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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Insônia




Não tenho dormido bem. Não sei bem por quê. Não tenho estado, desde que voltei das férias, em um período de observação de mim. Entrei na moenda dos dias corridos, da tentativa de academia – ainda não curto, mas estou indo – da necessidade de integrar meu tempo a todas as demandas que surgem e que eu não posso deixar passar. Tem aulas, tem conversas, tem gente junto, tem supermercado, condomínio, aluguel, teve festa, encerramento de ciclos e nessa roda-viva a ayurvédica que marquei no início da manhã foi desmarcada apenas uma hora depois. Lembrei da reunião já acertada e pensei que iria adorar observar meu corpo e os pensamentos que o povoam nesse fim e começo.

De repente hoje bateu uma paúra pelo tanto que estou planejando, eu que geralmente sigo o fluxo e vou encaixando as coisas de um jeito que até parece que foi acertado de antemão. Habilidade de olhar e ver o que dá ou não pra fazer, concluir, dissipar. Do que é possível atender, corpo e mente permanecendo sãos. Parei dia desses pra perguntar aos meus três filhos se eles estavam satisfeitos comigo, naquele sentido de quem ficou um tempo ausente e ainda está meio desconectada da ligação filial. Eles riram e me abraçaram. Amor sempre tem, né?

Queria o tempo suficiente pra me encaixar num abraço que não veio, pra feira que deixei pra depois e que agora me obriga a comer fora de casa e deixar pra lá a vontade de cozinhar. Preciso de pouso. E faz tão pouco estava solta, leve, curtindo ruas desconhecidas e outras que relembrei. Ainda não tive tempo de dar aquela parada que faz tudo encaixar. Aquela em que a gente se descobre, porque quase todo dia tenho de responder perguntas, lembrar da rotina, planejar futuro. Ainda não sei como pegar o que senti ao sair pelo mundo de um jeito que nunca tinha sido. Não deu tempo.

Começar este agosto é desafio. É entender dessa entrega e de como a gente quer muito que tudo dê certo. No percurso, mesmo não estando dormindo bem, acredito que as coisas se arrumam pela força amorosa que trago (sem modéstia nem convencimento). Apenas ela explica essa sequência de belezas que me surpreendem. O acolhimento de quem também entrega pra mim o que tem de bom, de esperançoso, de entusiasmo. Sigamos. Posso dormir jajá.


Carlota
080818


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Costelas



Feche o ciclo. Feche a porta. Abra as gavetas e jogue fora as contas pagas há sete anos, o comprovante do depósito, a foto revelada por engano, de alguém que você nem sabe quem é.  Feche o ciclo. Feche a porta. Abra as cortinas da janela às 8h de uma manhã que parecia cinco, deixa pra lá o blackout, mania de dormir no escuro essa, abre logo a janela, anima pra sair da cama, tem um bando de passarinhos cantando loucamente e tá estranho, mas tá tranquilo, tá confuso, mas é assim mesmo, tem um certo encantamento nesse encerrar das coisas e começar tantas outras.

Feche o ciclo. Feche os olhos. Abra esse peito como quem afasta com as mãos as costelas e sente os ossos com segurança e pés no chão. Como quem encaixa de verdade o ar dentro do pulmão esquerdo, do pulmão direito, assim, ao mesmo tempo, ampliando o esterno, esticando o ombro, vendo o diafragma subir e descer e dando meio que uma tontura por respirar direito.

Feche o ciclo. Feche as mãos, os braços em volta do corpo e acolha. Acolha a dor, se houver, acolha a alegria que surgir, acolha o envelope pardo e rabiscado que é o corpo, acolha a música desse passarinho insistente, acolha a luz amorosa, abra o espaço exato entre o que há e o que houve, entre o que se sente e o que se teve, entre a mesa e a cadeira, o lápis e o computador.

Feche o ciclo e encontre. Feche o ciclo e perdoe. Feche o ciclo e respire. Feche o ciclo e se alegre. Vai lá no coração do universo, feche o ciclo e festeje. Feche o ciclo e agradeça. Feche o ciclo e comece.

Comece um ciclo, mais outra e outra e outra volta em torno do sol. Comece mais um caminho, comece pela incerteza, comece pela vontade, comece pelo que se pretende, comece pelo que alegra.

Entenda, meu bem, é fluxo. Um jorro de luz, uma ou outra pedra escondida, faca amolada, corte, bordado, enfrentamento, medo, tudo junto, fluxo contínuo de energia infinita, universo feito gente, eu pedaço de mundo, de ciclos que se fecham e começam, entrelaçados.

Carlota
271017

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sobre os tempos

Faz tempo quero escrever esse texto, motivada principalmente pela conversa com um amigo querido. Aquele que há alguns anos é um dos afetos que dividem o espaço do cotidiano em mensagens pelo whatsapp, recados no fb ou nos fortuitos encontros que acontecem pra nos lembrar que sempre é tempo de conversar e aprender mais sobre a gente.

Em uma noite na qual estava particularmente melancólica, ele relembrou de mim, tirando do juízo a lembrança de minhas próprias reflexões sobre um momento da vida dele. E fiquei lá, meio besta, me perguntando porque tem horas que a gente desaprende a viver aquilo no qual acredita. Sei lá que coisa doida é essa, que desarvora tanto e nos deixa sem ação. Sem vontade. Sem memória. 

São tempos, Carla. E lá foi ele me dizer o que eu mesma lhe havia dito. E que lhe tinha sido afago. Que a gente precisa entender que nem sempre tudo vai durar pra sempre. Que há os tempos de cada um junto da gente, assim como o tempo pra dor, o tempo para aquele riso solto ou pra carreira desabalada que a gente dá querendo encontrar alguém. 

E nem por isso, quando acaba, quer dizer que foi ruim. Nem por isso, quando acaba, é preciso sofrer pensando no que ficou pra trás e que às vezes volta, tão forte, que faz uma falta danada. Daquele colo incrível, da franqueza possível e construída junta, da familiaridade de dividir segredos com as pessoas que te recebem pela madrugada, cedem seu tempo, sua família, sua casa e apenas acolhem. 

Tem tempo que amizade acaba. Tem tempo que amor vai embora. Tem tempo do irmão que morre. Tem tempo do rebento que cresce e surpreende com o tamanho dos próprios sonhos.  Tem tempo de sentar na mesa e chorar. De morder o lábio de nervoso. De pingar a lavanda pra ansiedade acabar. 

Tem tempo pra tanta coisa e cada uma com seu espaço na vida, ou sua ausência, que é preciso, ou melhor, que eu preciso ver de pertinho com meu coração. Cheio de reservas, como quem estranha ser querido. Como quem às vezes se vê muito alegre e tranquilo. Ou descobre amor pela muda de limão galego que trouxe de um hostel na Vila Nazaré. Pedaço de gentileza que espero ver crescer. A seu tempo.

