para conversar bem muito e abraçar ainda mais. 

Que abraço pra mim é o cumprimento mais legal do mundo. E nele entrego bons desejos. E recebo ondas e mais ondas de coisas lindas. E talvez daí chegue uma leveza de quem franze a testa apenas porque é míope. E, pela miopia, às vezes deixa de reconhecer alguém ou perceber o quanto uma criatura é interessante.

E esse arrodeio todinho foi para agradecer às pessoas da minha vida, e aos que estão pertinho apenas pelo bem-querer, os abraços, beijos e afagos pelo meu ano novo. E pela leveza que veem em mim.

Carlota

08102015

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Gabriela

Primeira vez na vida que me senti uma artista foi em tua casa, quando tu me entregou sem medo uma pilastra como tela para meu traço. E defendeu minhas cervejas de um infiltrado na ocupação de teu apê. Primeira vez na Cubana. Primeira vez na Mamede. Primeira vez de uma ressaca homérica que me fez querer morrer duas vezes e mais uma (presenciada por um Chicão confuso). Primeiríssima e deliciosa vez no Irak, com direito à dancinha com o DJ.

Tu é movimento, moça. Por isso tantas primeiras vezes, tantas belezas e histórias. Por isso tantas despedidas e voltas e idas e agora Brasília. Primeira vez de Morrisey. De festinha de criança para adulto, com direito a lolitas, cachorro quente e dip lik.

Tu, andarilha, também me fez descobrir o pisco e a beleza de ver a rua da Aurora do 17º andar do edf. Caeté. Do café com canela. Do aprendizado sobre pimentas e temperos. Sobre a maravilha que é um manjar de coco com calda de manga e gengibre. Tu é assim. Chama o povo pra comer e faz festa com quem chega.

Pudesse eu, corria pra tu sempre. Assim como também corri de tu quando eu estava muito triste. Porque é quase impossível disfarçar as dores diante dos teus olhos verdes. Danada de menina pra ver o que se esconde. Pra dizer tanto. Pra amar cada um e sempre mais.

De quebra, além do aprendizado culinário, amoroso, vital, ainda conheci teus amigos e eles também se tornaram um pouco meus. Patrícia, Rodrigo, Mariana, Lourdinha, Maria, Laura, Black, Marcela, Paulão, Raquel, André, Íris e tantos outros que se alternavam em tua casa. Também conheci tua coragem, esperança, vontade. Saber quando ir, quando ficar, desejar. Pois tu agora se entrega mais uma vez à Brasília. Onde fará ninho pra receber não só tua vida, memórias, panelas. Mas o desejo de todos os amigos que festejam tua vida. Mulher, seja muito feliz nessa cidade. E prepare o cozido, que vou te visitar.

Xêro, lindeza :)

Carlota
150715

ps.: num teve pendrive, mas vai meu desejo com Nina.

Feeling Good | Nina Simone





domingo, 29 de março de 2015

Fadas


















De morar em casas e ter árvores.
Uma mulher olha o jardim.
E, pronta, sempre enxerga belezas.
Até as escondidas.

terça-feira, 24 de março de 2015

Para Alice

Uma menina ensolarada e diva inspirou a crônica de hoje. E trouxe de volta um baú de coisas que trago comigo. Aquelas sobre as quais falei durante cinco anos na terapia. A necessidade de ser aceita, me sentir igual, fazer parte do grupo ou passar despercebida. A lacuna fez parte de minha adolescência. Porque fiquei muito magrinha, porque adorava ler, porque ficava em casa curtindo esse mundo fantástico e terminou que de menina sapeca, comunicativa e abraçante, fui para a sensação de desencaixe e uma timidez intensa.

Era ela que me impedia, por exemplo, de dar boa noite àquele grupo reunido na frente da casa da vizinha (não, não era falta de educação, Dona Creusa era primorosa neste sentido). Era ela, também, que me fazia observar as pessoas com extrema atenção, percebendo nuances e vibrações – legais ou não. E que me deixou desconfiada por muito tempo. Medo de gente, sabe? Medo do que as pessoas poderiam dizer. Porque uma frase inesperada podia gerar aquela dorzinha incômoda, um ranço na alma, um jeito cinzento de olhar o dia. Ou tirar minha alegria.

