Eu sempre amarei a beleza. A linha do horizonte. O mar com nuvens pairando logo acima dele à noite. Eu sempre vou amar pessoas que amam a felicidade. Que se alegram. A música.
Eu sempre vou amar quem me encontre em uma tarde cálida e me fale verdades e mentiras. Eu sempre vou amar o barulho do mar. E cada abraço de cada um dos filhos amigos você.
Eu sempre vou odiar mesmice. Sempre odiarei um dia atrás do outro sem noites legais no meio. Vou odiar quem pensa que o começo pode ser mais tarde. Vou odiar meu tempo perdido.
Guardarei meu rancor mais profundo para os que tiram a vitalidade dos outros. Para quem se ofende após ter ofendido. Para quem torce a história e se faz de vítima. Vou odiar mortalmente minhas noites insones.
No amor, entrego: odeio cartas melosas, odeio silêncios abismais, separações. No ódio, amo a vibração que a ira provoca. Amo a intensidade com a qual a raiva nos torna humanos, a velocidade com que o desespero é dissipado para que o olhar dizime a pessoa com a qual travamos a batalha.
No amor, no ódio, sou cada um. Em cada face que cada um revela.
Carlota
23042012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Um começo de história
A menina anda e esbarra em um começo que de brincadeira estava por ali, assim, de bobeira. Achou bonita, a menina. Quis conversar. Mas ela, que não dava mole para inícios toscos, apressou o passo e foi.
Nem percebeu o princípio de sorriso que o começo esboçava. Nem notou, quando almoçava, que o mundo parecia outro. Era só o começo que chegava. Na pressa, não viu folhas de árvores ou abraços. Corria. Temia o fim do dia.
O começo insistia. Fazia cócegas, cantava músicas, dedicava olhares... Fazia com que percebesse o som da caminhada. De repente, não estava mais cansada. E diferente se sentia. Já era um começo, pensava ele. E a provocava.
A angústia das luzes vespertinas se transformou em uma espécie de alegria. Soltou espirros, tossiu, engasgou. Os olhos se encheram de lágrimas e teve de parar e ouvir o que o começo lhe dizia. Rendida, pois nem respirava. Era o fim. Não. Começo. Não, é fim. Não resisto. Aflito, o começo lhe dá uma trégua. E ela, sabida, corre o que pode e o deixa para trás.
Desconsolado, o começo olha para o lado. O meio e o fim, não satisfeitos, zombam do pobrezinho. Dia seguinte vem de novo a menina. Vestida de flores na blusa, com passos lentos, olha o começo, deseja bom dia. O meio então se levanta. Obrigado, amigo, agora é comigo. No que ela reage horrorizada. "É só o começo. Mais nada".
Carlota
15042012
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Coisinhas
Sou apegada a coisas miúdas. Rascunhos, brincos, gestos uns. Pequenos objetos, como o vasinho de porcelana florido que o vento fez cair do terraço. O cheiro de giz de cera. Seixos coloridos.
Parecem eles mais abertos a serem amados. Os traços com bico de pena, aquele terço embaraçado. Eu amo coisinhas.
Como a cachorrinha lá de casa, divertida companhia que me roubou das manhãs os passarinhos. Quem ousaria entrar na sala agora a buscar farelos, se há entre nós uma caçadora? As manhãs, quando invadiam suavemente o debaixo da mesa em voos rasos, eram mais frescas.
Também me encanto com rostos desarmados, olhares escuros, sorrisos, alguns chuviscos. Lembram espaços a ocupar, memórias, marcadores de páginas. Pedem presença, inspiram afeto.
Uma contradição olhar todas as folhas miúdas do flamboyant. Mas é que o vento sugere a leveza que elas tem. E, nessa dancinha, o que é estático ganha movimento. Minha árvore vibra em raiz.
Do céu, a nuvem. Da praia, o grão. E, surgindo um besourinho, corre o menino e o prende na mão.
Carlota
040412
Parecem eles mais abertos a serem amados. Os traços com bico de pena, aquele terço embaraçado. Eu amo coisinhas.
Como a cachorrinha lá de casa, divertida companhia que me roubou das manhãs os passarinhos. Quem ousaria entrar na sala agora a buscar farelos, se há entre nós uma caçadora? As manhãs, quando invadiam suavemente o debaixo da mesa em voos rasos, eram mais frescas.
Também me encanto com rostos desarmados, olhares escuros, sorrisos, alguns chuviscos. Lembram espaços a ocupar, memórias, marcadores de páginas. Pedem presença, inspiram afeto.
Uma contradição olhar todas as folhas miúdas do flamboyant. Mas é que o vento sugere a leveza que elas tem. E, nessa dancinha, o que é estático ganha movimento. Minha árvore vibra em raiz.