Para Marcelo, Clarissa, Jéssica e Francisco

Carlota

01122016


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Sobre minha avó

Escondeu direitinho todas as histórias de infância e adolescência que não fossem aquelas que quis contar. Teve um irmão, Daniel, uma mãe, Josefa, não sei o nome de seu pai. Trabalhou na Renda Priori, morou na rua dos Pescadores, conheceu meu avô no Batutas de São José. Tinha uma cicatriz no lábio. Quando perguntei, respondeu brusca. E não falou mais. 

Era uma mulher forte. E só reconheci fortaleza quando me peguei olhando pra trás. Quando vi a coragem que é se impor em um universo branco e masculino, onde a mulher não cuidava dos negócios e, possivelmente, era enganada quando perdia o marido.

Só reconheci a beleza arrebatadora de sua alma, quando entendi o quanto acolheu todos os amigos, as amigas, os párias, as exceções. Seguia firme e só cambaleou quando as pernas começaram a doer.  O passo ficou pequeno, inseguro, e seu ir e vir “à cidade” mais espaçado.

Nunca foi de chamar pra cozinhar. Não suas netas, pelo menos. Nunca foi muito de macaxeira. Antes cuscuz ensopado, banana comprida, fatia parida, sopa de feijão. Entrava na cozinha e o almoço saía na hora. E fui aprendendo a cozinhar de tudo, sem medo. Ela conduzia.

Ninguém a enrolava no troco. Tinha só o quarto ano primário e dizia sempre: estude pra ser gente. Olhando pra trás e pra frente, cada vez que fui a um museu e me deparei com uma obra de arte; cada vez que vi o mundo em uma nova cidade; cada vez que venci uma etapa – uma delas no dia de seu aniversário – era dela que eu lembrava.

Foi pra Dona Creusa que corri no primeiro emprego, quando ainda tinha dúvidas. Foi a primeira que soube do primeiro bisneto. Era no espaço de sua cama solteirão, ao lado dela, que eu ficava pra curar as feridas ou falar das coisas da vida.

Era escorpiana de 24 de outubro, nasceu em 1919. Quando morreu, quase não tinha brilho nos olhos. Dois anos antes tinha perdido o caçula. Aquele pra quem tinha o jeito mais amoroso. E de quem sentia falta todo dia.

Tive a sorte de contar com seu afeto na infância e na vida, de pousar a cabeça no travesseirinho feito na barriga, de ter aprendido o nome das ruas do centro do Recife de tanto visitar as lojas que hoje nem existem mais.

Da senhora, Dona Creusa, ainda queria a convivência com os bisnetos. Eles iam aprender direitinho o que é ter uma avó de implicar brincando, de costurar vestidos, de avisar que o mundo é grande e a gente cabe nele. E, hoje ainda, quando escuto a ave maria, lembro de quem me ensinou a viver. A benção, minha vó.

Carlota
27072016

domingo, 17 de julho de 2016

Espaços habitados

Hoje me peguei andando pela casa, descalça, tentando encontrar um velho caminho que já não faço mais. O chão não tem mais o frio da cerâmica. Não preciso mais subir escadas para chegar ao quarto. Há pouco aprendi o lugar de todas as tomadas e interruptores. Ainda me assusto com o ruído de motos velozes pela madrugada. E olho a porta de madeira tentando ver o terraço que, ops, virou varanda ladrilhada.

Fico sentindo a mudança como tentativa de encaixe. Meu corpo se estende, amplia, reverbera pelos cantos, paredes, pelo piso de madeira. Sou do tamanho desses quartos, das janelas que ocupam uma parede inteira. Sou do tamanho da cozinha, da área onde coloquei a máquina de lavar.

Ocupar, habitar, viver. Comecinho tive de acalmar o coração enquanto desencaixotava os lençóis, os pratos, meus livros. Tive de me convencer de que o caminho era certo, que tudo ia ser bom. Tive de falar isso várias vezes pra mim. Já acendi incensos, instalei a rede, quase matei uma planta, dei sorrisos aos vizinhos.

Já recebi amigos, pra visita, dormida, cerveja, vinho. Um de cada vez, porque ainda tem um monte de reticências aqui. Mistura de medo de me apegar ao espaço, como era à minha buganvília, ao jardim da frente de casa, à goiabeira, ao pé de laranja. Às janelas da minha cozinha. Aos pássaros pela manhã.

Faz pouco descobri um ninho na árvore que cobre praticamente todo o meu andar. Ele fica bem pertinho da janela dos meninos. Dei um sorriso e procurei passarinhos. Eles cantam bem cedinho, talvez pra avisar que eu não devo sentir tanta falta de casa. Que casa é minha alma habitando o espaço em que resolvi pousar. Com um trio amoroso e cúmplice bem junto. Eles me ancoram. E habitam esse lugar.

Carlota

17072016 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A falta que ela me faz

Tenho um histórico de mulheres fortes no caminho. Daquelas que não desistem, que alcançam, dão tudo de si. Tenho um histórico de mulheres que foram embora, seja pela morte ou por viagem, seja por uma briga ou por alguns equívocos que nem sempre a gente pode desfazer.

Quando lembro de minha avó, Dona Creusa, todo um universo de felicidade chega pra mim. Quando lembro dela, vem o gosto de feijão com arroz, revejo brincos e colares de aniversário, ouço novamente seus conselhos. E sinto o corpo quente, gordinho, acolhedor, meu travesseiro na infância e meu pouso e calmante na adolescência e vida adulta.

Minha mãe, presença menorzinha em minha vida, afinal foram só nove anos, lembro pelas unhas vermelhas e intensa vontade de viver. Pelos gritos e exuberância, pelos cabelos arrumados e olhos amendoados como os da minha irmã. Revejo cada um dos seus sorrisos, saboreio até as migalhas de seus bolos maravilhosos. Eró, a irmã mais velha dos meus tios, a mulher com tudo para ter vivido mais. Mas, pelo que viveu, foi muito e foi linda.

Penso na amiga querida que uma sociedade estragou. E quase não consigo admitir essa falta, uma angústia de dois anos. Até eu entender que tudo muda. E a gente tinha mudado, não era mais cúmplice não. Mas o desejo de que a vida seja leve pra nós duas permanece. A gente precisa é muito disso. Leveza, alegria, amor.

Aí vem uma delícia de aluna, de ex-aluna, de amiga, a resolver empacotar todos os pertences, jogar fora as tralhas e partir. Recife não cabia mais nos sonhos, era pequeno, era só isso, Recife. Com lembranças legais e outras não. Gabriela. A quem entrego muito amor e partilha, por tudo que ela me ofereceu: de vistas lindas do Capibaribe até amigos, até o vinho, até a dor que vez em quando eu lhe contava.