E se a timidez foi embora, o processo de autoconhecimento foi longo.  Envolveu olhar pra esse baú um sem número de vezes e sair descartando a opinião alheia e tão formada sobre minha pessoa, mesmo que não me conhecessem tão bem. Envolveu ainda eu perceber que criar rótulos para mim ou para outro tem dois gumes: se encaixa, também limita. Nem tudo precisa ser um universo conhecido. Nem tudo tem explicação.

Vai daí vez por outra ainda estranho – e procuro controlar a sensação ao reconhecê-la – a quantidade de gente curtindo estar ao meu lado. Pessoas recém-chegadas me trazendo brindes inesperados. Nessa de deixar rolar afeto e ter abraços quentes e muita conversa. Alegria com café, bolo, vinho ou cerveja. Encaixe. Mesmo que nem sempre de ideias.

Então me espalho em amorosidades, em dengos derretidos, em noites que se tornam manhãs. Vou entregando alguns sorrisos, conto pequenas histórias, falo de comida e sonhos. Escuto. Entendo. Discordo. Ou dou um mergulho no mar sem medo da noite fria. Porque os que chegam perto trazem o coração desarmado e não tem vontade de ferir.

Sim, Alice, palavras doem muito. E como todo mundo às vezes fala besteira, sem nem notar ou porque não consegue ter palavras boas, a gente segue tentando aprender a espalhar amor e alegria, fazendo deles um escudo legal para o coração. De verdade, a gente não precisa se encaixar. A gente é que molda a vida ao nosso redor.

Com muitas lindezas, cachinhos e batom vermelho pra você

Carlota

24032015

segunda-feira, 23 de março de 2015

Sobre ontem




Há um ano, mais ou menos, vi no instagram a foto de Mariana Freitas. Ela casou direitinho com um haicai antigo, feito há mais tempo ainda para alguém por quem fui completamente apaixonada. A paixão foi se esfarelando ao longo dos anos, tal qual o buraco nessa parede, que aumentou gradativamente. Mas foi uma das mais gratas experiências que vivi, sem arrependimento. Feliz.

Carlota
23032015

terça-feira, 17 de março de 2015

Alegria, alegria

Você sai de casa completamente sonada, vestido florido e esperança de uma noite leve. Cabelo curto, molhado, sandália, ônibus, desce e na caminhada sente cheiro de mar. Entra lá no restaurante, corre os olhos, vê gente tirando fotos em uma mesa grande, se volta para a escada e, na subida, escuta a sonora gargalhada de um menino encantado.  E conhece gente nova e revê amigos. E se sente desperta e se anima e se põe a conversar.

E nessas ocasiões nas quais todos falam e todos escutam, porque habilitados estão na alma a escutar o outro e largar o próprio umbigo, vai se percebendo um agrupamento de ideias em torno de um roteiro fantástico. E haja brinde pra expandir essa alegria. A minha se espalhava devagarinho, bem dengosa, pedindo ainda abraço e beijo. Da cadeira onde estava, olhava com tanto desejo de encaixe que levantei e mudei de lugar. E me imprensei entre aqueles dois. Feliz. Podia, estendendo o braço à direita ou à esquerda, apertar os corpos, tocar no rosto, dar xêro e beijo estalado.

Conta encerrada, praia. Foi só atravessar a rua, comprar três cervejas, conferir o malboro, tirar as sandálias. E aquele barulhinho e a maresia deixando a noite mais linda. Três pessoas destemidas resolvendo dar um mergulho no mar de Casa Caiada.  Olhei e deu uma vontade, mas uma vontade tão grande... Fui. Antes de entrar de vestido e tudo, fiz o sinal da cruz com a água do mar, sincretismo pra pedir licença à minha mãe Iemanjá e penetrar em seus domínios, ainda mais àquela hora.

Alegria de se ver naquele mar inteiro e se sentir bem com os que estavam perto. E ter cumplicidade de rir e flutuar na água e falar besteira ou ficar quieta olhando o céu. As mazelas todas indo embora, a certeza de que o mar lava a alma e a rainha abençoa as decisões. Liberdade ver cada um curtindo do seu jeito, a coisa mais simples do mundo e tão próxima: um mergulho noturno no mar. Pra sentir a água morna, o vestido enroscar nas pernas, pra pisar na areia e arranhar os pés em conchas quebradas. E depois da dança que espantou o frio de sair do mar, do cigarro e dos abraços, beijos e despedidas, a felicidade clareou o caminho todo pra casa.

