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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sobre os tempos

Faz tempo quero escrever esse texto, motivada principalmente pela conversa com um amigo querido. Aquele que há alguns anos é um dos afetos que dividem o espaço do cotidiano em mensagens pelo whatsapp, recados no fb ou nos fortuitos encontros que acontecem pra nos lembrar que sempre é tempo de conversar e aprender mais sobre a gente.

Em uma noite na qual estava particularmente melancólica, ele relembrou de mim, tirando do juízo a lembrança de minhas próprias reflexões sobre um momento da vida dele. E fiquei lá, meio besta, me perguntando porque tem horas que a gente desaprende a viver aquilo no qual acredita. Sei lá que coisa doida é essa, que desarvora tanto e nos deixa sem ação. Sem vontade. Sem memória. 

São tempos, Carla. E lá foi ele me dizer o que eu mesma lhe havia dito. E que lhe tinha sido afago. Que a gente precisa entender que nem sempre tudo vai durar pra sempre. Que há os tempos de cada um junto da gente, assim como o tempo pra dor, o tempo para aquele riso solto ou pra carreira desabalada que a gente dá querendo encontrar alguém. 

E nem por isso, quando acaba, quer dizer que foi ruim. Nem por isso, quando acaba, é preciso sofrer pensando no que ficou pra trás e que às vezes volta, tão forte, que faz uma falta danada. Daquele colo incrível, da franqueza possível e construída junta, da familiaridade de dividir segredos com as pessoas que te recebem pela madrugada, cedem seu tempo, sua família, sua casa e apenas acolhem. 

Tem tempo que amizade acaba. Tem tempo que amor vai embora. Tem tempo do irmão que morre. Tem tempo do rebento que cresce e surpreende com o tamanho dos próprios sonhos.  Tem tempo de sentar na mesa e chorar. De morder o lábio de nervoso. De pingar a lavanda pra ansiedade acabar. 

Tem tempo pra tanta coisa e cada uma com seu espaço na vida, ou sua ausência, que é preciso, ou melhor, que eu preciso ver de pertinho com meu coração. Cheio de reservas, como quem estranha ser querido. Como quem às vezes se vê muito alegre e tranquilo. Ou descobre amor pela muda de limão galego que trouxe de um hostel na Vila Nazaré. Pedaço de gentileza que espero ver crescer. A seu tempo.

Para Marcelo, Clarissa, Jéssica e Francisco

Carlota

01122016


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

De leve

Eu poderia dizer mil vezes que eu não tenho nenhuma leveza. Que sou uma alma angustiada. Que tenho uma gastrite que me ataca de vez em quando e me obriga a um tratamento de 30 dias com omeprazol. E que óleo essencial de lavanda pra mim é tão necessário quanto um beijo bom.

Eu queria mesmo era dizer de novo que não, não sou calma. E que dentro de mim ficam se balançando todas as cartas do tarô: o diabo, o eremita, o louco, a roda da fortuna, sol, lua e imperatriz. E que jogo o I Ching e ele me aconselha a ficar em silêncio, a perceber as virtudes do sábio, a observar a natureza da água, da montanha, do ar.

Aproveito e entrego que leio mensalmente o horóscopo de Susan Miller. E digo, puta merda, de novo Saturno tá lascando minha vida! Que já pensei em jogar tudo para o alto e se não jogo nunca é porque alguns laços são queridos e importantes demais. Que bate um cansaço do caralho quando a rotina ainda me inclui um trânsito insuportável e viagens de avião em pequenos intervalos. E que gosto de Jack Daniel’s e Malboro. E sinto falta de dançar.

Mas também quero falar dessa vontade de distribuir amor quando estou feliz. Que envio ondas mentais de carinho para meus queridos. Que saudade quando aperta me faz ligar e propor um café, uma cerveja, qualquer desculpa para conversar bem muito e abraçar ainda mais. 