Sinto falta dessas mulheres pertinho. Sinto falta também da minha filha, minha nega, minha linda. Que cresceu, é Marina, e não mais menininha, Nina ou Pipoca. A que ainda hoje guarda no espaço entre a raiz dos cabelos e a testa um perfume doce e todo seu. O cheiro da minha flor menina. .

Pra essas mulheres incríveis e lindas, tão fortes e corajosas, desejo todo o bem do mundo. E incluo no pacote outras a me fazer falta mas próximas, ao alcance de um post, uma ligação, um abraço. Salett, Aline, Verônica, Cris, Mariana. Tenho de aprender a entregar o amor pessoalmente. Quem sabe assim ele circula mais forte e esperançoso de dias de sol. Iluminado. 

Carlota

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

De leve

Eu poderia dizer mil vezes que eu não tenho nenhuma leveza. Que sou uma alma angustiada. Que tenho uma gastrite que me ataca de vez em quando e me obriga a um tratamento de 30 dias com omeprazol. E que óleo essencial de lavanda pra mim é tão necessário quanto um beijo bom.

Eu queria mesmo era dizer de novo que não, não sou calma. E que dentro de mim ficam se balançando todas as cartas do tarô: o diabo, o eremita, o louco, a roda da fortuna, sol, lua e imperatriz. E que jogo o I Ching e ele me aconselha a ficar em silêncio, a perceber as virtudes do sábio, a observar a natureza da água, da montanha, do ar.

Aproveito e entrego que leio mensalmente o horóscopo de Susan Miller. E digo, puta merda, de novo Saturno tá lascando minha vida! Que já pensei em jogar tudo para o alto e se não jogo nunca é porque alguns laços são queridos e importantes demais. Que bate um cansaço do caralho quando a rotina ainda me inclui um trânsito insuportável e viagens de avião em pequenos intervalos. E que gosto de Jack Daniel’s e Malboro. E sinto falta de dançar.

Mas também quero falar dessa vontade de distribuir amor quando estou feliz. Que envio ondas mentais de carinho para meus queridos. Que saudade quando aperta me faz ligar e propor um café, uma cerveja, qualquer desculpa para conversar bem muito e abraçar ainda mais. 

Que abraço pra mim é o cumprimento mais legal do mundo. E nele entrego bons desejos. E recebo ondas e mais ondas de coisas lindas. E talvez daí chegue uma leveza de quem franze a testa apenas porque é míope. E, pela miopia, às vezes deixa de reconhecer alguém ou perceber o quanto uma criatura é interessante.

E esse arrodeio todinho foi para agradecer às pessoas da minha vida, e aos que estão pertinho apenas pelo bem-querer, os abraços, beijos e afagos pelo meu ano novo. E pela leveza que veem em mim.

Carlota

08102015

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Gabriela

Primeira vez na vida que me senti uma artista foi em tua casa, quando tu me entregou sem medo uma pilastra como tela para meu traço. E defendeu minhas cervejas de um infiltrado na ocupação de teu apê. Primeira vez na Cubana. Primeira vez na Mamede. Primeira vez de uma ressaca homérica que me fez querer morrer duas vezes e mais uma (presenciada por um Chicão confuso). Primeiríssima e deliciosa vez no Irak, com direito à dancinha com o DJ.

Tu é movimento, moça. Por isso tantas primeiras vezes, tantas belezas e histórias. Por isso tantas despedidas e voltas e idas e agora Brasília. Primeira vez de Morrisey. De festinha de criança para adulto, com direito a lolitas, cachorro quente e dip lik.

Tu, andarilha, também me fez descobrir o pisco e a beleza de ver a rua da Aurora do 17º andar do edf. Caeté. Do café com canela. Do aprendizado sobre pimentas e temperos. Sobre a maravilha que é um manjar de coco com calda de manga e gengibre. Tu é assim. Chama o povo pra comer e faz festa com quem chega.

Pudesse eu, corria pra tu sempre. Assim como também corri de tu quando eu estava muito triste. Porque é quase impossível disfarçar as dores diante dos teus olhos verdes. Danada de menina pra ver o que se esconde. Pra dizer tanto. Pra amar cada um e sempre mais.

De quebra, além do aprendizado culinário, amoroso, vital, ainda conheci teus amigos e eles também se tornaram um pouco meus. Patrícia, Rodrigo, Mariana, Lourdinha, Maria, Laura, Black, Marcela, Paulão, Raquel, André, Íris e tantos outros que se alternavam em tua casa. Também conheci tua coragem, esperança, vontade. Saber quando ir, quando ficar, desejar. Pois tu agora se entrega mais uma vez à Brasília. Onde fará ninho pra receber não só tua vida, memórias, panelas. Mas o desejo de todos os amigos que festejam tua vida. Mulher, seja muito feliz nessa cidade. E prepare o cozido, que vou te visitar.

Xêro, lindeza :)

Carlota
150715

ps.: num teve pendrive, mas vai meu desejo com Nina.

Feeling Good | Nina Simone





quarta-feira, 4 de março de 2015

Conversa com o espelho

Não sei se é uma vibração que emano ou se o universo conspira. Mas, milagrosa e felizmente, tenho amigos incríveis. Desses que compreendem sua necessidade de exílio ou de dançar freneticamente até ficar extremamente cansada. Desses que acolhem em noites calorentas e refrescadas com cerveja, suco ou água. Desses que, de repente, dizem verdades sem a pretensão que elas assim sejam.

Pois Mariana Freitas, essa gata inspiradora de textos e abraços, foi indicando caminhos ao longo de nossa convivência. Um dos presentes maravilhosos de outra moça linda. Essa, Gabriela Valadares, já foi aluna, já foi amiga. Hoje está entranhada na alma, com aquele desejo imenso de gratidão e felicidade. É afeto e parte. É algo que sou.

Mari, moça esperta, além de me apresentar a cafés e bares olindenses, que eu em nove anos na cidade não havia tido coragem de frequentar, se revela uma observadora do gênero humano. E de nossas manias, carências, alegrias. Ontem, lá na Mamede, essa rua simbólica de encontro e boemia, me falou sobre conversas com o espelho. Um lance de se olhar e, realmente, se ver. E como ando em uma fase de escolhas e de adeus, adeus até a modos de pensar e agir, resolvi seguir aquele lance comentado tão sem pretensão, mas carregadinho de sabedoria. Porque se olhar no espelho e se enxergar, não rosto, corpo, roupa, riso; mas alma e olho aberto pra o encontro, pode ser revelador.