E aquelas duas horas nas quais fiquei livre e me permiti mergulhar na alegria e só sentir essa moça juntinho de mim, reverberaram para a observação do meu filho no domingo à noite. Ele, que convidou um amigo pra passar a tarde em casa e ficou jogando e curtindo a conversa; ele, que foi tomar um milkshake de chocolate e morango com o irmão e o amigo em uma sorveteria da orla, enquanto eu subia a Sé de Olinda com minha filha, comentou em um de seus inúmeros momentos de sabedoria: “é tão bom a gente ficar assim com os amigos e poder fazer o que quiser, né?! Dá uma sensação de liberdade tão grande, mainha”. Tu ficou alegre, nêgo?, perguntei. “Muito” e me deu um abraço desses de enroscar as pernas nas minhas. Um jeito de dividir a alegria, sabendo que eu também estava feliz. E estou.

Para Bruno Souza, menino do riso encantado, com muita alegria por ter você aqui

Carlota

17032015 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Adeus e signo chinês

Eu ia caminhando pela rua com o sapato apertado e me perguntando por que danado eu tinha posto um salto daquele tamanho e na verdade nem era grande porque de verdade ele tem uns três centímetros, mas para andar mais de um quilômetro era alto demais nessas calçadas de cimento irregulares ou de faltosas pedras portuguesas.

Eu ia caminhando naquele sol quente e completamente lascada e com o coração apertado e uma ansiedade e uma boca seca que não era só do calor. Porque na mente uma pergunta se fazia o tempo todo e o corpo era contrição, era falta de espaço, era algo que caminhava à toa e com medo de ser assaltado porque de verdade não estava nem naquela rua, nem naquele dia. Porque voltava e ia. Porque me obrigava a ver além do presente momento, a deixar para trás um passado bem grande e aquele exato instante em que tudo ia ser uma merda, no qual levei um soco e era melhor deixar pra lá e não lembrar mais do que havia sido há tanto tempo atrás.

Porque a pergunta que se apertava em meu juízo era uma só. E pensando bem e por tudo o que já vivi nem era mais pergunta. Era uma declaração. “Fico pensando o tempo inteiro que não há coisa mais difícil no mundo do que dar adeus”. Então, não era declaração não. Era um outdoor estampado em letras garrafais, fonte helvetica bold condensada, entreletra -20, em preto sobre fundo amarelo para garantir a visibilidade. E garantir também a perpétua existência desse jeito estranho que eu tenho de me defender e de definir o momento do adeus.

Vai ser agora, enquanto continuo inteira. Vai ser agora, enquanto ainda durmo. Vai ser amanhã ou depois, nem sei, mas vai ser. Vai ser um dia em que eu lhe veja e converse e tome café e você não faça viagens para Constantinopla-Istambul. Vai ser quando eu esquecer daquele pingente ondulado que você traz no pescoço. Vai ser para esquecer o pingente que você traz. Vai ser para esquecer.

A coisa mais difícil do mundo é dar adeus. E eu juro, queria agora não. Queria conviver mais uns dois anos no mínimo. Queria ver você crescer e eu queria ir junto. Queria mapear todos os sorrisos de menino, me inspirar nesse cabelo grisalho, nesse jeito de dançar que me arrebatou milhares de vezes e mais umas cinco. Coisa difícil essa dar adeus a algo tão bom. Dar adeus a um cheiro, um jeito, uma forma de se expressar. Dar adeus a uma pessoa inteira, do mesmo signo chinês e ocidental. Muita parecença para quem quer ficar distante. Muita avidez e voragem e jeito de ver o mundo e vontades e encostamentos.

E quando durmo eu sonho com você. Com essa despedida que não rolou. Com essa última frase que não disse por ser impossível lhe ver. Não houve tempo. Porque lhe disse tanto e busquei tanto que no fim esse calor e o corpo encolhido e a mente turva e a sensação de não estar naquela rua e o sapato apertado e a freada brusca e o palavrão que eu disse e a exata sensação de que naquele dia foi o adeus e a gente nem sabia e a gente tão educado só se fala amenamente e não houve mais cafés, jacks nem uma dança pra lembrar desse encaixe de braços e ritmo que só quem nasce sob os mesmos signos pode ter.