Que abraço pra mim é o cumprimento mais legal do mundo. E nele entrego bons desejos. E recebo ondas e mais ondas de coisas lindas. E talvez daí chegue uma leveza de quem franze a testa apenas porque é míope. E, pela miopia, às vezes deixa de reconhecer alguém ou perceber o quanto uma criatura é interessante.

E esse arrodeio todinho foi para agradecer às pessoas da minha vida, e aos que estão pertinho apenas pelo bem-querer, os abraços, beijos e afagos pelo meu ano novo. E pela leveza que veem em mim.

Carlota

08102015

sábado, 16 de agosto de 2014

Soltando você

Em alguns momentos da vida da gente uma iluminada onda de amor invade o peito. E, nesse tempo, é preciso fazer algo para que ele circule, se espalhe. No dia 12 de agosto ela chegou de repente e me vi parando no meio da cozinha, olhando a janela de onde vejo minhas árvores e desejando que todos os meus amigos e a minha família pudessem partilhar daquele deslumbramento. Porque uma alegria genuína me invadia. Parei no meio da cozinha, olhei para minhas árvores e senti o peito se expandir e aquecer. Pensei em cada um. No jeito de cada um. Na vida de cada um. E quis, intensamente, que eles pudessem naquele instante sentir o quanto eu os amava.

No início de agosto participei de um minicurso de meditação. Na verdade, um curso que prepara o corpo a se habituar ao silêncio e à quietude. No primeiro dia ainda, finalzinho de tarde, no momento da prática e enquanto ainda ajustava corpo e pensamento para que a mente enfim se esvaziasse, fui lembrando aos poucos de pessoas queridas. Do meu tio Ricardo, que há 15 anos me deixou órfã de um cúmplice; da minha avó, que resistiu até 2001 e pode conhecer dois dos meus três filhos; de duas amizades que por terem acabado ainda me provocavam dores.

E no relaxamento antes da mente esvaziar-se por completo, disse para mim que iria soltá-los. Para que eu pudesse viver com mais alegria, para que eles pudessem voar mais alto, para que as amizades extintas pudessem se transformar em bondade e calma. Senti que naquele momento toda a minha alma se revelava e se despedia. Senti que meus afetos perfeitos eram enfim livres do meu peso. Senti que, finalmente, o luto se encerrara e a saudade não machucava. Era amor.

Então que nesta quarta, quando os 15 anos de Ricardo ausente se fazia, aconteceu o inesperado e o corpo se encolheu em uma dor tão grande, porque meus amigos estavam nela mergulhados. Nunca pedi tanto por silêncio enquanto precisava falar. Nunca pedi tanto minha casa, juntinho dos meus filhos, enquanto afastada estava. Nunca senti tanta necessidade de envolver cada um deles em um abraço enroscado para dizer que lhes amo muito.

Queria, naquele momento, e quinta, sexta, hoje, que houvesse a possibilidade de amparar cada um com meu corpo junto. Porque está doendo em cada pedaço, em cada um deles e a dor reverbera em meu peito. Que naquela terça havia se enchido de uma alegria tão linda enquanto eu olhava as minhas árvores e lhes queria bem. E, daqui, estou com vocês.

Carlota
16082014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A legião estrangeira* (uma antropofagia da alma)

Foto: Gabi Valadares


























Ocupada que estive cozinhando os presentes de Ano Novo, não pude falar com cada um sobre esse desejo de um 2014 mais doce e leve. Porque 2013 trouxe ausências quase insuportáveis. E me fez reformular velhos hábitos, procurar encaixes inexistentes, caminhar sozinha. Sem tribo. Estrangeira.

Não é sem dor que a gente dá adeus. A um marido, um amigo, uma amiga. Não é sem dor que a vida mexe com a gente e obriga a encarar a solidão. Não é sem ela que a gente se transforma. Mas, com ela, foi embora um monte de medos que estavam por aqui.