É se ver e conversar e dizer bom dia pra moça que hoje olha meio enviesado mas que precisa, nesse bate papo, saber mais de si mesma. E contar pra si que é amada, tem dúvidas, às vezes quer tentar outras histórias. Hoje, quarta, dia de casa e almoço em casa e vinho e música, resolvi antes do banho e da ergométrica colocar essa conversa na agenda.

Daí que, no espelho, consegui verbalizar amor. Consegui falar das dúvidas. Consegui enxergar claramente todas as características da avó linda que tive desenhadas em meu rosto. E, pensando, ainda tenho, pois que está no coração, na barriguinha travesseiro, na poesia, no desejo de ser melhor, na forma como cozinho e deliro com os elogios dos meninos.

Consegui, no espelho, falar do que preciso. Olha, Carla Patrícia, eu quero isso. Eu preciso. Esse é, realmente, o meu desejo. E, presta atenção agora, eu gosto muito, muito de tu, visse? E te acho foda às vezes. Acho que você até que está educando seus filhos de um jeito legal. Acho que tem horas que tem muita luz e gente boa ajudando. Acho que você pode ser grata até a aquilo que não deu certo. Acho, inclusive, que fazer escolhas e dar adeus pode ser um passo infinitamente doloroso. Mas necessário. E nesse percurso estranho porque próprio e só seu, dona Carla, bora ter coragem, visse? 

Bora se inventar de novo e aprender e perceber nuances. Bora dar adeus aos padrões de pensamentos, atitudes, tristezas. Bora achar incrível viver e saber tanto de si mesma. Bora ser feliz com essas criaturas amorosas que, tenho certeza, não por acaso estão ao seu lado. Então que a manhã de quarta foi isso: aprendizado, escuta, entrega, claridade. Mesmo hoje o dia sendo nublado. Porque o espelho foi alma refletida para muitos e imensos bons desejos.

Carlota

04032015

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A construção do afeto

O que me salvou foi o seu gingado, moço. Esse jeito de andar na minha frente, com sua farda de serviços gerais e uma malemolência que dizia: relaxa, a vida pode ser incrível. E eu, que estava na vibe do vou ali e não quero mais voltar, me rendi ao inesperado encontro com o molejo desse cara que, hoje, resolveu andar na minha frente e sem perceber me contou da alegria, nesse lance de desapegar de tanto problema que aparece, de tanta tarefa, tanto prazo, tanto calor e putaquepariu tá chegando o carnaval e pra onde eu vou?

Na verdade o texto versa sobre a construção do afeto. Essa necessidade que, acredito, todos nós compartilhamos, de amar, de se sentir querido, de vez ou outra dividir a vida, seja a alegria predominante ou umas tristezas de leve a chegar independentes do sol, do mar ou da brisa que faça.

Afeto é construção, penso aqui comigo. É aquele lance da convivência apontando coisas legais, similaridades, disparidades totais, visões de mundo que não chegam nem perto da sua. E se for família, ah, nêgo, nêga, é pra lascar. Como explicar pra esse mundo de gente que a gente é um mundo e cada um é também? Como garantir o encantamento com três filhos na pré-adolescência com todos os benefícios e ônus que chegam junto? Como justificar a necessidade de silêncio, colo ou compreensão para um povo que lhe conhece há 45 anos?

Construção. Eita coisinha difícil a convivência. O distanciamento. A pausa. A vontade de dizer hoje não, peloamordedeus, só me dê afago e tranquilidade e almas benfazejas e alegrias e cumplicidade e sorrisos e abraços e um dengo assim derramado bem juntinho de sua janela que cheira a jasmim.

Como dizer que uma vida inteira pode passar e a necessidade continua? Como entender o hábito de esperar ser o centro das atenções e, depois de milhares de anos luz e análises microscópicas, perceber que não vai dar mais? Como ser explícita o suficiente para dizer que por favor não se atreva a podar as minhas árvores, porque aí eu viro bicho e quando entra o afeto filial, primordial, aí a pessoa endoida de vez?

Talvez se a gente entendesse que é preciso se desarmar o suficiente para saber que o processo é recíproco. Que se eu sinto, você provavelmente também pode estar passando por isso. Alteridade. O outro. O desejo do outro. O medo do outro. A dor do outro. A alegria também. E essa vontade de viver bem muito, bem feliz e distribuir afeto de monte, de sempre, sempre, sempre, sempre.

Há também quem nos dá amizade mas no final das contas cobra presença e sente ciúmes. Sou um absurdo, um abuso de ciúmes. Mas faço cara de paisagem disfarçando o sem número de anos que passei sendo a menina mais doce, mais amena, menos trabalhada da história. E se alguém se ressente hoje e se me afasto, ô pai, colabora aí para que eu não precise escutar tanto e tanta coisa. Porque afeto não se cobra, não se paga, se constrói.

Junto a pai, mãe, filho, filha. Junto ao amigo para o qual você estende os braços ou só os pensamentos. E o querer bem. Porque afeto é algo que não chega assim de repente. Ele pede conhecimento. Presença inicial. Verdades, histórias, memórias, partilha. E se se esquece o que foi vivido, por que mágoa, por que dor, por que tanta cobrança, peloamor?

E aquele cara que no meio do meu dia de trabalho achou de caminhar na minha frente salvou meu dia inteiro. Porque desanuviou a cabeça pesada. Porque me lembrou que é muito, muito melhor seguir mais leve. Com gingado, malemolência e, digo logo, esperando pra daqui a pouco o carnaval.

Carlota

04022014

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

De paixão e agonia (de verdade, foi saudade)

Hoje quebrei a unha. Me queimei fazendo o pirão do chambaril. Comprei uma bola de futebol americano pela internet. Tive reuniões. Ganhei uma Mafalda de presente. Tomei Stella Artois. Vi filme, ouvi música, estudei inglês. Passei o dia me distraindo da sensação de ontem. Passei o dia tentando lembrar de quando foi o dia que me apaixonei por alguém pela última vez. Tempo do caralho. Tempo imenso. Porque lembro direitinho como foi. E é bom que só, junto com uma certeza que chega de repente e invade. Pele, riso, corpo, os fios de cabelo da nuca, uma infinidade de pensamentos.

E não tem vontade ou quebranto que dissolva essa consciência. Não tem fórmula não tem recado não tem porra nenhuma. Chegando, ela fica. Boa, boa, boa. Então que a gente pensa em se esforçar pra sentir de novo. Imagina se tem alguma peça faltando nesse coração esquisito. Se tem alguma pessoa no vasto mundo que se chegue devagar ou rapidinho e lhe garanta o aceleramento do batimento cardíaco. A boca seca. O desejo de estar perto, perto, perto. De ouvir, olhar, tocar.

