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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A falta que ela me faz

Tenho um histórico de mulheres fortes no caminho. Daquelas que não desistem, que alcançam, dão tudo de si. Tenho um histórico de mulheres que foram embora, seja pela morte ou por viagem, seja por uma briga ou por alguns equívocos que nem sempre a gente pode desfazer.

Quando lembro de minha avó, Dona Creusa, todo um universo de felicidade chega pra mim. Quando lembro dela, vem o gosto de feijão com arroz, revejo brincos e colares de aniversário, ouço novamente seus conselhos. E sinto o corpo quente, gordinho, acolhedor, meu travesseiro na infância e meu pouso e calmante na adolescência e vida adulta.

Minha mãe, presença menorzinha em minha vida, afinal foram só nove anos, lembro pelas unhas vermelhas e intensa vontade de viver. Pelos gritos e exuberância, pelos cabelos arrumados e olhos amendoados como os da minha irmã. Revejo cada um dos seus sorrisos, saboreio até as migalhas de seus bolos maravilhosos. Eró, a irmã mais velha dos meus tios, a mulher com tudo para ter vivido mais. Mas, pelo que viveu, foi muito e foi linda.

Penso na amiga querida que uma sociedade estragou. E quase não consigo admitir essa falta, uma angústia de dois anos. Até eu entender que tudo muda. E a gente tinha mudado, não era mais cúmplice não. Mas o desejo de que a vida seja leve pra nós duas permanece. A gente precisa é muito disso. Leveza, alegria, amor.

Aí vem uma delícia de aluna, de ex-aluna, de amiga, a resolver empacotar todos os pertences, jogar fora as tralhas e partir. Recife não cabia mais nos sonhos, era pequeno, era só isso, Recife. Com lembranças legais e outras não. Gabriela. A quem entrego muito amor e partilha, por tudo que ela me ofereceu: de vistas lindas do Capibaribe até amigos, até o vinho, até a dor que vez em quando eu lhe contava.

Sinto falta dessas mulheres pertinho. Sinto falta também da minha filha, minha nega, minha linda. Que cresceu, é Marina, e não mais menininha, Nina ou Pipoca. A que ainda hoje guarda no espaço entre a raiz dos cabelos e a testa um perfume doce e todo seu. O cheiro da minha flor menina. .

Pra essas mulheres incríveis e lindas, tão fortes e corajosas, desejo todo o bem do mundo. E incluo no pacote outras a me fazer falta mas próximas, ao alcance de um post, uma ligação, um abraço. Salett, Aline, Verônica, Cris, Mariana. Tenho de aprender a entregar o amor pessoalmente. Quem sabe assim ele circula mais forte e esperançoso de dias de sol. Iluminado. 

Carlota

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Gabriela

Primeira vez na vida que me senti uma artista foi em tua casa, quando tu me entregou sem medo uma pilastra como tela para meu traço. E defendeu minhas cervejas de um infiltrado na ocupação de teu apê. Primeira vez na Cubana. Primeira vez na Mamede. Primeira vez de uma ressaca homérica que me fez querer morrer duas vezes e mais uma (presenciada por um Chicão confuso). Primeiríssima e deliciosa vez no Irak, com direito à dancinha com o DJ.

Tu é movimento, moça. Por isso tantas primeiras vezes, tantas belezas e histórias. Por isso tantas despedidas e voltas e idas e agora Brasília. Primeira vez de Morrisey. De festinha de criança para adulto, com direito a lolitas, cachorro quente e dip lik.

Tu, andarilha, também me fez descobrir o pisco e a beleza de ver a rua da Aurora do 17º andar do edf. Caeté. Do café com canela. Do aprendizado sobre pimentas e temperos. Sobre a maravilha que é um manjar de coco com calda de manga e gengibre. Tu é assim. Chama o povo pra comer e faz festa com quem chega.

Pudesse eu, corria pra tu sempre. Assim como também corri de tu quando eu estava muito triste. Porque é quase impossível disfarçar as dores diante dos teus olhos verdes. Danada de menina pra ver o que se esconde. Pra dizer tanto. Pra amar cada um e sempre mais.

De quebra, além do aprendizado culinário, amoroso, vital, ainda conheci teus amigos e eles também se tornaram um pouco meus. Patrícia, Rodrigo, Mariana, Lourdinha, Maria, Laura, Black, Marcela, Paulão, Raquel, André, Íris e tantos outros que se alternavam em tua casa. Também conheci tua coragem, esperança, vontade. Saber quando ir, quando ficar, desejar. Pois tu agora se entrega mais uma vez à Brasília. Onde fará ninho pra receber não só tua vida, memórias, panelas. Mas o desejo de todos os amigos que festejam tua vida. Mulher, seja muito feliz nessa cidade. E prepare o cozido, que vou te visitar.

Xêro, lindeza :)

Carlota
150715

ps.: num teve pendrive, mas vai meu desejo com Nina.

Feeling Good | Nina Simone





quarta-feira, 4 de março de 2015

Conversa com o espelho

Não sei se é uma vibração que emano ou se o universo conspira. Mas, milagrosa e felizmente, tenho amigos incríveis. Desses que compreendem sua necessidade de exílio ou de dançar freneticamente até ficar extremamente cansada. Desses que acolhem em noites calorentas e refrescadas com cerveja, suco ou água. Desses que, de repente, dizem verdades sem a pretensão que elas assim sejam.