Estrangeira. Ciclos às vezes tão repetitivos. Após uns 15 anos juntos, acabou um casamento (e há pouco vi uma foto da nova família e fiz as contas e então estão juntos há mais tempo agora do que a gente foi realmente casado e eu fiquei meio parada e depois me perguntei pra que contar).

Após uns 20, uma amizade antiga foi para o espaço. Não sem antes eu me achar visceralmente má. Não antes de me enrolar em culpas e me achar a mais inferior das criaturas. Não sem antes eu querer beber muito, dançar muito, esquecer tudo.

Me sentir sem tribo trouxe uma vantagem. O acolhimento que sinto ao compartilhar o mundo de pessoas que eu, durante esses 20 anos, não tinha visto uma única vez.  E pequenos presentes foram sendo entregues ao longo do ano, para amenizar desamparo, chororô e me lembrar de alegrias.

Como me sentir amorosamente em casa na casa e na companhia de Gabriela e Antônio. Como, com Mari, ouvir tranquilamente que não sou uma moça boazinha, andar de bicicleta, beber e conhecer, finalmente, o Xinxim. Rir e decorar as histórias de Black e, num dia, curtir seu abraço bom. Sentir a serenidade de Adeildo, só amor nessa criatura. E a doçura de Pedro, ouro puro bem guardado que tem meu coração (esse, amigo antigo, mas me renova tanto tanto que pra mim é sempre novo pois me trouxe ainda Ivalda e Vitor, mãe e irmão).

Daí que fiquei pensando, ao cozinhar, no lance da antropofagia. Das tribos que comem os inimigos para deles guardar sua força, coragem, energia. E como não poderia me dividir em pedaços (tenho pra mim que sou indigesta), achei de cozinhar com a alma, na esperança que ela fosse junto.  Então, cada pote foi levando Carla. Com açúcar, com afeto, da mulher sem tribo, mas com amigos novos que parecem antigos. Ou melhor, meus amigos.

Feliz ano novo, amorinhos. Vocês são minha legião estrangeira :)

Carlota
070114
* A Legião Estrangeira é título de um livro de Clarice Lispector que reúne 13 textos, incluindo o que dá nome à obra. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Varrendo a saudade


Aquela mulher pequenininha me encheu de cócegas e ainda me ameaçou com um mergulho corporal, provavelmente pesado, quente e alegre. Foi bom ver seu riso e os olhos brilhantes pela recordação. “Um mergulito”. Sua descrição encostada na parede foi tão boa que consegui visualizar a cena: mãe e filha abraçadas na cama após um pulo surpresa dessa menina gata e amiga minha.

Durante um fim de semana estive ocupando um apartamento à beira do rio Capibaribe. Eu, amadora desenhista e fazedora de farofas e brigadeiros, não tinha força nos braços pra eliminar de vez as dezenas de caixas acumuladas em um dos quartos. Me envolvi com a pintura e ilustração de uma das pilastras, enquanto amigos lixavam móveis, furavam as paredes, penduravam quadros, arrumavam a casa e também bebiam, escolhiam e cantavam músicas, dançavam, viviam.

Eu me senti encaixada num espaço privilegiado. O de memórias, permanências, novidades. Cada móvel em vistas de ser restaurado; as plantas; a infinidade de copos, taças, canecas. As maravilhosas janelas e a cidade logo ali.

Me dei conta da importância de preservar. De cuidar. Guardar. Cada caixa aberta, na arrumação do segundo dia, ia revelando um pedaço de vida de Gabriela. As cartas ilustradas do amigo músico. A coleção de Agatha Christie, uma infinidade de lenços coloridos. Telas em branco ou pintadas, santos, anjos, um aparelho de sushi. Nada ali descartado ou deixado para trás. Preciso foi apenas buscar espaço, organizar, doar o que era demais, mostrar o que nem se lembrava.