Então que a coisa mais difícil do mundo é dar adeus. E crescer.

Carlota

12032015

quarta-feira, 4 de março de 2015

Conversa com o espelho

Não sei se é uma vibração que emano ou se o universo conspira. Mas, milagrosa e felizmente, tenho amigos incríveis. Desses que compreendem sua necessidade de exílio ou de dançar freneticamente até ficar extremamente cansada. Desses que acolhem em noites calorentas e refrescadas com cerveja, suco ou água. Desses que, de repente, dizem verdades sem a pretensão que elas assim sejam.

Pois Mariana Freitas, essa gata inspiradora de textos e abraços, foi indicando caminhos ao longo de nossa convivência. Um dos presentes maravilhosos de outra moça linda. Essa, Gabriela Valadares, já foi aluna, já foi amiga. Hoje está entranhada na alma, com aquele desejo imenso de gratidão e felicidade. É afeto e parte. É algo que sou.

Mari, moça esperta, além de me apresentar a cafés e bares olindenses, que eu em nove anos na cidade não havia tido coragem de frequentar, se revela uma observadora do gênero humano. E de nossas manias, carências, alegrias. Ontem, lá na Mamede, essa rua simbólica de encontro e boemia, me falou sobre conversas com o espelho. Um lance de se olhar e, realmente, se ver. E como ando em uma fase de escolhas e de adeus, adeus até a modos de pensar e agir, resolvi seguir aquele lance comentado tão sem pretensão, mas carregadinho de sabedoria. Porque se olhar no espelho e se enxergar, não rosto, corpo, roupa, riso; mas alma e olho aberto pra o encontro, pode ser revelador.

É se ver e conversar e dizer bom dia pra moça que hoje olha meio enviesado mas que precisa, nesse bate papo, saber mais de si mesma. E contar pra si que é amada, tem dúvidas, às vezes quer tentar outras histórias. Hoje, quarta, dia de casa e almoço em casa e vinho e música, resolvi antes do banho e da ergométrica colocar essa conversa na agenda.

Daí que, no espelho, consegui verbalizar amor. Consegui falar das dúvidas. Consegui enxergar claramente todas as características da avó linda que tive desenhadas em meu rosto. E, pensando, ainda tenho, pois que está no coração, na barriguinha travesseiro, na poesia, no desejo de ser melhor, na forma como cozinho e deliro com os elogios dos meninos.

Consegui, no espelho, falar do que preciso. Olha, Carla Patrícia, eu quero isso. Eu preciso. Esse é, realmente, o meu desejo. E, presta atenção agora, eu gosto muito, muito de tu, visse? E te acho foda às vezes. Acho que você até que está educando seus filhos de um jeito legal. Acho que tem horas que tem muita luz e gente boa ajudando. Acho que você pode ser grata até a aquilo que não deu certo. Acho, inclusive, que fazer escolhas e dar adeus pode ser um passo infinitamente doloroso. Mas necessário. E nesse percurso estranho porque próprio e só seu, dona Carla, bora ter coragem, visse? 

Bora se inventar de novo e aprender e perceber nuances. Bora dar adeus aos padrões de pensamentos, atitudes, tristezas. Bora achar incrível viver e saber tanto de si mesma. Bora ser feliz com essas criaturas amorosas que, tenho certeza, não por acaso estão ao seu lado. Então que a manhã de quarta foi isso: aprendizado, escuta, entrega, claridade. Mesmo hoje o dia sendo nublado. Porque o espelho foi alma refletida para muitos e imensos bons desejos.

Carlota

04032015

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A construção do afeto

O que me salvou foi o seu gingado, moço. Esse jeito de andar na minha frente, com sua farda de serviços gerais e uma malemolência que dizia: relaxa, a vida pode ser incrível. E eu, que estava na vibe do vou ali e não quero mais voltar, me rendi ao inesperado encontro com o molejo desse cara que, hoje, resolveu andar na minha frente e sem perceber me contou da alegria, nesse lance de desapegar de tanto problema que aparece, de tanta tarefa, tanto prazo, tanto calor e putaquepariu tá chegando o carnaval e pra onde eu vou?