Pois Mariana Freitas, essa gata inspiradora de textos e abraços, foi indicando caminhos ao longo de nossa convivência. Um dos presentes maravilhosos de outra moça linda. Essa, Gabriela Valadares, já foi aluna, já foi amiga. Hoje está entranhada na alma, com aquele desejo imenso de gratidão e felicidade. É afeto e parte. É algo que sou.

Mari, moça esperta, além de me apresentar a cafés e bares olindenses, que eu em nove anos na cidade não havia tido coragem de frequentar, se revela uma observadora do gênero humano. E de nossas manias, carências, alegrias. Ontem, lá na Mamede, essa rua simbólica de encontro e boemia, me falou sobre conversas com o espelho. Um lance de se olhar e, realmente, se ver. E como ando em uma fase de escolhas e de adeus, adeus até a modos de pensar e agir, resolvi seguir aquele lance comentado tão sem pretensão, mas carregadinho de sabedoria. Porque se olhar no espelho e se enxergar, não rosto, corpo, roupa, riso; mas alma e olho aberto pra o encontro, pode ser revelador.

É se ver e conversar e dizer bom dia pra moça que hoje olha meio enviesado mas que precisa, nesse bate papo, saber mais de si mesma. E contar pra si que é amada, tem dúvidas, às vezes quer tentar outras histórias. Hoje, quarta, dia de casa e almoço em casa e vinho e música, resolvi antes do banho e da ergométrica colocar essa conversa na agenda.

Daí que, no espelho, consegui verbalizar amor. Consegui falar das dúvidas. Consegui enxergar claramente todas as características da avó linda que tive desenhadas em meu rosto. E, pensando, ainda tenho, pois que está no coração, na barriguinha travesseiro, na poesia, no desejo de ser melhor, na forma como cozinho e deliro com os elogios dos meninos.

Consegui, no espelho, falar do que preciso. Olha, Carla Patrícia, eu quero isso. Eu preciso. Esse é, realmente, o meu desejo. E, presta atenção agora, eu gosto muito, muito de tu, visse? E te acho foda às vezes. Acho que você até que está educando seus filhos de um jeito legal. Acho que tem horas que tem muita luz e gente boa ajudando. Acho que você pode ser grata até a aquilo que não deu certo. Acho, inclusive, que fazer escolhas e dar adeus pode ser um passo infinitamente doloroso. Mas necessário. E nesse percurso estranho porque próprio e só seu, dona Carla, bora ter coragem, visse? 

Bora se inventar de novo e aprender e perceber nuances. Bora dar adeus aos padrões de pensamentos, atitudes, tristezas. Bora achar incrível viver e saber tanto de si mesma. Bora ser feliz com essas criaturas amorosas que, tenho certeza, não por acaso estão ao seu lado. Então que a manhã de quarta foi isso: aprendizado, escuta, entrega, claridade. Mesmo hoje o dia sendo nublado. Porque o espelho foi alma refletida para muitos e imensos bons desejos.

Carlota

04032015

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Varrendo a saudade


Aquela mulher pequenininha me encheu de cócegas e ainda me ameaçou com um mergulho corporal, provavelmente pesado, quente e alegre. Foi bom ver seu riso e os olhos brilhantes pela recordação. “Um mergulito”. Sua descrição encostada na parede foi tão boa que consegui visualizar a cena: mãe e filha abraçadas na cama após um pulo surpresa dessa menina gata e amiga minha.

Durante um fim de semana estive ocupando um apartamento à beira do rio Capibaribe. Eu, amadora desenhista e fazedora de farofas e brigadeiros, não tinha força nos braços pra eliminar de vez as dezenas de caixas acumuladas em um dos quartos. Me envolvi com a pintura e ilustração de uma das pilastras, enquanto amigos lixavam móveis, furavam as paredes, penduravam quadros, arrumavam a casa e também bebiam, escolhiam e cantavam músicas, dançavam, viviam.

Eu me senti encaixada num espaço privilegiado. O de memórias, permanências, novidades. Cada móvel em vistas de ser restaurado; as plantas; a infinidade de copos, taças, canecas. As maravilhosas janelas e a cidade logo ali.

Me dei conta da importância de preservar. De cuidar. Guardar. Cada caixa aberta, na arrumação do segundo dia, ia revelando um pedaço de vida de Gabriela. As cartas ilustradas do amigo músico. A coleção de Agatha Christie, uma infinidade de lenços coloridos. Telas em branco ou pintadas, santos, anjos, um aparelho de sushi. Nada ali descartado ou deixado para trás. Preciso foi apenas buscar espaço, organizar, doar o que era demais, mostrar o que nem se lembrava.

Então fiquei pensando naqueles que ao mudarem de casa, espaço, deixam tudo para trás. Ao encontrar um apartamento antigo, tratam logo de reformar o banheiro, retirar os tacos de madeira, providenciar porcelanatos. Parecem avessos a apegos, lembranças. Gabriela trilha o caminho oposto de quem acha tudo descartável. Restaura, manda reproduzir os azulejos antigos e, mesmo quando incorpora móveis novos ao ambiente, revela o muito que traz dentro de si: cada espaço recebe objetos que são apenas dele. E fazem a casa ser sua inteiramente.