Tem dia que acho que tem peça faltando mesmo nesse coração esquisito. Parece que comeram alguma coisa, parece que a razão lhe explica todas as formas de dissociação e autoconsciência. Em outros, há tranquilidade e vontade de viver. De curtir um grupo de afetos risonhos, que bebem tanto quanto e dançam, almoçam, dormem, tem outra leva de problemas pra dividir e alegrias pra contar.

Tem dia que dá vontade de fazer a energia boa circular. De querer bem e o desejo de que tudo corra bem. Em círculos amorosos e quebrando caixas especiais (como essa, de saudade). E foi assim que hoje lembrei de um outro grupo. Que não posso mais ver nem tocar. Foram inúmeras massagens dos corações, carinhos nos cabelos, abraços de ano novo e de dia-a-dia. Acho que foi isso, hoje, minha agonia.

Carlota

22012015

domingo, 14 de dezembro de 2014

Portas

Naquele tempo todas as portas estavam fechadas.
Abri-as devagar. Uma ou outra. Poucas.
Não vislumbrei mudanças.
Não percebi nenhuma diferença sobre o que era ou o que estava.
Sobre o que mostrava ou escondia.
Alegria para dividir com amigos.
Tristeza para chorar de leve.
Desejo para morrer com o tempo.
Lembranças para doer de novo.
Olho as frestas de novas portas.
Trancadas, abertas, não sei quais as certas.
Perdi as chaves.

(lembrança de um tempo distante, quase dez anos)

sábado, 16 de agosto de 2014

Soltando você

Em alguns momentos da vida da gente uma iluminada onda de amor invade o peito. E, nesse tempo, é preciso fazer algo para que ele circule, se espalhe. No dia 12 de agosto ela chegou de repente e me vi parando no meio da cozinha, olhando a janela de onde vejo minhas árvores e desejando que todos os meus amigos e a minha família pudessem partilhar daquele deslumbramento. Porque uma alegria genuína me invadia. Parei no meio da cozinha, olhei para minhas árvores e senti o peito se expandir e aquecer. Pensei em cada um. No jeito de cada um. Na vida de cada um. E quis, intensamente, que eles pudessem naquele instante sentir o quanto eu os amava.

No início de agosto participei de um minicurso de meditação. Na verdade, um curso que prepara o corpo a se habituar ao silêncio e à quietude. No primeiro dia ainda, finalzinho de tarde, no momento da prática e enquanto ainda ajustava corpo e pensamento para que a mente enfim se esvaziasse, fui lembrando aos poucos de pessoas queridas. Do meu tio Ricardo, que há 15 anos me deixou órfã de um cúmplice; da minha avó, que resistiu até 2001 e pode conhecer dois dos meus três filhos; de duas amizades que por terem acabado ainda me provocavam dores.

E no relaxamento antes da mente esvaziar-se por completo, disse para mim que iria soltá-los. Para que eu pudesse viver com mais alegria, para que eles pudessem voar mais alto, para que as amizades extintas pudessem se transformar em bondade e calma. Senti que naquele momento toda a minha alma se revelava e se despedia. Senti que meus afetos perfeitos eram enfim livres do meu peso. Senti que, finalmente, o luto se encerrara e a saudade não machucava. Era amor.

Então que nesta quarta, quando os 15 anos de Ricardo ausente se fazia, aconteceu o inesperado e o corpo se encolheu em uma dor tão grande, porque meus amigos estavam nela mergulhados. Nunca pedi tanto por silêncio enquanto precisava falar. Nunca pedi tanto minha casa, juntinho dos meus filhos, enquanto afastada estava. Nunca senti tanta necessidade de envolver cada um deles em um abraço enroscado para dizer que lhes amo muito.

Queria, naquele momento, e quinta, sexta, hoje, que houvesse a possibilidade de amparar cada um com meu corpo junto. Porque está doendo em cada pedaço, em cada um deles e a dor reverbera em meu peito. Que naquela terça havia se enchido de uma alegria tão linda enquanto eu olhava as minhas árvores e lhes queria bem. E, daqui, estou com vocês.

Carlota
16082014

domingo, 20 de abril de 2014

Passagem

Em meio a autocrítica que envolve o que penso hoje, lembro o que me falta.

Falta aquela dose de gratidão por ter filhos tão lindos. E por eles serem amorosos. E pela capacidade de invenção e carinho que cada um traz. Então, agradeço. Obrigada, mundão, por ter me dado essas pessoas e elas estarem junto, fazendo parte dos meus dias.

Falta aquela criatura que vai mover céus e terras pra me fazer feliz. E, na falta sentida, apurada, em meio a músicas lindas e taças de vinho, desenrosco a echarpe da angústia e me lembro. De todas as criaturas que apesar de não moverem céus e terras, fazem meu dia andar. E dá até pra dar um sorriso lembrando que sou besta demais, choro demais, preciso rir mais.

Falta riso. Um escancaramento talvez. Relembro a frase que me diz que tudo o que se deseja de si, está em si, latente ou à espera de vir à tona. Então que daqui a pouco vai chegar uma gargalhada escancarada e sincera.

Faltam amigas que há muito se foram. Com elas, as histórias divididas, as lembranças de uma vida, os abraços de páscoa, aniversário, fim de ano.

Falta coragem. Para admitir a falta. Admitir o sem rumo que aparece. A estrada deserta. A vontade de ombro. O crescimento.

Falta, sim, deixar o medo que apareceu. Falta deixar o luto ir embora. Falta dizer que eu preciso. Sim, preciso calma, alma, doçura, abraço, amigos, lembranças, vó. Preciso me sentir conectada em coração. Preciso lembrar das razões, dos senões, da maturação.

E na autocrítica que me chega raiando o domingo de páscoa, falta relembrar a fé. No anima do mundo. Em mim. Nas minhas janelas, sempre abertas, sempre prontas para ouvir as minhas orações. E me escutam as árvores. E me escutam a noite e a alma mãe de todas. E me escutam as ancestrais e eu mesma num repentino descobrimento.

As faltas são parte. E, por elas, vai se entendendo o caminho, a busca, a paz. Vai se entendendo a finitude, a roda da fortuna, os ciclos. Vai se entendendo e sentindo, novamente, a alma plena. Plenamente consciente de que é preciso transformar aquilo que se tem, ou chega, quando dói. É preciso entender as lacunas, o que nunca vai poder ser explicado, as facetas de um mesmo problema, a visão de cada um. É preciso ouvir. E saber. Que na autocrítica que faço raiando o dia, eu só preciso disso. Alegria.