Do céu, a nuvem. Da praia, o grão. E, surgindo um besourinho, corre o menino e o prende na mão.
Carlota
040412
quinta-feira, 29 de março de 2012
Domingo no Parque
Preguiça. Que ele não saiba,
mas penso seriamente em desmarcar o encontro e curtir nesse domingo a minha
cama. Preguiça. Levanto, tomo banho, deito de novo. Preguiça. Não há ninguém em
casa, o sossego é meu. Levo o jornal para o quarto após o café e leio até a
revista da TV. Não vou sair de casa nesse calor. Não quero ver ninguém.
Acordo perto das 13
horas. Quase em desespero. O encontro era às 14, no Parque da Jaqueira. Não ia
chegar a tempo. Resolvo ligar. Digo que só agora me arrumo e que vou atrasar
uma hora. Tudo certo.
Quando entro no parque
lembro que a gente não disse aonde iria se encontrar. Não há celular para eu
ligar e saber. A única referência era uma imensa toalha em tons de laranja que
ele prometera levar para que a gente sentasse aproveitando a tarde. No lugar, skatistas, adeptos da corrida e caminhada, evangélicos em pregação,
ciclistas, crianças, pipoqueiro e vendedor de churros. Vou tentar imaginar como
você pensaria, onde você está.
Míope e sem óculos, vou
olhando todas as pessoas no gramado. Até decidir usar a lógica ou intuição. Vou seguindo em frente e encontro você lendo o mesmo jornal que horas antes eu
havia devorado. A toalha laranja ajudou. Você de bermuda, eu de jeans e
camiseta (que fiquei em casa pensando se dava pra usar vestido e deitar na
grama). Na dúvida, e na escassez de saias longas, optei pelo mais fácil.
E a gente ficou ali,
conversando sobre certas angústias, certos amigos, alguns planos e outros
sonhos. Os dois com lápis e cadernos que, nesse dia, não foram usados. Não
havia necessidade de registros visuais daquela tarde. Guardamos todos em nossos
olhos. A menina soprando para mim algumas bolhinhas de sabão. Sermos usados como
esconderijo na brincadeira de um grupo de crianças. Ver um menininho dando
passos ainda cambaleantes, ao lado da mãe e da irmãzinha, deliciada pela experiência
de tê-lo tão perto e comandar um tanto sua caminhada.
A grama estava um pouco
molhada, relembrando a chuva da manhã. A gente estava quebrando a tristeza em
pedacinhos, jogando na toalha, rindo do que cada um achava muito grave. Era
nosso jeito de nos divertir. E haja conversa pra dizer como conversar com
outro. E haja instrução pra desbloquear meus traços. E haja observação de
árvores, igreja, pessoas, chão.
Na vontade de comer
churros, descobrimos o gosto em comum. Aliás, ambos adoramos doces. Quanto mais
brigadeirados melhor. E de repente deu vontade de uma terceira amiga, dela
estar ali. Risonha, divertida, louca de pedra (assim como nós dois), não custa
ligar pra ver se chegou da viagem à Amazônia. Ela atende. Voz de sono, disse
que sim, queria nos ver. Mas num ponto próximo de sua casa. Combinamos de ir
até uma lanchonete na Av. Rosa e Silva para encontrá-la.
Hora de recolher a
toalha, receber elogios pelas nossas bolsas (cada um gostou da usada pelo outro)
e de sairmos caminhando. E como a gente gosta de andar pela cidade da gente. Devagar
pela rua do Futuro, quebrando à esquerda na Malaquias, entrando na avenida. O
percurso, sei lá, 15 minutos, e ela estava lá. De sorriso, de cansaço, de corpo
todo esperando abraço. E a gente feliz, que a saudade foi grande.
Pra onde? Pra uma
sorveteria escondidinha que ela não conhecia, a Santo Doce. Tiramisu, morango, leite ninho, cocada, nenhuma calda. Antes, um copo d’água.
Cada um vai na escolha do outro e descubro o sabor de uva fresquinha no sorvete
de vinho do porto. Apaziguados, com todos os detalhes da viagem contados, vamos
à casa de Pedro, no Derby, caminhando juntos. Antes, passamos na de Jullie, também
pertinho, para comer delícias do norte.
Na casa de Pedro direto para a cozinha. Torradas, geleia de açaí (gostei não), doce de banana, chá.
Muita comida para poder juntar tudo em conversas amenas. A tarde/noite de
domingo foram curtas. Para mim ficou a obrigação da despedida, pois tinha de
voltar para Olinda. Ao chegar em casa, um email feliz informa do quanto nós duas
deixamos o dia mais leve.