Ciúme quando a imagem da foto foi mostrada apenas a Mariana. A minha sem vergonha cara de também quero ver o que é. A imagem fez Gabi chorar – desculpa – e, ao mesmo tempo, deixou-a mais parecida com a fotografia. Quis contar e nem disse para Mariana (o que aconteceu só em outro encontro). Da lembrança da primeira farra gastronômica na sua casa, após seu retorno ao Brasil. A primeira que eu fui.

Ao chegar à portaria do prédio em Setúbal a fortíssima sensação de estar sendo acolhida em uma onda quente de quem quer bem e gosta de casa cheia. E que a gente tinha comentado isso na mesma noite, a casa alegre. Como o seu apartamento no sábado e domingo de ocupação. 

E ao lavar os pratos, ouvir música e ver suas memórias, no ocupar a cozinha e na alegria de beber descalça e livre, me achei artista. Na permanência de uma pilastra que ainda nem terminei de pintar. Mas que está assim, carregadinha de lembranças pra você. 

Para um povo muito foda: Gabriela Valadares, Antonio de Hollanda, Rodrigo Riszla, Mariana Freitas, Jr. Black, Raquel e Maria.

Carlota
1910-01112013

domingo, 29 de setembro de 2013

Facas, batons e malabares



Terça-feira última, desta semana na qual fiz aniversário, encontrei Gabriela. E, na conversa, disse pra ela: preciso de uma faca! Se alguém quiser me dar um presente de aniversário, me dê uma faca, por favor! Ela rindo daquele desabafo de quem está sem funcionária desde janeiro e precisa alimentar a prole. Pois é, maior simplicidade né? Mas vá cortar um bife com uma lâmina cega. Uma infelicidade, um tempo perdido, uma agonia e eu querendo cometer um harakiri!

E como a amiga é atenta aos meus librianos apelos, recebi hoje de suas mãos um belíssimo exemplar da marca Tramontina. Pense numa alegria. Amei o presente. Amei que veio dela, essa criatura tão boa cozinheira, além de bela. Que de quebra me traz Mariana. E recado dos que não puderam ir almoçar comigo neste domingo.

E então lhe prometi uma crônica, assim, tão singela quanto o pedido atendido. Mas vital, sabe? E então vou ainda incluir Alfredo com o licor de fruta; Silvana com o hidratante Victoria's Secret; Anna com o batom lindamente vermelho, a cor da sorte porteña (eita saudade de Buenos Aires, Anninha). E minha família, que após anos resolveu comparecer! Os filhos bem juntinhos. Café da manhã na cama (eita, foi antes isso) do caçula. Uma amorosidade, derretimento, Bruna, Teresa, Bosco, Wal, Carlinhos, Gecira.

E o que a faca tem a ver com um aniversário? Tem porque descobri por esses dias que, no momento, estava precisando de quase nada. Tenho inúmeros vestidos e sapatos. Uma casa minha. Mesas, cadeiras, sofá. Cama, chuveiro, jasmim e goiabeira. Anéis. Colares. Brincos. Bolsas. Lápis aquareláveis e papéis especiais. Dinheiro podia ser mais, pra viajar talvez.  

Não que minhas necessidades sejam poucas. Preciso de doses diárias de beijos e afeto. Preciso de pessoas alegres. De desafios. Literatura. Beleza. De lua cheia. De abraços. Praia. Caminhada. Parque. Casas para visitar. Orações.  E a precisão, sempre muita, também é atendida. Com um escancaramento de felicidade quando consigo ter tudo quase junto. E aquele banzo suave ou incômodo que chega quando fico perdida em temporais.

Minha querida, podia falar do simbolismo de uma lâmina tão afiada. Pra cortar amarras, além do bife diário. Pra ceifar as ervas daninhas do coração. Pra empoderar e fazer de mim uma valente guerreira! A de boca e anel vermelhos. De paixão. Verdadeiramente, cortar os pesos e ver nessa ausência de quereres materiais um lance mais gostoso. O de estar. O de não ter vergonha de ser. O de, novamente, curtir reunir os amigos para o aniversário (ano passado me escondi um pouquinho, mas foi preciso).

Quando acordei hoje, meu dia, meu ano novo começando, pensei em presentes humanos. Nesses meninos impossíveis e bagunceiros. Nos seus sorrisos. Nos seus beijos. Pensei na leveza de estar me sentindo bem. Li mensagens no facebook. Li mensagens no celular. E teve tanto afeto, sabe? Desses imensos e que, agora, me dão aquela puta vontade de chorar de alegria. Porque é essa intensidade, essa vida que carrego, esse amor todinho, essa Carla menina louca por brigadeiro e a mulherzinha que quer batom vermelho, a da cerveja e Adilson Ramos. A escondidinha fazendo haicais. Uma clandestina que vez em quando pega um bonde errado (e mesmo assim ótimo). E essa previsível mãe de três filhos, 44 anos completados às 11h30 de hoje. Libriana, com ascendente em capricórnio e libra no meio do céu. E, pra encerrar, os malabares. O imprevisível daquilo que a gente não vê.

Um beijo, bem vermelho :)

ps: te amo, tá?!