Carlota
20042014 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A legião estrangeira* (uma antropofagia da alma)

Foto: Gabi Valadares


























Ocupada que estive cozinhando os presentes de Ano Novo, não pude falar com cada um sobre esse desejo de um 2014 mais doce e leve. Porque 2013 trouxe ausências quase insuportáveis. E me fez reformular velhos hábitos, procurar encaixes inexistentes, caminhar sozinha. Sem tribo. Estrangeira.

Não é sem dor que a gente dá adeus. A um marido, um amigo, uma amiga. Não é sem dor que a vida mexe com a gente e obriga a encarar a solidão. Não é sem ela que a gente se transforma. Mas, com ela, foi embora um monte de medos que estavam por aqui.

Estrangeira. Ciclos às vezes tão repetitivos. Após uns 15 anos juntos, acabou um casamento (e há pouco vi uma foto da nova família e fiz as contas e então estão juntos há mais tempo agora do que a gente foi realmente casado e eu fiquei meio parada e depois me perguntei pra que contar).

Após uns 20, uma amizade antiga foi para o espaço. Não sem antes eu me achar visceralmente má. Não antes de me enrolar em culpas e me achar a mais inferior das criaturas. Não sem antes eu querer beber muito, dançar muito, esquecer tudo.

Me sentir sem tribo trouxe uma vantagem. O acolhimento que sinto ao compartilhar o mundo de pessoas que eu, durante esses 20 anos, não tinha visto uma única vez.  E pequenos presentes foram sendo entregues ao longo do ano, para amenizar desamparo, chororô e me lembrar de alegrias.

Como me sentir amorosamente em casa na casa e na companhia de Gabriela e Antônio. Como, com Mari, ouvir tranquilamente que não sou uma moça boazinha, andar de bicicleta, beber e conhecer, finalmente, o Xinxim. Rir e decorar as histórias de Black e, num dia, curtir seu abraço bom. Sentir a serenidade de Adeildo, só amor nessa criatura. E a doçura de Pedro, ouro puro bem guardado que tem meu coração (esse, amigo antigo, mas me renova tanto tanto que pra mim é sempre novo pois me trouxe ainda Ivalda e Vitor, mãe e irmão).

Daí que fiquei pensando, ao cozinhar, no lance da antropofagia. Das tribos que comem os inimigos para deles guardar sua força, coragem, energia. E como não poderia me dividir em pedaços (tenho pra mim que sou indigesta), achei de cozinhar com a alma, na esperança que ela fosse junto.  Então, cada pote foi levando Carla. Com açúcar, com afeto, da mulher sem tribo, mas com amigos novos que parecem antigos. Ou melhor, meus amigos.

Feliz ano novo, amorinhos. Vocês são minha legião estrangeira :)

Carlota
070114
* A Legião Estrangeira é título de um livro de Clarice Lispector que reúne 13 textos, incluindo o que dá nome à obra. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Varrendo a saudade


Aquela mulher pequenininha me encheu de cócegas e ainda me ameaçou com um mergulho corporal, provavelmente pesado, quente e alegre. Foi bom ver seu riso e os olhos brilhantes pela recordação. “Um mergulito”. Sua descrição encostada na parede foi tão boa que consegui visualizar a cena: mãe e filha abraçadas na cama após um pulo surpresa dessa menina gata e amiga minha.

Durante um fim de semana estive ocupando um apartamento à beira do rio Capibaribe. Eu, amadora desenhista e fazedora de farofas e brigadeiros, não tinha força nos braços pra eliminar de vez as dezenas de caixas acumuladas em um dos quartos. Me envolvi com a pintura e ilustração de uma das pilastras, enquanto amigos lixavam móveis, furavam as paredes, penduravam quadros, arrumavam a casa e também bebiam, escolhiam e cantavam músicas, dançavam, viviam.

Eu me senti encaixada num espaço privilegiado. O de memórias, permanências, novidades. Cada móvel em vistas de ser restaurado; as plantas; a infinidade de copos, taças, canecas. As maravilhosas janelas e a cidade logo ali.

Me dei conta da importância de preservar. De cuidar. Guardar. Cada caixa aberta, na arrumação do segundo dia, ia revelando um pedaço de vida de Gabriela. As cartas ilustradas do amigo músico. A coleção de Agatha Christie, uma infinidade de lenços coloridos. Telas em branco ou pintadas, santos, anjos, um aparelho de sushi. Nada ali descartado ou deixado para trás. Preciso foi apenas buscar espaço, organizar, doar o que era demais, mostrar o que nem se lembrava.

Então fiquei pensando naqueles que ao mudarem de casa, espaço, deixam tudo para trás. Ao encontrar um apartamento antigo, tratam logo de reformar o banheiro, retirar os tacos de madeira, providenciar porcelanatos. Parecem avessos a apegos, lembranças. Gabriela trilha o caminho oposto de quem acha tudo descartável. Restaura, manda reproduzir os azulejos antigos e, mesmo quando incorpora móveis novos ao ambiente, revela o muito que traz dentro de si: cada espaço recebe objetos que são apenas dele. E fazem a casa ser sua inteiramente.

Ciúme quando a imagem da foto foi mostrada apenas a Mariana. A minha sem vergonha cara de também quero ver o que é. A imagem fez Gabi chorar – desculpa – e, ao mesmo tempo, deixou-a mais parecida com a fotografia. Quis contar e nem disse para Mariana (o que aconteceu só em outro encontro). Da lembrança da primeira farra gastronômica na sua casa, após seu retorno ao Brasil. A primeira que eu fui.

Ao chegar à portaria do prédio em Setúbal a fortíssima sensação de estar sendo acolhida em uma onda quente de quem quer bem e gosta de casa cheia. E que a gente tinha comentado isso na mesma noite, a casa alegre. Como o seu apartamento no sábado e domingo de ocupação. 

E ao lavar os pratos, ouvir música e ver suas memórias, no ocupar a cozinha e na alegria de beber descalça e livre, me achei artista. Na permanência de uma pilastra que ainda nem terminei de pintar. Mas que está assim, carregadinha de lembranças pra você. 

Para um povo muito foda: Gabriela Valadares, Antonio de Hollanda, Rodrigo Riszla, Mariana Freitas, Jr. Black, Raquel e Maria.

Carlota
1910-01112013

domingo, 29 de setembro de 2013

Facas, batons e malabares



Terça-feira última, desta semana na qual fiz aniversário, encontrei Gabriela. E, na conversa, disse pra ela: preciso de uma faca! Se alguém quiser me dar um presente de aniversário, me dê uma faca, por favor! Ela rindo daquele desabafo de quem está sem funcionária desde janeiro e precisa alimentar a prole. Pois é, maior simplicidade né? Mas vá cortar um bife com uma lâmina cega. Uma infelicidade, um tempo perdido, uma agonia e eu querendo cometer um harakiri!