Mas acho que não foi
só a gente não. Foi a cidade. O caminhar sobre ela se sentindo dono. Ciente da
vontade de apenas flanar e observar prédios simpáticos, casarios, vitrais que
ainda persistem naquela avenida que também abriga prédios imensos. Ainda
existem recantos e uma vontade grande de senti-los em passos pequenos. Nossos.
Carlota
290312
sábado, 10 de março de 2012
Abraços
Uma noite dessas entrei
no quarto do meu filho para vê-lo dormir. Abri a janela, ajeitei o lençol,
acariciei seu rosto, enroscando a mão direita em seus cachos claros, com
suavidade, para que não despertasse. E escuto a voz rouca desse menino/rapaz
que quase ultrapassa sua cama dizendo: mãeeee. Estendeu para mim seus braços e
me prendeu entre eles, num momento de encaixe entre nós dois. Beijei-o,
desejei-lhe boa noite, sonhos felizes, o abençoei com meu deus. E o coração
nesse momento encontrou paz.
Quando ainda éramos
casados, o pai costumava sempre ir ao quarto deles, como a protegê-los no sono,
com beijo de boa noite quando chegava tarde. E nesse momento meu filho mais
velho falava dormindo “eu te amo, pai”. No que eu suspirava, quase em ciúme,
porque nunca consegui o mesmo. Então que esta semana, quando ele me abraçou, disse
a mim mesma: agora ele também me sente.
Pode ser um grito
desesperado, um abraço. Pode ser nossa forma de não gritar. Usando o facebook, lembro de ter lido o post de uma ex-aluna pedindo um abraço. No que
prontamente foi atendida em uma série de comentários de afeto. Ainda ontem uma
amiga falou na vontade de um abraço de mãe. Amparo, aconchego ou apenas a
familiaridade de quem nos recebe sem perguntas, com nossas luzes e sombras,
nesse abraço materno.
O meu era de vó. Uma
matrona poderosa, calada e observadora. Que me deixava deitar ao seu lado,
abraçando aquele corpo gordinho e quente. Se havia tristeza, era partilhada. Se
havia dor, ela ia se esvaindo. Se era felicidade, alegria, alegria nesse abraço
de vó.
Esta semana foi
pautada por abraços. Começando no domingo, pelo de minha filha, geralmente a
primeira a se afastar do carinho. Acostumada que estou a uma certa impaciência
dela em abraços demorados, estranhei quando ela me puxou novamente,
ampliando a permanência de nós duas.
O abraço é um jeito de
ser sincero e falar “hoje eu pensei em você”. Também uma maneira de sentir por
inteiro, de vislumbrar a alma ou confessar: preciso, preciso, preciso. Recebi e
dei abraços esta semana. Alguns quase pedi. Outros, espontâneos e tranquilos,
abriram caminho para um riso entregue, cumplicidade, certezas. Não abracei uma
causa, não abracei meus vizinhos, anda travo com algumas pessoas. Mas ele está
lá, porque hoje pensei em você. E desejei lhe abraçar.
Para amigos muito
queridos, na sequência da semana: Pedro Bezerra, Jullimária Dutra, Gabriela
Valadares, Ana Maria, Margarette Andrea, Pedro Medeiros, Cláudio Bezerra. E, também, aos três
seres fantásticos que me recebem e acordam com beijos, abraços, felicidade:
Igor, Marina, Ian.
Carlota
10032012
quinta-feira, 1 de março de 2012
Café com bobagem
Dos vícios que carrego
com felicidade está o de ser uma leitora voraz e de beber café. E não me esquentem
a água para um cafezinho instantâneo. Quero um sabor verdadeiro, encorpado, de
um café bem forte, puro, que batizo com pouco açúcar. E, se for com leite, este
deve ser fervente e em maior quantidade, quase um espresso latte. Café
instantâneo me lembra leituras rasas, romance açucarado, personagens sem alma.
Marcar um café pra
falar bobagem ou refletir sobre a vida, vício maior. Hoje me rendi ao
cappuccino com uma amiga. Juntas, dividimos um pão crocante com um recheio que
não vou contar, mas que era acompanhado por um molhinho de mostarda com geléia
delicioso. Assim como nosso encontro inesperado com um grupo do qual sinto
falta. E que estava lá, no mesmo café, o Bogart. À mesa, afogattos, torradas,
antepastos, aromas. E uma sintonia de quem vive e brinda também com café. Alegre a reunião,
porque sem pretensão de acontecer. Relembramos pedidos em
restaurantes, revi Anna Constantino, minha companheira de viagem, e outra de
trabalho, Isabel. Conheci Gabriel.