Carlota
29092013

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Marina


O que se espera quando se escolhe o nome de uma filha? Primeiro, se espera ela, justo ela, a que reinaria absoluta entre dois irmãos. O que significa: adeus à síndrome do filho do meio. Ela  reina, independente de qualquer coisa. Que gênio é esse? E que doçura nesse jeito doce que ela tem. Uma morenice que vai impregnando a gente e de repente, sem querer, um enredamento nessa pessoinha tão linda e viva, viva, viva.

O que poucos sabem é que, ao escolher o nome da minha menina, Marina, fiz inspirada por uma aluna de jornalismo: Marina Moser. O que chamava a atenção? O fato dela ter uma vibe instigada, ser decidida, saber o que queria desde logo. E eu, grávida de alguns meses, pensava: quero que minha filha seja forte assim, tenha esse riso, esse jeito de quem quer pegar a vida com as duas mãos e dizer que sabe sim o que fazer com ela.

Anos depois, reencontrei a ex-aluna. E o abraço funcionou para lhe contar que minha filha tinha seu nome. Não em homenagem, não pela convivência, que foi pouca. Mas pelo tudo que em pouco mais de quatro meses ela, como aluna, foi me mostrando. E ouvi-la dizer que eu estava bem depois daquele tempo, e saber que tínhamos uma amiga em comum, e vez em quando encontrá-la em algum bar com pessoas legais, só me fez entender que aquele brilho, aquele olho de quem vê coisas ruins e boas e sabe quais são elas, inspirou e carregou de uma energia boa o nome que decidi dar à minha filha.

O pai e uma amiga disseram: coloca Morena. Eu respondi: seria óbvio demais sendo minha filha. E, sendo ela quem é, tudo seria, menos óbvia. Pois sua morenice, beleza, doçura, força, tem em parte tudo o que desejo de bom pra todos aqueles que eu amo muito. Que haja encontro, poesia, beleza, chuva, cuidado, comida comida junto, sonho, perfume, energia e traços de transgressão. Porque sem ela, ah, sem ela, a vida estaria perdida!

Com um beijo e abraço de aniversário para a bela Marina Moser, que ontem tive o prazer de reencontrar. Feliz aniversário, Marina!

Carlota
120913

domingo, 6 de janeiro de 2013

Encontro


Toda casa deveria ter alpendre, todo apartamento, varanda. Todo quarto, jardineira. Toda alma vez em quando um sobressalto, susto, espasmo.

Toda casa deveria ter um dono que nela habitasse e lhe deixasse marcas. Livros, uma manta sobre o sofá, almofadas, água. Pratos e talheres, algumas taças.

Há de se ter, também, um balanço em um cajueiro. E alguém que chegando pela primeira vez nele se balance. E um amigo, outro, que sem cerimônia lhe roube os frutos.

Uma casa deveria, pelo menos uma vez a cada ano, abrir as portas para os desconhecidos amigos do dono. Para eles e suas risadas, para as músicas, o vinho, cerveja, brindes, piadas.

Mulheres e homens de pernas de fora. Cães que se enroscam quase gatos, filhotes, buganvílias e flamboyants.

Toda casa deveria ser testemunha do riso, da prosa boa, de ostras ao coco, arrumadinho, bolos, doces e de uma amiga que traz para o convívio lírios de anjo. De afagos e afeto.

Casa, dono, amigos deveriam ser surpreendidos. Música vira presente, se torna parte, é carinho inesperado. E, do todo, se sabe: aquele que fez tem beijos musicados, invenções para dar amor em gesto
s.
Toda casa deveria ter um dono que cobrisse hóspedes de gentilezas em uma tarde saborosa de sábado. E, eu sei, pelo menos uma delas está em Vila Velha.

Para Alexandre, Dario e os doces companheiros do sábado, 15.12.

sábado, 10 de novembro de 2012

De alegria, felicidade e outras coisas boas


A vitrine de aniversário da loja que eu tenho em sociedade com duas amigas tem esse mote. Três anos de perrengue, beleza, cumplicidade, sonho. O mote surgiu ao ver um cartaz no pinterest “Be happy”,  ser feliz. Muito além de qualquer cobrança, fiquei pensando nessa coisa de querer dividir o que é bom. Da alegria, da felicidade, das coisas boas que nos acontecem aos montes e a gente nem percebe. Daquele cara que deu um sorriso encantador e levou seu ego para as alturas. Daquele dia em que tudo deu certo. Da decisão tomada e do alívio que ela provocou. Do fato de encontrar seus filhos ocupadíssimos lendo naquela livraria enquanto você tinha de resolver um problema logo após o cinema. E a vontade e a declaração expressa em seguida: vocês são lindos. Porque souberam esperar, porque estavam embevecidos, mergulhados na leitura. E como é lindo perceber que eles se envolvem nisso tanto quanto você.

Hoje não falarei de dores, tristezas, mazelas, corpo e cansaço. Hoje digo: quero alegria. Quero fazer o brinde e ver a amiga dizer, ao invés de saúde, saudade. Porque os encontros hoje são raros. Muito mais porque o trabalho me toma os horários do happy hour. Mas não é que hoje deu? No mesmo dia em que faço uma vitrine e declaro meu amor completo à festa, à alegria, às inúmeras coisas boas que ainda existem por aí. Bate papo, por exemplo. Dançar. Poesia. Música. Afeto. Encontro.