E como a amiga é atenta aos meus librianos apelos, recebi hoje de suas mãos um belíssimo exemplar da marca Tramontina. Pense numa alegria. Amei o presente. Amei que veio dela, essa criatura tão boa cozinheira, além de bela. Que de quebra me traz Mariana. E recado dos que não puderam ir almoçar comigo neste domingo.

E então lhe prometi uma crônica, assim, tão singela quanto o pedido atendido. Mas vital, sabe? E então vou ainda incluir Alfredo com o licor de fruta; Silvana com o hidratante Victoria's Secret; Anna com o batom lindamente vermelho, a cor da sorte porteña (eita saudade de Buenos Aires, Anninha). E minha família, que após anos resolveu comparecer! Os filhos bem juntinhos. Café da manhã na cama (eita, foi antes isso) do caçula. Uma amorosidade, derretimento, Bruna, Teresa, Bosco, Wal, Carlinhos, Gecira.

E o que a faca tem a ver com um aniversário? Tem porque descobri por esses dias que, no momento, estava precisando de quase nada. Tenho inúmeros vestidos e sapatos. Uma casa minha. Mesas, cadeiras, sofá. Cama, chuveiro, jasmim e goiabeira. Anéis. Colares. Brincos. Bolsas. Lápis aquareláveis e papéis especiais. Dinheiro podia ser mais, pra viajar talvez.  

Não que minhas necessidades sejam poucas. Preciso de doses diárias de beijos e afeto. Preciso de pessoas alegres. De desafios. Literatura. Beleza. De lua cheia. De abraços. Praia. Caminhada. Parque. Casas para visitar. Orações.  E a precisão, sempre muita, também é atendida. Com um escancaramento de felicidade quando consigo ter tudo quase junto. E aquele banzo suave ou incômodo que chega quando fico perdida em temporais.

Minha querida, podia falar do simbolismo de uma lâmina tão afiada. Pra cortar amarras, além do bife diário. Pra ceifar as ervas daninhas do coração. Pra empoderar e fazer de mim uma valente guerreira! A de boca e anel vermelhos. De paixão. Verdadeiramente, cortar os pesos e ver nessa ausência de quereres materiais um lance mais gostoso. O de estar. O de não ter vergonha de ser. O de, novamente, curtir reunir os amigos para o aniversário (ano passado me escondi um pouquinho, mas foi preciso).

Quando acordei hoje, meu dia, meu ano novo começando, pensei em presentes humanos. Nesses meninos impossíveis e bagunceiros. Nos seus sorrisos. Nos seus beijos. Pensei na leveza de estar me sentindo bem. Li mensagens no facebook. Li mensagens no celular. E teve tanto afeto, sabe? Desses imensos e que, agora, me dão aquela puta vontade de chorar de alegria. Porque é essa intensidade, essa vida que carrego, esse amor todinho, essa Carla menina louca por brigadeiro e a mulherzinha que quer batom vermelho, a da cerveja e Adilson Ramos. A escondidinha fazendo haicais. Uma clandestina que vez em quando pega um bonde errado (e mesmo assim ótimo). E essa previsível mãe de três filhos, 44 anos completados às 11h30 de hoje. Libriana, com ascendente em capricórnio e libra no meio do céu. E, pra encerrar, os malabares. O imprevisível daquilo que a gente não vê.

Um beijo, bem vermelho :)

ps: te amo, tá?!

Carlota
29092013

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Marina


O que se espera quando se escolhe o nome de uma filha? Primeiro, se espera ela, justo ela, a que reinaria absoluta entre dois irmãos. O que significa: adeus à síndrome do filho do meio. Ela  reina, independente de qualquer coisa. Que gênio é esse? E que doçura nesse jeito doce que ela tem. Uma morenice que vai impregnando a gente e de repente, sem querer, um enredamento nessa pessoinha tão linda e viva, viva, viva.

O que poucos sabem é que, ao escolher o nome da minha menina, Marina, fiz inspirada por uma aluna de jornalismo: Marina Moser. O que chamava a atenção? O fato dela ter uma vibe instigada, ser decidida, saber o que queria desde logo. E eu, grávida de alguns meses, pensava: quero que minha filha seja forte assim, tenha esse riso, esse jeito de quem quer pegar a vida com as duas mãos e dizer que sabe sim o que fazer com ela.

Anos depois, reencontrei a ex-aluna. E o abraço funcionou para lhe contar que minha filha tinha seu nome. Não em homenagem, não pela convivência, que foi pouca. Mas pelo tudo que em pouco mais de quatro meses ela, como aluna, foi me mostrando. E ouvi-la dizer que eu estava bem depois daquele tempo, e saber que tínhamos uma amiga em comum, e vez em quando encontrá-la em algum bar com pessoas legais, só me fez entender que aquele brilho, aquele olho de quem vê coisas ruins e boas e sabe quais são elas, inspirou e carregou de uma energia boa o nome que decidi dar à minha filha.

O pai e uma amiga disseram: coloca Morena. Eu respondi: seria óbvio demais sendo minha filha. E, sendo ela quem é, tudo seria, menos óbvia. Pois sua morenice, beleza, doçura, força, tem em parte tudo o que desejo de bom pra todos aqueles que eu amo muito. Que haja encontro, poesia, beleza, chuva, cuidado, comida comida junto, sonho, perfume, energia e traços de transgressão. Porque sem ela, ah, sem ela, a vida estaria perdida!

Com um beijo e abraço de aniversário para a bela Marina Moser, que ontem tive o prazer de reencontrar. Feliz aniversário, Marina!

Carlota
120913

sábado, 13 de abril de 2013

Milkshake de tangerina

E aí você, que nunca se aventurou além do sorvete de flocos e o máximo de risco gastronômico que assumiu foi tomar o chicabon apesar de todas as recomendações sobre as calorias e o colesterol, não sabe a delícia de um milkshake de tangerina.  É preciso contar sobre a pessoa que resolveu investigar esse sabor. Ela costumava misturar almôndegas com geleia de framboesa quando morava em outro país. Também tem o hábito de mesclar doce e salgado sem frescura nenhuma. E sem forçar ninguém a nada.

Daí que o milkshake, para quem já adora frozen de tangerina e na praia costuma consumir raspa-raspa (livrai-me-de-pensar-por-onde-vai-a-mão-que-raspa-o-gelo) de morango e coco, não pareceu algo tão escatológico quanto um sorvete de macaíba, por exemplo.

O inusitado começou quando aceitei o convite para um rodízio de sushi. Você pode estar com água na boca ou com o estômago revirado, confesso logo que se fosse uma pizza de pepperoni tinha ficado mais animada. Qualquer rodízio me deixa em desvantagem. Não consigo comer muito e aquela exuberância de comida passando o tempo todo termina me perturbando visualmente a ponto de ficar inapetente.