Então fiquei pensando naqueles que ao mudarem de casa, espaço, deixam tudo para trás. Ao encontrar um apartamento antigo, tratam logo de reformar o banheiro, retirar os tacos de madeira, providenciar porcelanatos. Parecem avessos a apegos, lembranças. Gabriela trilha o caminho oposto de quem acha tudo descartável. Restaura, manda reproduzir os azulejos antigos e, mesmo quando incorpora móveis novos ao ambiente, revela o muito que traz dentro de si: cada espaço recebe objetos que são apenas dele. E fazem a casa ser sua inteiramente.

Ciúme quando a imagem da foto foi mostrada apenas a Mariana. A minha sem vergonha cara de também quero ver o que é. A imagem fez Gabi chorar – desculpa – e, ao mesmo tempo, deixou-a mais parecida com a fotografia. Quis contar e nem disse para Mariana (o que aconteceu só em outro encontro). Da lembrança da primeira farra gastronômica na sua casa, após seu retorno ao Brasil. A primeira que eu fui.

Ao chegar à portaria do prédio em Setúbal a fortíssima sensação de estar sendo acolhida em uma onda quente de quem quer bem e gosta de casa cheia. E que a gente tinha comentado isso na mesma noite, a casa alegre. Como o seu apartamento no sábado e domingo de ocupação. 

E ao lavar os pratos, ouvir música e ver suas memórias, no ocupar a cozinha e na alegria de beber descalça e livre, me achei artista. Na permanência de uma pilastra que ainda nem terminei de pintar. Mas que está assim, carregadinha de lembranças pra você. 

Para um povo muito foda: Gabriela Valadares, Antonio de Hollanda, Rodrigo Riszla, Mariana Freitas, Jr. Black, Raquel e Maria.

Carlota
1910-01112013

sexta-feira, 7 de junho de 2013

De repente

Não precisa muito. Precisa apenas você. Aliás, preciso. Na justa distância do meu braço estendido pra, se eu quiser, estender meu braço a você. E nem precisa presente, nem presença. Precisa sim, a certeza absoluta de alguém a quem se vai amar pra sempre. Desse jeito que a gente escolheu pra amar.

Conversa mansa, olho bom, pele morna, beijo quente, abraço longo. Saudade se esvai quando eles surgem. Na tarde linda, olhando o céu azulzinho, em meio a móveis turquesa – eita cor linda – parei um pouco de lhe ver para observar aquele pedacinho de plástico que caiu refletindo o sol. E brilhava, o danado. Tanto que me lembrou a última cena de Beleza Americana, quando uma sacola de supermercado dança ao vento, em um momento repleto de poesia.

E a gente faz literatura, arte, trela. A gente se revela, se esconde, se encontra. A gente é tudo quando a gente quer ou menos se espera. A gente é um jeito de amar. O da gente. Esse aí.

Há cafés, sandubas, saladas. Há uísques, cervejas, sucos, água. Há a sua imagem se recostando na cadeira, todo o tempo do mundo, só pra me ouvir. Ela está em minha retina agora. Prova de uma cumplicidade que faz aniversário amanhã. Ou em qualquer dia no qual a gente se veja. Porque a gente festeja.

E a reciprocidade de amar a vida, cada um ou em conjunto, é um pouco o que a gente é. Talvez seja o segredo de não haver o passar do tempo, sentido como se fosse perda. O passar do tempo só vai mostrando essa forma própria de viver. Seja lá o tempo que for.

Carlota

07062013

sábado, 13 de abril de 2013

Milkshake de tangerina

E aí você, que nunca se aventurou além do sorvete de flocos e o máximo de risco gastronômico que assumiu foi tomar o chicabon apesar de todas as recomendações sobre as calorias e o colesterol, não sabe a delícia de um milkshake de tangerina.  É preciso contar sobre a pessoa que resolveu investigar esse sabor. Ela costumava misturar almôndegas com geleia de framboesa quando morava em outro país. Também tem o hábito de mesclar doce e salgado sem frescura nenhuma. E sem forçar ninguém a nada.