Sim, vamos celebrar. Abrir o sorriso mais escancarado. Esquecer que existem esquecimentos, dores, ausências. Vamos nos envolver com aqueles que nos querem bem. Não que eu esteja esquecendo as dores do mundo. Não. Mas é preciso também agradecer o fato de ter coisas boas acontecendo conosco. Não é insensato amar. Não é insensato declarar o amor e o envolvimento. Não é insensato fazer escolhas.

Da alegria, felicidade e outras coisas boas posso dizer que são muitas. Que trazem rasgos de beleza, quebrando a rotina em pedacinhos, no fazer as unhas e pintá-las de vermelho, ou renda, ou verde perolado. É só um jeito de viver e de se encantar consigo. De cantar devagar a música que te deixa feliz. De dançar sozinha, acompanhada, flamenco, rodopios, ritmo. De pintar a boca de vermelho e dizer que hoje só você, só você pode ser a mais vibrante criatura. A mais alegre, feliz, intensa pessoa.

Rasga um pouco da mesmice, tira o vestido do armário, abre um sorriso. Porque existem as dores do mundo, as suas dores, e uma enormidade de diferenças, estranhezas e injustiças. Mas, hoje, dentro de você, tem felicidade, não se sabe bem por que. Ou se sabe, quem sabe? Vamos brindar à alegria, convocá-la para os dias, que de cinza se tornam ensolarados. Esse é meu dia, meu domingo, minha praia. Da alegria, felicidade, coisas boas, trago um ano inteiro de imagens, roteiros, amigos. Bora lá.

Carlota
10112012

quinta-feira, 29 de março de 2012

Domingo no Parque


Preguiça. Que ele não saiba, mas penso seriamente em desmarcar o encontro e curtir nesse domingo a minha cama. Preguiça. Levanto, tomo banho, deito de novo. Preguiça. Não há ninguém em casa, o sossego é meu. Levo o jornal para o quarto após o café e leio até a revista da TV. Não vou sair de casa nesse calor. Não quero ver ninguém.

Acordo perto das 13 horas. Quase em desespero. O encontro era às 14, no Parque da Jaqueira. Não ia chegar a tempo. Resolvo ligar. Digo que só agora me arrumo e que vou atrasar uma hora. Tudo certo.

Quando entro no parque lembro que a gente não disse aonde iria se encontrar. Não há celular para eu ligar e saber. A única referência era uma imensa toalha em tons de laranja que ele prometera levar para que a gente sentasse aproveitando a tarde. No lugar, skatistas, adeptos da corrida e caminhada, evangélicos em pregação, ciclistas, crianças, pipoqueiro e vendedor de churros. Vou tentar imaginar como você pensaria, onde você está.

Míope e sem óculos, vou olhando todas as pessoas no gramado. Até decidir usar a lógica ou intuição. Vou seguindo em frente e encontro você lendo o mesmo jornal que horas antes eu havia devorado. A toalha laranja ajudou. Você de bermuda, eu de jeans e camiseta (que fiquei em casa pensando se dava pra usar vestido e deitar na grama). Na dúvida, e na escassez de saias longas, optei pelo mais fácil.

E a gente ficou ali, conversando sobre certas angústias, certos amigos, alguns planos e outros sonhos. Os dois com lápis e cadernos que, nesse dia, não foram usados. Não havia necessidade de registros visuais daquela tarde. Guardamos todos em nossos olhos. A menina soprando para mim algumas bolhinhas de sabão. Sermos usados como esconderijo na brincadeira de um grupo de crianças. Ver um menininho dando passos ainda cambaleantes, ao lado da mãe e da irmãzinha, deliciada pela experiência de tê-lo tão perto e comandar um tanto sua caminhada.

A grama estava um pouco molhada, relembrando a chuva da manhã. A gente estava quebrando a tristeza em pedacinhos, jogando na toalha, rindo do que cada um achava muito grave. Era nosso jeito de nos divertir. E haja conversa pra dizer como conversar com outro. E haja instrução pra desbloquear meus traços. E haja observação de árvores, igreja, pessoas, chão.

Na vontade de comer churros, descobrimos o gosto em comum. Aliás, ambos adoramos doces. Quanto mais brigadeirados melhor. E de repente deu vontade de uma terceira amiga, dela estar ali. Risonha, divertida, louca de pedra (assim como nós dois), não custa ligar pra ver se chegou da viagem à Amazônia. Ela atende. Voz de sono, disse que sim, queria nos ver. Mas num ponto próximo de sua casa. Combinamos de ir até uma lanchonete na Av. Rosa e Silva para encontrá-la.

Hora de recolher a toalha, receber elogios pelas nossas bolsas (cada um gostou da usada pelo outro) e de sairmos caminhando. E como a gente gosta de andar pela cidade da gente. Devagar pela rua do Futuro, quebrando à esquerda na Malaquias, entrando na avenida. O percurso, sei lá, 15 minutos, e ela estava lá. De sorriso, de cansaço, de corpo todo esperando abraço. E a gente feliz, que a saudade foi grande.