Lembrou-me o Café com Alma,
de Celina e Mauro, espaço perfeito para os amantes dessa bebida e de comidinhas
inesperadas, como uma tapioca de queijo gouda com geléia de uva que nos
surpreendia pela inusitada e saborosa combinação. Estive neste café em sua última
noite de funcionamento, a convite. Poucos sabiam de seu fechamento, eu não
estava incluída. Confesso: se soubesse que não teria mais a possibilidade de
apreciar a tapioca, o brownie e os frapês espetaculares, incluindo um de
negresco inesquecível, teria pedido um de cada, só pra me despedir.
A amiga, os amigos, o
cappuccino; o local, a noite, a comida, as bobagens. O conjunto me deixou mais
leve naquela noite e hoje também. E vem daí que agradeço a Érica Nunes por ter
aceito o convite feito ainda domingo para o que foi um intervalo prazeroso em
uma noite de quarta-feira, mesmo sabendo que eu teria pouco mais de meia hora
pra curtir o bate papo. Dos vícios que carrego com felicidade está o de estar
sempre em boas companhias. Com ou sem café.
Carlota
01032012
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Fui, vi e curti
Assim como alegria, também se fabrica tristeza. Sabe não? Coloque-se aquelas músicas que relembram as dores mais profundas, angústias, as perdas. A tristeza é acachapante, de dar dó no mais duro ser humano. Há de se ficar triste às vezes.
Mas o mote não é essa senhora cinzentinha e invocada que gosta de passear em letras doídas/chorosas e sim a alegria, também ela fabricada.
E nessa história de produzir alegria, basta só um carnaval. Quer dizer, cinco dias de folia nos quais se deixa a vida de lado, abre-se uma vida nova no peito e na raça e descobre-se que, sim, é possível se divertir.
A resistência em encarar a chuva, a distância, a falta de táxis, as amigas distantes. A insistência em frevar mesmo com chuva, andar quilômetros acompanhando troças, blocos, maracatus, multidão. A conversa interminável com um mau humorado taxista que enfim rendeu-se e confessou: também comeu coxinha na Karblen e adorou. Os amigos por perto.
Cerveja gelada, cerveja quente. Vassourinhas, Agridoce, Baque Solto, Baque Virado, Otto, Alceu, Lenine, Lirinha. Lama, ladeira, palhaço e pirata. Chuva que Deus mandava. Caminhada de seis quilômetros para comprar uma colombina. Beleza, crianças, música, música, música.
E, seja menino ou menina, sempre tem quem gaste a retina procurando alguém na multidão. E na ausência da procura, se encontra. Dez, 15, 20 vezes, 20 mil pessoas diferentes. Lindas senhoras do Bloco das Flores, da Saudade, Banhistas do Pina, Flor da Lira. Posso fotografar você, minha rainha? E 300 sorrisos se abrem, em harmonia.
Alegria fabricada para saber que ela existe. E é só abrir o olho, o riso, os braços e acompanhar a beleza que ela aparece. Numa caixa de confete, purpurina, no copo descartável, no abraço, beijo, na brincadeira de vestir a fantasia e se encontrar. Eu me rendi a você. E fui carnaval.
Carlota
22022012
Mas o mote não é essa senhora cinzentinha e invocada que gosta de passear em letras doídas/chorosas e sim a alegria, também ela fabricada.
E nessa história de produzir alegria, basta só um carnaval. Quer dizer, cinco dias de folia nos quais se deixa a vida de lado, abre-se uma vida nova no peito e na raça e descobre-se que, sim, é possível se divertir.
A resistência em encarar a chuva, a distância, a falta de táxis, as amigas distantes. A insistência em frevar mesmo com chuva, andar quilômetros acompanhando troças, blocos, maracatus, multidão. A conversa interminável com um mau humorado taxista que enfim rendeu-se e confessou: também comeu coxinha na Karblen e adorou. Os amigos por perto.
Cerveja gelada, cerveja quente. Vassourinhas, Agridoce, Baque Solto, Baque Virado, Otto, Alceu, Lenine, Lirinha. Lama, ladeira, palhaço e pirata. Chuva que Deus mandava. Caminhada de seis quilômetros para comprar uma colombina. Beleza, crianças, música, música, música.
E, seja menino ou menina, sempre tem quem gaste a retina procurando alguém na multidão. E na ausência da procura, se encontra. Dez, 15, 20 vezes, 20 mil pessoas diferentes. Lindas senhoras do Bloco das Flores, da Saudade, Banhistas do Pina, Flor da Lira. Posso fotografar você, minha rainha? E 300 sorrisos se abrem, em harmonia.
Alegria fabricada para saber que ela existe. E é só abrir o olho, o riso, os braços e acompanhar a beleza que ela aparece. Numa caixa de confete, purpurina, no copo descartável, no abraço, beijo, na brincadeira de vestir a fantasia e se encontrar. Eu me rendi a você. E fui carnaval.
Carlota
22022012
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