Daí que o milkshake, para quem já adora frozen de tangerina e na praia costuma consumir raspa-raspa (livrai-me-de-pensar-por-onde-vai-a-mão-que-raspa-o-gelo) de morango e coco, não pareceu algo tão escatológico quanto um sorvete de macaíba, por exemplo.

O inusitado começou quando aceitei o convite para um rodízio de sushi. Você pode estar com água na boca ou com o estômago revirado, confesso logo que se fosse uma pizza de pepperoni tinha ficado mais animada. Qualquer rodízio me deixa em desvantagem. Não consigo comer muito e aquela exuberância de comida passando o tempo todo termina me perturbando visualmente a ponto de ficar inapetente.

Encontro Pedro Bezerra, o sensato rapaz que fez aniversário há 13 dias. Encontro Juliana, amiga de Pedro, que um dia dividiu uma garagem e aulas de desenho comigo, me matando de inveja com seus mangás maravilhosos. Encontro Vitor, irmão de Pedro, também um amplo distribuidor de abraços e consumidor de sorvetes e sushis. Tive de ouvir ser eu uma farsa. Quem conhece Pedro lhe conhece também a expressão. Explico: fui logo dizendo que só ia consumir coisas cozidas, sushis maçaricados, apelando para a neutralidade de sabores. E aí terminei colocando no prato salmão, alga, peixe, uns empanados e vamos comer!

A gente estranhou sim, mas foram as duas telas exibindo MMA, logo acima do balcão de comidinhas. Os caras suados, se atracando, a gente sem ouvir nada, e de repente Ju vai de narradora: “amigo, me dá aqui um abraço!” O cara escorrega e ela fala: “pô, cara, cosquinha não vale”. E depois a sede avassaladora. E a gente olhando sem acreditar o preço de um copo de 330 ml de suco: R$ 5,00. Mas o danado era de tangerina. E foi dando ideia. Na recusa em consumir qualquer bebida, vai todo mundo pra sorveteria.

No caminho, Ju assusta um pobre ciclista, tem de escutar Pedro dizer que ela sim, assustou o ciclista e a gentil menina que se dispôs a dar carona até a John's da Madalena nem água quis. Vitor foi no casquinho com duas bolas de sorvete de morango – Ju estranhou a escolha. E garantiu: aposto que vocês serão as primeiras pessoas a pedir um milkshake de tangerina. Perguntamos. E a atendente responde: a mim, foi a primeira vez.

Dividimos um de meio litro com calda de morango. Pedro queria caramelo, eu disse que ia morrer de enjoo. Ele se rendeu – é tudo fruta, combina. E a gente senta com dois canudinhos e fica dividindo aquele pedacinho de céu. Doce, azedo, leve, quase um frozen mesmo. E ele corria a beber e eu enrolada naquela divisão.

E nessa história Vitor nos explica sobre o porquê de um bairro recifense se chamar Bomba do Hemetério (tinha um cara com uma bomba que garantia água para os moradores do lugar). Eu expliquei o porquê do nome Chão de Estrelas (uma comunidade de lavadeiras que estendiam roupas e lençois nos varais e, com a luz da lua, as sombras se projetavam por entre as peças formando desenhos no chão, parecendo estrelas). E a gente ficou assim, achando bonito isso tudo.

E enquanto o sorvete durava, apareceu até Bauhaus. Com espaço pra gente dizer que menos não é mais de jeito nenhum. Que um pequeno detalhe, um ornamento, algo inusitado, pode deixar um objeto mais belo, uma casa mais bonita. “Isso tem amor”, diz Pedro. Como a mistura doce-azeda abrandando o calor do sábado em Recife.

Carlota
13042013

domingo, 6 de janeiro de 2013

Encontro


Toda casa deveria ter alpendre, todo apartamento, varanda. Todo quarto, jardineira. Toda alma vez em quando um sobressalto, susto, espasmo.