Pra onde? Pra uma sorveteria escondidinha que ela não conhecia, a Santo Doce. Tiramisu, morango, leite ninho, cocada, nenhuma calda. Antes, um copo d’água. Cada um vai na escolha do outro e descubro o sabor de uva fresquinha no sorvete de vinho do porto. Apaziguados, com todos os detalhes da viagem contados, vamos à casa de Pedro, no Derby, caminhando juntos. Antes, passamos na de Jullie, também pertinho, para comer delícias do norte.

Na casa de Pedro direto para a cozinha. Torradas, geleia de açaí (gostei não), doce de banana, chá. Muita comida para poder juntar tudo em conversas amenas. A tarde/noite de domingo foram curtas. Para mim ficou a obrigação da despedida, pois tinha de voltar para Olinda. Ao chegar em casa, um email feliz informa do quanto nós duas deixamos o dia mais leve.

Mas acho que não foi só a gente não. Foi a cidade. O caminhar sobre ela se sentindo dono. Ciente da vontade de apenas flanar e observar prédios simpáticos, casarios, vitrais que ainda persistem naquela avenida que também abriga prédios imensos. Ainda existem recantos e uma vontade grande de senti-los em passos pequenos. Nossos.

Carlota
290312

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Anfitriã (de como receber pressupõe uma predisposição da alma em sê-la)

Que não pensem os amigos que os recebo com falsidade. Entrar pelas portas da minha casa implica em ser neste momento muito querido. O coração faz festa mesmo que ela não seja. Ou seja apenas um café.

É preciso, quando se recebe, abrir bem as janelas, aspergir perfumes pela casa, ungir com óleos os pés dos convidados. É preciso aquecê-los, se faz frio, e refrescá-los, se o calor por vezes é insuportável.

Quando há na alma um bem querer expansível nesse receber, a tarde, a noite, a madrugada, viram uma coisa só. Um lapso de tempo onde ele próprio não existe.

Quando os recebo, caros amigos, é porque quis vocês com tudo o que eu tenho em mim. É porque minha alegria prevalece. É porque sou música. E ela me deixa leve. E faz ser possível arrastá-los nessa onda benfazeja de quem bate o bolo, prepara a calda, põe a mesa e faz café. Capaz de produzir entre cantos, risadas, abraços, deliciosas lolitas que derretem na boca e quase nos queimam a língua, porque a gula impele a todos a comê-las tão logo saem do forno.

Então, se recuso um convite ao recebimento, é porque hoje, infelizmente, não poderia acolhê-los. Com certeza não ofereceria nem um copo d´água, que dirá um abraço amigo. Haveria fumaça em meus olhos, as janelas teriam cerradas as suas cortinas e o sofá, a mesa, as cadeiras, não seriam os móveis que são. Antes desenhos pintados sem nenhuma utilidade.

Se tive meu coração fechado, não queria que o vissem. Precisava de uma trégua que começa apenas quando me retiro em parte do mundo. Apenas escuto e respondo e acolho as infantis vozes e apenas dos meus filhos. Suavemente, eles me tomam pelas mãos e me levam para caminhar na praia. Uma pena só ter tido dois deles hoje comigo. Queria me sentir envolvida pelos três.

E, ouvindo as conversas entre eles, me sentir amada. E, ouvindo as conversas entre eles, resvalar devagarinho pelo meu próprio caminho em uma conversinha mansa comigo mesma.

Se não os recebo ou se digo, claramente - hoje não – peço perdão. Eu nada poderia dar. Nem receber.
Carlota
150112

sábado, 21 de maio de 2011

De como a vida é assim

Assim, sem mais nem menos, deu pra me dar um banzo vez em quando. Banzo que aparece quando as amigas mais próximas estão correndo tanto, como eu, que mal tem tempo de conversar e trocar papos legais, daqueles que trazem coisinhas miúdas ao seu redor. De como o ônibus estava cheio, do caos no qual se transforma a cidade em dias de chuva, que quase nos faz ser tragadas pela maré, do filho que tirou a nota máxima em um dos trabalhos que você ajudou a fazer. Também acontece dessa incomunicação se tornar incômoda, daí que o banzo vai, vem, como se ausência implicasse na diminuição do afeto que sentimos uns pelos outros.

Sei que estava tão esfuziantemente contente nesta quarta-feira, tão cheia de planos e de beleza, que não me dei conta da quinta na qual ministro 10 horas aula. E quando ela nasceu, a alegria foi minguando de mansinho. Talvez porque me lembrei mais dos problemas do que da aparente solução deles. E caiu de começar a chover e bater uma puta ventania que quase me arrasta junto. Calhou também de eu não conseguir resolver um lance e chegar atrasada no trabalho. E de não ter almoçado e de estar cansada e de não ter notícias de gente querida.

Só consegui dormir a 1h30 da manhã, para dar conta de três pareceres que eu tinha de dar como avaliadora de um congresso. Pois é, inventei de me inscrever para ser avaliadora e lá estávamos frente aos três trabalhos e ao computador. Quanto sono. Daí que acordei às 6, consegui fazer os meninos irem para a escola no horário e decidi arrumar logo as roupas, os livros e ir caminhar na praia. Porque para mim essas caminhadas intercaladas com corridas estão contribuindo para a minha sanidade. E no caminho de volta foi voltando também a alegria. Porque enquanto corria ao sabor do vento (e não contra ele), a leveza foi chegando também. E eu pude flutuar em um espaço vazio, no qual o banzo, mal entendidos, chateações e ônibus cheio no final da noite não tem vez.