Na verdade o texto versa sobre a construção do afeto. Essa necessidade que, acredito, todos nós compartilhamos, de amar, de se sentir querido, de vez ou outra dividir a vida, seja a alegria predominante ou umas tristezas de leve a chegar independentes do sol, do mar ou da brisa que faça.

Afeto é construção, penso aqui comigo. É aquele lance da convivência apontando coisas legais, similaridades, disparidades totais, visões de mundo que não chegam nem perto da sua. E se for família, ah, nêgo, nêga, é pra lascar. Como explicar pra esse mundo de gente que a gente é um mundo e cada um é também? Como garantir o encantamento com três filhos na pré-adolescência com todos os benefícios e ônus que chegam junto? Como justificar a necessidade de silêncio, colo ou compreensão para um povo que lhe conhece há 45 anos?

Construção. Eita coisinha difícil a convivência. O distanciamento. A pausa. A vontade de dizer hoje não, peloamordedeus, só me dê afago e tranquilidade e almas benfazejas e alegrias e cumplicidade e sorrisos e abraços e um dengo assim derramado bem juntinho de sua janela que cheira a jasmim.

Como dizer que uma vida inteira pode passar e a necessidade continua? Como entender o hábito de esperar ser o centro das atenções e, depois de milhares de anos luz e análises microscópicas, perceber que não vai dar mais? Como ser explícita o suficiente para dizer que por favor não se atreva a podar as minhas árvores, porque aí eu viro bicho e quando entra o afeto filial, primordial, aí a pessoa endoida de vez?

Talvez se a gente entendesse que é preciso se desarmar o suficiente para saber que o processo é recíproco. Que se eu sinto, você provavelmente também pode estar passando por isso. Alteridade. O outro. O desejo do outro. O medo do outro. A dor do outro. A alegria também. E essa vontade de viver bem muito, bem feliz e distribuir afeto de monte, de sempre, sempre, sempre, sempre.

Há também quem nos dá amizade mas no final das contas cobra presença e sente ciúmes. Sou um absurdo, um abuso de ciúmes. Mas faço cara de paisagem disfarçando o sem número de anos que passei sendo a menina mais doce, mais amena, menos trabalhada da história. E se alguém se ressente hoje e se me afasto, ô pai, colabora aí para que eu não precise escutar tanto e tanta coisa. Porque afeto não se cobra, não se paga, se constrói.

Junto a pai, mãe, filho, filha. Junto ao amigo para o qual você estende os braços ou só os pensamentos. E o querer bem. Porque afeto é algo que não chega assim de repente. Ele pede conhecimento. Presença inicial. Verdades, histórias, memórias, partilha. E se se esquece o que foi vivido, por que mágoa, por que dor, por que tanta cobrança, peloamor?

E aquele cara que no meio do meu dia de trabalho achou de caminhar na minha frente salvou meu dia inteiro. Porque desanuviou a cabeça pesada. Porque me lembrou que é muito, muito melhor seguir mais leve. Com gingado, malemolência e, digo logo, esperando pra daqui a pouco o carnaval.

Carlota

04022014

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

De paixão e agonia (de verdade, foi saudade)

Hoje quebrei a unha. Me queimei fazendo o pirão do chambaril. Comprei uma bola de futebol americano pela internet. Tive reuniões. Ganhei uma Mafalda de presente. Tomei Stella Artois. Vi filme, ouvi música, estudei inglês. Passei o dia me distraindo da sensação de ontem. Passei o dia tentando lembrar de quando foi o dia que me apaixonei por alguém pela última vez. Tempo do caralho. Tempo imenso. Porque lembro direitinho como foi. E é bom que só, junto com uma certeza que chega de repente e invade. Pele, riso, corpo, os fios de cabelo da nuca, uma infinidade de pensamentos.

E não tem vontade ou quebranto que dissolva essa consciência. Não tem fórmula não tem recado não tem porra nenhuma. Chegando, ela fica. Boa, boa, boa. Então que a gente pensa em se esforçar pra sentir de novo. Imagina se tem alguma peça faltando nesse coração esquisito. Se tem alguma pessoa no vasto mundo que se chegue devagar ou rapidinho e lhe garanta o aceleramento do batimento cardíaco. A boca seca. O desejo de estar perto, perto, perto. De ouvir, olhar, tocar.