Toda casa deveria ter um dono que nela habitasse e lhe deixasse marcas. Livros, uma manta sobre o sofá, almofadas, água. Pratos e talheres, algumas taças.

Há de se ter, também, um balanço em um cajueiro. E alguém que chegando pela primeira vez nele se balance. E um amigo, outro, que sem cerimônia lhe roube os frutos.

Uma casa deveria, pelo menos uma vez a cada ano, abrir as portas para os desconhecidos amigos do dono. Para eles e suas risadas, para as músicas, o vinho, cerveja, brindes, piadas.

Mulheres e homens de pernas de fora. Cães que se enroscam quase gatos, filhotes, buganvílias e flamboyants.

Toda casa deveria ser testemunha do riso, da prosa boa, de ostras ao coco, arrumadinho, bolos, doces e de uma amiga que traz para o convívio lírios de anjo. De afagos e afeto.

Casa, dono, amigos deveriam ser surpreendidos. Música vira presente, se torna parte, é carinho inesperado. E, do todo, se sabe: aquele que fez tem beijos musicados, invenções para dar amor em gesto
s.
Toda casa deveria ter um dono que cobrisse hóspedes de gentilezas em uma tarde saborosa de sábado. E, eu sei, pelo menos uma delas está em Vila Velha.

Para Alexandre, Dario e os doces companheiros do sábado, 15.12.

sábado, 10 de novembro de 2012

De alegria, felicidade e outras coisas boas


A vitrine de aniversário da loja que eu tenho em sociedade com duas amigas tem esse mote. Três anos de perrengue, beleza, cumplicidade, sonho. O mote surgiu ao ver um cartaz no pinterest “Be happy”,  ser feliz. Muito além de qualquer cobrança, fiquei pensando nessa coisa de querer dividir o que é bom. Da alegria, da felicidade, das coisas boas que nos acontecem aos montes e a gente nem percebe. Daquele cara que deu um sorriso encantador e levou seu ego para as alturas. Daquele dia em que tudo deu certo. Da decisão tomada e do alívio que ela provocou. Do fato de encontrar seus filhos ocupadíssimos lendo naquela livraria enquanto você tinha de resolver um problema logo após o cinema. E a vontade e a declaração expressa em seguida: vocês são lindos. Porque souberam esperar, porque estavam embevecidos, mergulhados na leitura. E como é lindo perceber que eles se envolvem nisso tanto quanto você.

Hoje não falarei de dores, tristezas, mazelas, corpo e cansaço. Hoje digo: quero alegria. Quero fazer o brinde e ver a amiga dizer, ao invés de saúde, saudade. Porque os encontros hoje são raros. Muito mais porque o trabalho me toma os horários do happy hour. Mas não é que hoje deu? No mesmo dia em que faço uma vitrine e declaro meu amor completo à festa, à alegria, às inúmeras coisas boas que ainda existem por aí. Bate papo, por exemplo. Dançar. Poesia. Música. Afeto. Encontro.

Sim, vamos celebrar. Abrir o sorriso mais escancarado. Esquecer que existem esquecimentos, dores, ausências. Vamos nos envolver com aqueles que nos querem bem. Não que eu esteja esquecendo as dores do mundo. Não. Mas é preciso também agradecer o fato de ter coisas boas acontecendo conosco. Não é insensato amar. Não é insensato declarar o amor e o envolvimento. Não é insensato fazer escolhas.

Da alegria, felicidade e outras coisas boas posso dizer que são muitas. Que trazem rasgos de beleza, quebrando a rotina em pedacinhos, no fazer as unhas e pintá-las de vermelho, ou renda, ou verde perolado. É só um jeito de viver e de se encantar consigo. De cantar devagar a música que te deixa feliz. De dançar sozinha, acompanhada, flamenco, rodopios, ritmo. De pintar a boca de vermelho e dizer que hoje só você, só você pode ser a mais vibrante criatura. A mais alegre, feliz, intensa pessoa.