Deixei que a alegria se mostrasse na areia da praia, no mar, no céu cinzento, nas pedras, agudas como alguns pensamentos. Deixei que se infiltrasse em mim o prazer de estar ali, naquele momento, ao invés de estar na cama, entre meus lençóis quentinhos. Mas quem quer um lençol maravilhoso se o sono embota os sonhos? Se a gente fica perdendo tempo parado, ao invés de fazer algo que goste muito? Se todas as chances, movimentos, idas, voltas, ficam presas num esquema que é meio medo e meio apatia mesmo?

Lembrei de quantas decisões tomei nessas caminhadas. De como construí textos inteiros em minha cabeça. Como as palavras formaram frases impregnadas de verdade, porque vinham do que eu estava deixando fluir. Não digo que não estou mais cansada, as pernas doem após 50 minutos em ritmo intenso. Mas decidi hoje ficar alegre, leve, atenta. Para aquilo que começa, o que termina, o que vai permanecer. Esse último aí, sem dúvida, sou eu. Eu permaneço. Completamente fora de prumo às vezes, totalmente inquieta, com vontade de ficar em silêncio absoluto, de não trocar palavras, gestos, arrepios. E também, insanamente, arrepiada quando quero viver. Porque pra mim é tudo intenso. Tudo parece estar a um passo de acabar, como se não houvesse mais tempo. E o tempo de ficar parada, em apatia, chorando as mágoas, deixei passar.

Carlota
20052011

(em resposta a uma amiga muito gente boa, Anna Constantino)

sábado, 3 de julho de 2010

Tatuagem

Prometi a uma mulher de olhos verdes que ela ganharia uma tatuagem de aniversário, pelos seus anos iguais aos meus. Estou praticamente enfrentando a dor e investindo em uma também. Mas ela, que não tem coragem de deletar meus emails, merece mais do que uma tatuagem. Porque a vida é árida por vezes e é preciso falar de amor, de afeto, de amizade.

Dona Ana Maria é uma baixinha invocada. Mas que entende meus rompantes, tanto os que me deixam no brilho quanto os que me provocam ataques de fúria. Sabe um pouco de mim, porque a amizade começou antes de nos tornarmos sócias. Não nego, me apaixonei primeiro por seu filho, encantador e gentil, capaz de escolher opções para jantarmos em conjunto, driblando minha alergia a frutos do mar.

Gosta tanto de música, essa menina. De tantas que eu também curto. De se sentir livre, por isso ser tão rápida no volante. Até ouvir minha medrosa ameaça, faz isso não, que eu tenho medo. E ela, gentilmente, reduz um pouco a velocidade, contendo essa fome de vida que eu também trago comigo, mas que vou transformando em textos, dança e caminhadas.

Acho que aniversários devem ser feitos para comemorar. Pra festejar com alegria, por mais idade que a gente vá acumulando, por mais cabelos brancos que surjam (e que são implacavelmente pintados de castanho), por mais que a vida nos ofereça embates doídos demais. Vibrar com pequenas coisas, com as conquistas, com a beleza de um dia que amanheceu bonito, a lua que nos faz querer namorar, um telefonema que traduz praticamente o quanto somos queridas, por tão inesperado ou aguardado. Isso é viver. Sabendo sonhar, esperar, colher as sementes que plantamos todos os dias.

Para não ficar parecendo texto de auto-ajuda, vou dizer outras coisas. Dizer que estou por perto quando precisar. Que minha casa também é sua, aceito dividir até o caçula, que você ainda não conseguiu conquistar (porque ele é quase inteiramente meu). Dizer que sempre vou estar por perto para arrumar vitrines e confusão. Para beber em uma sexta-feira ou acordar cedinho em um domingo. Para curtir a praia, seus amigos, dançar.

Aninha, você é especial por vários motivos. Mas o primeiro deles, para mim, é a proximidade sem frescura de quem está por perto e conhece meus defeitos. E me aceita. Porque é capaz de se encantar com coisinhas bestas que falo ou escrevo. Porque tem no sangue a vibe de uma mulher que sabe que é isso, mulher, toda cheia de conflitos e felicidade, toda alegria e tristeza, toda beleza, vaidade, querer.

Para minha Ana Maria, vale sempre dizer: você é uma pessoa querida. E que sabe estar no lugar certo quando a gente precisa. Mesmo que dormindo ou com cara de cansaço, ou dizendo, tem que fazer, tem que ter isso ou aquilo, fulano merece, tão preocupada com todo mundo. Pudesse eu hoje, abriria uma casa de festas pra gente ser criança de novo. Pra brincar de cama elástica, pula-pula, comer pipoca e brigadeiro, tomar uísque e guaraná (sem mistura, para não estragar).

Lembre: estou aqui. Ao seu lado. Como uma tatoo. Enquanto a vida me mantiver em Recife, enquanto a inquietude não me levar a outras paragens. Beijo, minha querida, feliz aniversário.

Carlota
03072010.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Uma canção de amor

Pra você, Marguinha, meu feliz aniversário

Beijo, flor


Já escrevi pequenos cantos de ano novo. Hoje vou relembrar uma canção de amor que trago no peito. Que apesar de tudo ou talvez por isso mesmo, me faça ser tão vibrante e apaixonada por viver. Mas não viver uma vida meia boca, uma coisa assim sem graça, um jeito de quem quase não anda a pé. Mas uma vida de quem se irrita e estremece e enternece com aquele olhar quase sem chão de quem tem pouco ou nada tem.