Tem dia que acho que tem peça faltando mesmo nesse coração esquisito. Parece que comeram alguma coisa, parece que a razão lhe explica todas as formas de dissociação e autoconsciência. Em outros, há tranquilidade e vontade de viver. De curtir um grupo de afetos risonhos, que bebem tanto quanto e dançam, almoçam, dormem, tem outra leva de problemas pra dividir e alegrias pra contar.

Tem dia que dá vontade de fazer a energia boa circular. De querer bem e o desejo de que tudo corra bem. Em círculos amorosos e quebrando caixas especiais (como essa, de saudade). E foi assim que hoje lembrei de um outro grupo. Que não posso mais ver nem tocar. Foram inúmeras massagens dos corações, carinhos nos cabelos, abraços de ano novo e de dia-a-dia. Acho que foi isso, hoje, minha agonia.

Carlota

22012015

domingo, 14 de dezembro de 2014

Portas

Naquele tempo todas as portas estavam fechadas.
Abri-as devagar. Uma ou outra. Poucas.
Não vislumbrei mudanças.
Não percebi nenhuma diferença sobre o que era ou o que estava.
Sobre o que mostrava ou escondia.
Alegria para dividir com amigos.
Tristeza para chorar de leve.
Desejo para morrer com o tempo.
Lembranças para doer de novo.
Olho as frestas de novas portas.
Trancadas, abertas, não sei quais as certas.
Perdi as chaves.

(lembrança de um tempo distante, quase dez anos)

domingo, 7 de dezembro de 2014

Portas, chaves e algo mais

Fiz roteiros mentais ontem ainda na vontade de descrever momentos distintos que vivi em 2014. Todas as portas que precisei fechar por uma necessidade absurda. Era isso ou a dor. Era isso ou a incerteza. Era isso ou invasão.

Sobre a habilidade das pessoas que falam
E quando elas, incrivelmente, sabem tudo sobre você e onde inserir o dedo para cutucar todas as feridas. Sobre a forma como elas nos cativam. Sobre quem nos envolve. Não, não são as mesmas. Mas, em comum, a forma como falam e vão, intencionalmente ou não, mudando sua vida.

Sobre portas
2014 veio domesticando minha fera interior, a que livremente se mete a deixar abertas as portas, para ir e vir. Fechei algumas delas. Não apenas elas, mas todo contato virtual, real, sim, te excluí. Sim, vá à merda. Foi essa a sensação.

Sobre o choro
Sou apegada a pequenos objetos e a pessoas. Daí que fechar qualquer porta me provoca um choro de semanas. Falar nisso, choro desde terça-feira. Um desamparo, moço. Uma agonia, moça. Porque as danadas das criaturas que sabem falar me convencem em tempo integral que uma parte de mim, ou toda ela, é insustentável. Incômoda, egoísta. E a dor de ouvir de quem tem a habilidade de falar, dá essa impressão besta de que elas, realmente, tem razão. Corra, Lola, corra.

Sobre os amigos
Não sei quantos possuem o entendimento de que um abraço representa uma volta ao mundo para quem está chorando. Para quem está alegre. Para quem está em um conflito interno que invade os dias e lhe tira o ar. Não sei se há a percepção de que um abraço salva. De que o acolhimento de receber o outro nos braços e deixá-lo ali, enquanto for necessário, está ligado ao cheiro de terra molhada, aos lençóis perfumados, à comida quentinha, à ancestralidade de nossos avós. À parte mais branda e afetuosa que a gente se permite ter.

Sobre chaves
2014 foi, também, de descobrir chaves escondidas. Abri a mente, acolhi ajuda, dei espaço para choro, para a dor, para as alegrias. Abri espaço para gente que nunca enxerguei direito. Para receber a orientação de pessoas extraordinárias, na vida, nos estudos, no trabalho. Abri, abri, abri. Os olhos, o corpo, a alma, a vida. E me senti segura no descobrimento, nas cortinas escancaradas, no sorriso sincero e com o que decidi viver. Bem assim.

Sobre hoje
Noite em Olinda, amiga querida, a dor no peito ainda me fazendo chorar. Vontade de ser mais. A ideia de ser apenas uma. Conflito libriano regado à cerveja, ladeira, lua, cigarro mentolado, andar pelas calçadas, gentileza. E encontros inesperados e felizes.
A vida, a minha, é assim.

Carlota

07122015