Rasga um pouco da mesmice, tira o vestido do armário, abre um sorriso. Porque existem as dores do mundo, as suas dores, e uma enormidade de diferenças, estranhezas e injustiças. Mas, hoje, dentro de você, tem felicidade, não se sabe bem por que. Ou se sabe, quem sabe? Vamos brindar à alegria, convocá-la para os dias, que de cinza se tornam ensolarados. Esse é meu dia, meu domingo, minha praia. Da alegria, felicidade, coisas boas, trago um ano inteiro de imagens, roteiros, amigos. Bora lá.

Carlota
10112012

quinta-feira, 29 de março de 2012

Domingo no Parque


Preguiça. Que ele não saiba, mas penso seriamente em desmarcar o encontro e curtir nesse domingo a minha cama. Preguiça. Levanto, tomo banho, deito de novo. Preguiça. Não há ninguém em casa, o sossego é meu. Levo o jornal para o quarto após o café e leio até a revista da TV. Não vou sair de casa nesse calor. Não quero ver ninguém.

Acordo perto das 13 horas. Quase em desespero. O encontro era às 14, no Parque da Jaqueira. Não ia chegar a tempo. Resolvo ligar. Digo que só agora me arrumo e que vou atrasar uma hora. Tudo certo.

Quando entro no parque lembro que a gente não disse aonde iria se encontrar. Não há celular para eu ligar e saber. A única referência era uma imensa toalha em tons de laranja que ele prometera levar para que a gente sentasse aproveitando a tarde. No lugar, skatistas, adeptos da corrida e caminhada, evangélicos em pregação, ciclistas, crianças, pipoqueiro e vendedor de churros. Vou tentar imaginar como você pensaria, onde você está.

Míope e sem óculos, vou olhando todas as pessoas no gramado. Até decidir usar a lógica ou intuição. Vou seguindo em frente e encontro você lendo o mesmo jornal que horas antes eu havia devorado. A toalha laranja ajudou. Você de bermuda, eu de jeans e camiseta (que fiquei em casa pensando se dava pra usar vestido e deitar na grama). Na dúvida, e na escassez de saias longas, optei pelo mais fácil.

E a gente ficou ali, conversando sobre certas angústias, certos amigos, alguns planos e outros sonhos. Os dois com lápis e cadernos que, nesse dia, não foram usados. Não havia necessidade de registros visuais daquela tarde. Guardamos todos em nossos olhos. A menina soprando para mim algumas bolhinhas de sabão. Sermos usados como esconderijo na brincadeira de um grupo de crianças. Ver um menininho dando passos ainda cambaleantes, ao lado da mãe e da irmãzinha, deliciada pela experiência de tê-lo tão perto e comandar um tanto sua caminhada.

A grama estava um pouco molhada, relembrando a chuva da manhã. A gente estava quebrando a tristeza em pedacinhos, jogando na toalha, rindo do que cada um achava muito grave. Era nosso jeito de nos divertir. E haja conversa pra dizer como conversar com outro. E haja instrução pra desbloquear meus traços. E haja observação de árvores, igreja, pessoas, chão.

Na vontade de comer churros, descobrimos o gosto em comum. Aliás, ambos adoramos doces. Quanto mais brigadeirados melhor. E de repente deu vontade de uma terceira amiga, dela estar ali. Risonha, divertida, louca de pedra (assim como nós dois), não custa ligar pra ver se chegou da viagem à Amazônia. Ela atende. Voz de sono, disse que sim, queria nos ver. Mas num ponto próximo de sua casa. Combinamos de ir até uma lanchonete na Av. Rosa e Silva para encontrá-la.

Hora de recolher a toalha, receber elogios pelas nossas bolsas (cada um gostou da usada pelo outro) e de sairmos caminhando. E como a gente gosta de andar pela cidade da gente. Devagar pela rua do Futuro, quebrando à esquerda na Malaquias, entrando na avenida. O percurso, sei lá, 15 minutos, e ela estava lá. De sorriso, de cansaço, de corpo todo esperando abraço. E a gente feliz, que a saudade foi grande.