A canção de amor fala de amizade. De uma, que nasceu tão longe, mas que é minha, pela perfeição. Esteve em momentos cruciantes, imprescindível presença a dizer-me isso passa. A dizer que apesar do meu ano que era mais um, sim, sou mais velha, eu era ainda tão imatura nesse jogo que é viver a vida.

Ela a salvou quando quase morri. E a cicatriz que trago assim, na lateral do abdomen, só me lembra que estou aqui. E que durante 10 dias ela me carregou ao hospital acreditando piamente que minhas dores existiam, não eram fruto de imaginação nem de problemas, que naquele ano tão pesado não faltaram.

Nós, quase siamesas no pensamento, confundíamos o porteiro do terapeuta que tínhamos em comum. Mesmo sem nunca termos ido lá juntas, aquele cara na portaria me chamava por seu nome. Até que ouvi, ao reclamar disso: vocês parecem irmãs. Eu disse: mas ela é branca, eu sou tão negona...

Somos irmãs de alma. Daquelas que nascem procurando pela outra. Daquelas que sabem que encerram em seu peito mais do que segredos ou sofrimento. Encerram no peito alegria por terem participado de momentos importantes: o primeiro filho, a defesa do mestrado, a separação dolorida, o crescimento dos meninos.

Essa menina tão querida, que se chama Margarette, escolhi como sócia, como amiga, como pessoa que é, surpreendente. E descobri, eu que me achava tão minúscula perto do poder que ela exibia na vida, com os homens, com a família e as finanças, que podia também ensinar. Porque nesse percurso aprendi a perdoar, a amar, a vibrar, a querer e mostrar meus quereres a quem me interessar. Aprendi a ser cáustica quando necessário e até a brigar com minha amiga querida, a questionar suas frases, suas ações, seus elaborados pensamentos.

Aprendi que também posso lhe ensinar que a vida é pra gente viver. E quebrar a cara e se arrepender. E que mesmo esse arrependimento pode ser aprendizado. Porque a gente se inspira para outras coisas, se prepara para novas histórias, se mostra mais verdadeira, porque falhou ou porque aprendeu, finalmente, que não é preciso ser perfeita.

Ensinei, acredito, que não tenho culpas. Não vou me arrepender das vezes em que fui com amigos beber cerveja e deixei os filhos dormindo em casa. Não vou me arrepender de algum projeto que ficou pela metade, nem dos momentos em que tive de emendar um trabalho no outro até sentir dor e não conseguir mais fazer um cartaz que fosse.

Queria mesmo era dizer o quanto lhe sou grata. Porque se ela não abrisse meus olhos para o que eu sou, falando da vida que carrego, como Carlos, que eu amo, eu teria esquecido desse sentir. De como curto andar, dançar, parir. O quanto sou família e o quanto sou mulher. O quanto quero sempre descobrir e aprender.

Em julho tem curso de ilustração, tem espanhol. Talvez viagem no próximo ano. Encontrar outros amigos, outros mundos, outras coisas que sosseguem um coração desarvorado pela vontade que sinto de viver entre os meus. E de ser e estar e sentir-me sempre viva. Apesar dos problemas, apesar das coisas que deixei pendentes, apesar de. Porque é preciso ir. Sempre.

Hoje, 11 de junho de 2010, saúdo minha amiga que finalmente completou 40 anos. Sabendo o peso e a importância dessa idade. Sabendo do quanto somos efêmeros. E de como é preciso viver.

Hoje, 11 de junho, digo: te amo para sempre, minha querida.
Carlota
11062010.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Passionnément

Recebo hoje o email de uma amiga. Ela declara, em uma alegre e despretensiosa constatação: preciso me apaixonar novamente.
Eita que dia desses estava pensando a mesma coisa. E como tem dia que a gente pensa nisso, né?
Pensa num abraço.
Pensa num corpo amigo e companheiro.
Pensa naquele dia em que aquele amor começou.

Sábado, em casa com meus filhos, bateu essa vontade. E fiquei tão feliz por ter essas crianças, sabendo que nunca, nunca, esse amor vai acabar.
E mesmo assim sabendo, que sou sabida, que ninguém, nem filho, pode substituir a necessidade que sentimos de nos apaixonar de novo.
Porque, assim como nós, eles também vão crescer, vão se apaixonar, vão viver histórias, perto ou longe, e não nos é dado o direito de impedir, até porque seria horrível.
Respondi à minha amiga, com toda a certeza do mundo: não há nada mais libertador do que ser capaz de amar. Do que se apaixonar querendo muito ser feliz, mas sem medo de quebrar a cara, porque essa a gente remenda, mas e a alma quando se apaga?
Numa das vezes me descobri apaixonada antes da festa de aniversário do meu filho mais velho. Ah, fazia tanto tempo, ou pouco, sei lá contar isso. Constatei que estava apaixonada enquanto enrolava brigadeiros! E assim que fiz a maravilhosa descoberta, passei uma mensagem para uma amiga de sempre: acho que me apaixonei. e ser capaz de sentir me libertou.
Pois é. A vida liberta.