Encontro Pedro Bezerra, o sensato rapaz que fez aniversário há 13 dias. Encontro Juliana, amiga de Pedro, que um dia dividiu uma garagem e aulas de desenho comigo, me matando de inveja com seus mangás maravilhosos. Encontro Vitor, irmão de Pedro, também um amplo distribuidor de abraços e consumidor de sorvetes e sushis. Tive de ouvir ser eu uma farsa. Quem conhece Pedro lhe conhece também a expressão. Explico: fui logo dizendo que só ia consumir coisas cozidas, sushis maçaricados, apelando para a neutralidade de sabores. E aí terminei colocando no prato salmão, alga, peixe, uns empanados e vamos comer!

A gente estranhou sim, mas foram as duas telas exibindo MMA, logo acima do balcão de comidinhas. Os caras suados, se atracando, a gente sem ouvir nada, e de repente Ju vai de narradora: “amigo, me dá aqui um abraço!” O cara escorrega e ela fala: “pô, cara, cosquinha não vale”. E depois a sede avassaladora. E a gente olhando sem acreditar o preço de um copo de 330 ml de suco: R$ 5,00. Mas o danado era de tangerina. E foi dando ideia. Na recusa em consumir qualquer bebida, vai todo mundo pra sorveteria.

No caminho, Ju assusta um pobre ciclista, tem de escutar Pedro dizer que ela sim, assustou o ciclista e a gentil menina que se dispôs a dar carona até a John's da Madalena nem água quis. Vitor foi no casquinho com duas bolas de sorvete de morango – Ju estranhou a escolha. E garantiu: aposto que vocês serão as primeiras pessoas a pedir um milkshake de tangerina. Perguntamos. E a atendente responde: a mim, foi a primeira vez.

Dividimos um de meio litro com calda de morango. Pedro queria caramelo, eu disse que ia morrer de enjoo. Ele se rendeu – é tudo fruta, combina. E a gente senta com dois canudinhos e fica dividindo aquele pedacinho de céu. Doce, azedo, leve, quase um frozen mesmo. E ele corria a beber e eu enrolada naquela divisão.

E nessa história Vitor nos explica sobre o porquê de um bairro recifense se chamar Bomba do Hemetério (tinha um cara com uma bomba que garantia água para os moradores do lugar). Eu expliquei o porquê do nome Chão de Estrelas (uma comunidade de lavadeiras que estendiam roupas e lençois nos varais e, com a luz da lua, as sombras se projetavam por entre as peças formando desenhos no chão, parecendo estrelas). E a gente ficou assim, achando bonito isso tudo.

E enquanto o sorvete durava, apareceu até Bauhaus. Com espaço pra gente dizer que menos não é mais de jeito nenhum. Que um pequeno detalhe, um ornamento, algo inusitado, pode deixar um objeto mais belo, uma casa mais bonita. “Isso tem amor”, diz Pedro. Como a mistura doce-azeda abrandando o calor do sábado em Recife.

Carlota
13042013

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Lágrimas que pesam toneladas


Aos 43 anos, com três filhos, quatro afilhados, irmã, tios, tia, prima, um ex-marido, amigos bem próximos, outros afastados, afetos clandestinos, declarados, compadres e comadres, sinto falta de várias coisas, pessoas, sentidos.

Sinto falta do café da manhã cedíssimo, compartilhado com o ex-marido durante anos. Primeiro, para esticar a convivência pela manhã. Depois, para preservar os necessários momentos entre nós dois após os nossos três rebentos invadirem todos os espaços da casa.

Sinto falta de minha avó, de seus conselhos, da forma como me olhava sabendo muito. Do jeito que me ensinou a cozinhar, quase sem falar, apenas me deixando na cozinha a observar o modo como preparava a comida. Até hoje não tenho nenhuma sofisticação no dia-a-dia. É feijão, arroz, macarronada, bolos, pudins, fatias paridas, macaxeira, cuscuz, escondidinho, no máximo arrumadinho e feijoada. Aprendi com ela, exceção da última, ensinada no mínimo por três pessoas diferentes. Sim, arrisco outros pratos, receitas de livros e internet, com bons resultados. Mas eles não me foram ensinados. Não tem esse gostinho bom de vó.

Sinto falta de almas leves. Com muitos sorrisos e olhos brilhantes. De confiança mútua, desejo de mudar, segurança nas escolhas. Sinto falta de algumas amigas de riso solto e escancarado. De aprender flamenco por três meses. De viagens prolongadas. Sinto falta da cumplicidade de um palhaço alegre, companheiro de sonhos e que, ontem, provocou da minha querida afilhada Bruna a declaração que dá título a esta crônica: tem lágrima que cai pesando uma tonelada.  Sim, menina. As lágrimas pesam e são enxurrada quando a perda aperta e dá um nó.

Hoje caminhei por uma rua tranquila, lembrando da forma como você falou de saudade. Uma foto e um comentário. E me deparei com o rosto amado do nosso tio Ricardo. Cúmplice, amigo, irmão. Compadre, éramos ambos seus padrinhos. E completamente derretidos pela caçula (a última da família tinha sido eu, imagina você como fazia tempo).

Você nem sabe, mas a gente inventou de tirar fotos suas no mesmo dia. Quando fui por o filme na máquina, quase queimo o que ele já tinha colocado. E você estava linda. Gorduchinha, risonha, babando o berço, tão cheia de dobrinhas e de molecagem, que a gente se rendeu a esse aquecimento cardíaco chamado amor. Presente em cada imagem registrada naquele dia. E em outros, minha querida.

Lembrava dele e me alegrava por não sentir a perda como antes. Então pensei no quanto a gente tem de se habituar às despedidas que a vida traz. Às ausências de quem não está por perto para acompanhar saltos arriscados ou passos miúdos. Durante um tempo meu riso foi embaçado por essas lágrimas pesadas. Até o dia de ver um dia nublado e não mais ficar triste. Porque a lembrança tornou-se leve. A presença impregnou minha alma. Já não faço mais distinção. Para mim ele é, está, sou eu.

Ricardo foi o afeto canceriano ligado à família e aos dramas e comédias de todos nós. Hoje deixo ele partir. Com leveza.  São 14 anos de ausência. E fomos crescendo nesse tempo: eu, você, meus filhos.  Sabendo que os cafés da manhã podem ainda ser partilhados. Que os traços ancestrais de minha avó estão na paciência e na impaciência minha de todo dia. Que as pessoas precisam ir, ao morrer, ou porque tem outros projetos, amores, ideias. Que tio Ricardo, afeto meu, está em todo sonho, conquista, sorriso ou palhaçada. E em meu coração. Como você, minha flor primeira.

Carlota 
03042013