Pra onde? Pra uma sorveteria escondidinha que ela não conhecia, a Santo Doce. Tiramisu, morango, leite ninho, cocada, nenhuma calda. Antes, um copo d’água. Cada um vai na escolha do outro e descubro o sabor de uva fresquinha no sorvete de vinho do porto. Apaziguados, com todos os detalhes da viagem contados, vamos à casa de Pedro, no Derby, caminhando juntos. Antes, passamos na de Jullie, também pertinho, para comer delícias do norte.

Na casa de Pedro direto para a cozinha. Torradas, geleia de açaí (gostei não), doce de banana, chá. Muita comida para poder juntar tudo em conversas amenas. A tarde/noite de domingo foram curtas. Para mim ficou a obrigação da despedida, pois tinha de voltar para Olinda. Ao chegar em casa, um email feliz informa do quanto nós duas deixamos o dia mais leve.

Mas acho que não foi só a gente não. Foi a cidade. O caminhar sobre ela se sentindo dono. Ciente da vontade de apenas flanar e observar prédios simpáticos, casarios, vitrais que ainda persistem naquela avenida que também abriga prédios imensos. Ainda existem recantos e uma vontade grande de senti-los em passos pequenos. Nossos.

Carlota
290312

quinta-feira, 1 de março de 2012

Café com bobagem


Dos vícios que carrego com felicidade está o de ser uma leitora voraz e de beber café. E não me esquentem a água para um cafezinho instantâneo. Quero um sabor verdadeiro, encorpado, de um café bem forte, puro, que batizo com pouco açúcar. E, se for com leite, este deve ser fervente e em maior quantidade, quase um espresso latte. Café instantâneo me lembra leituras rasas, romance açucarado, personagens sem alma. 

Marcar um café pra falar bobagem ou refletir sobre a vida, vício maior. Hoje me rendi ao cappuccino com uma amiga. Juntas, dividimos um pão crocante com um recheio que não vou contar, mas que era acompanhado por um molhinho de mostarda com geléia delicioso. Assim como nosso encontro inesperado com um grupo do qual sinto falta. E que estava lá, no mesmo café, o Bogart. À mesa, afogattos, torradas, antepastos, aromas. E uma sintonia de quem vive e brinda também com café. Alegre a reunião, porque sem pretensão de acontecer. Relembramos pedidos em restaurantes, revi Anna Constantino, minha companheira de viagem, e outra de trabalho, Isabel. Conheci Gabriel. 

Lembrou-me o Café com Alma, de Celina e Mauro, espaço perfeito para os amantes dessa bebida e de comidinhas inesperadas, como uma tapioca de queijo gouda com geléia de uva que nos surpreendia pela inusitada e saborosa combinação. Estive neste café em sua última noite de funcionamento, a convite. Poucos sabiam de seu fechamento, eu não estava incluída. Confesso: se soubesse que não teria mais a possibilidade de apreciar a tapioca, o brownie e os frapês espetaculares, incluindo um de negresco inesquecível, teria pedido um de cada, só pra me despedir.

A amiga, os amigos, o cappuccino; o local, a noite, a comida, as bobagens. O conjunto me deixou mais leve naquela noite e hoje também. E vem daí que agradeço a Érica Nunes por ter aceito o convite feito ainda domingo para o que foi um intervalo prazeroso em uma noite de quarta-feira, mesmo sabendo que eu teria pouco mais de meia hora pra curtir o bate papo. Dos vícios que carrego com felicidade está o de estar sempre em boas companhias. Com ou sem café.

Carlota
01032012

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sem medo

Às vezes o coração fica apertado de medo. Como um frágil coração de passarinho. Assustadiço. Mas, e se eu voar?

(para um jogador de polo)