quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A falta que ela me faz

Tenho um histórico de mulheres fortes no caminho. Daquelas que não desistem, que alcançam, dão tudo de si. Tenho um histórico de mulheres que foram embora, seja pela morte ou por viagem, seja por uma briga ou por alguns equívocos que nem sempre a gente pode desfazer.

Quando lembro de minha avó, Dona Creusa, todo um universo de felicidade chega pra mim. Quando lembro dela, vem o gosto de feijão com arroz, revejo brincos e colares de aniversário, ouço novamente seus conselhos. E sinto o corpo quente, gordinho, acolhedor, meu travesseiro na infância e meu pouso e calmante na adolescência e vida adulta.

Minha mãe, presença menorzinha em minha vida, afinal foram só nove anos, lembro pelas unhas vermelhas e intensa vontade de viver. Pelos gritos e exuberância, pelos cabelos arrumados e olhos amendoados como os da minha irmã. Revejo cada um dos seus sorrisos, saboreio até as migalhas de seus bolos maravilhosos. Eró, a irmã mais velha dos meus tios, a mulher com tudo para ter vivido mais. Mas, pelo que viveu, foi muito e foi linda.

Penso na amiga querida que uma sociedade estragou. E quase não consigo admitir essa falta, uma angústia de dois anos. Até eu entender que tudo muda. E a gente tinha mudado, não era mais cúmplice não. Mas o desejo de que a vida seja leve pra nós duas permanece. A gente precisa é muito disso. Leveza, alegria, amor.

Aí vem uma delícia de aluna, de ex-aluna, de amiga, a resolver empacotar todos os pertences, jogar fora as tralhas e partir. Recife não cabia mais nos sonhos, era pequeno, era só isso, Recife. Com lembranças legais e outras não. Gabriela. A quem entrego muito amor e partilha, por tudo que ela me ofereceu: de vistas lindas do Capibaribe até amigos, até o vinho, até a dor que vez em quando eu lhe contava.

Sinto falta dessas mulheres pertinho. Sinto falta também da minha filha, minha nega, minha linda. Que cresceu, é Marina, e não mais menininha, Nina ou Pipoca. A que ainda hoje guarda no espaço entre a raiz dos cabelos e a testa um perfume doce e todo seu. O cheiro da minha flor menina. .

Pra essas mulheres incríveis e lindas, tão fortes e corajosas, desejo todo o bem do mundo. E incluo no pacote outras a me fazer falta mas próximas, ao alcance de um post, uma ligação, um abraço. Salett, Aline, Verônica, Cris, Mariana. Tenho de aprender a entregar o amor pessoalmente. Quem sabe assim ele circula mais forte e esperançoso de dias de sol. Iluminado. 

Carlota

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Halloween

O amor chegou hoje. E eu, que da última vez tinha dito, passe outro dia, tive de lidar com esse estranho que resolveu chegar. Foi no meio do pinot noir, do edam e dos damascos, tarde de compras que também incluiu lâmpadas e creme dental. Chegou pra esfriar meu sofá.  Pra me fazer olhar as janelas e nem ver. Tirando minha fome e travando a garganta, que ainda está um nó.

Chegou me dando vontade de dormir. Na rede, abraçada, juntinho, colada. Estabelecendo parâmetros e perspectivas, parecendo uma pesquisa científica, um novo paradigma. Veio feito um puto, pronto pra briga e, eu, na minha. Olhei e foi só cansaço, estou rendida faz tempo, tem necessidade disso não, cara.

Dia das Bruxas, 13º, vontade de comprar uma bicicleta e sair por aí. A crônica de Xico Sá no El país, falando de quando o amor começa e de Love em 3D. Que insistência e que coração desaprumado esse meu.

Sexta-feira e eu bebendo o vinho do amor inesperado.

Carlota

30102015

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

De leve

Eu poderia dizer mil vezes que eu não tenho nenhuma leveza. Que sou uma alma angustiada. Que tenho uma gastrite que me ataca de vez em quando e me obriga a um tratamento de 30 dias com omeprazol. E que óleo essencial de lavanda pra mim é tão necessário quanto um beijo bom.

Eu queria mesmo era dizer de novo que não, não sou calma. E que dentro de mim ficam se balançando todas as cartas do tarô: o diabo, o eremita, o louco, a roda da fortuna, sol, lua e imperatriz. E que jogo o I Ching e ele me aconselha a ficar em silêncio, a perceber as virtudes do sábio, a observar a natureza da água, da montanha, do ar.

Aproveito e entrego que leio mensalmente o horóscopo de Susan Miller. E digo, puta merda, de novo Saturno tá lascando minha vida! Que já pensei em jogar tudo para o alto e se não jogo nunca é porque alguns laços são queridos e importantes demais. Que bate um cansaço do caralho quando a rotina ainda me inclui um trânsito insuportável e viagens de avião em pequenos intervalos. E que gosto de Jack Daniel’s e Malboro. E sinto falta de dançar.

Mas também quero falar dessa vontade de distribuir amor quando estou feliz. Que envio ondas mentais de carinho para meus queridos. Que saudade quando aperta me faz ligar e propor um café, uma cerveja, qualquer desculpa para conversar bem muito e abraçar ainda mais. 

Que abraço pra mim é o cumprimento mais legal do mundo. E nele entrego bons desejos. E recebo ondas e mais ondas de coisas lindas. E talvez daí chegue uma leveza de quem franze a testa apenas porque é míope. E, pela miopia, às vezes deixa de reconhecer alguém ou perceber o quanto uma criatura é interessante.

E esse arrodeio todinho foi para agradecer às pessoas da minha vida, e aos que estão pertinho apenas pelo bem-querer, os abraços, beijos e afagos pelo meu ano novo. E pela leveza que veem em mim.

Carlota

08102015

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Gabriela

Primeira vez na vida que me senti uma artista foi em tua casa, quando tu me entregou sem medo uma pilastra como tela para meu traço. E defendeu minhas cervejas de um infiltrado na ocupação de teu apê. Primeira vez na Cubana. Primeira vez na Mamede. Primeira vez de uma ressaca homérica que me fez querer morrer duas vezes e mais uma (presenciada por um Chicão confuso). Primeiríssima e deliciosa vez no Irak, com direito à dancinha com o DJ.

Tu é movimento, moça. Por isso tantas primeiras vezes, tantas belezas e histórias. Por isso tantas despedidas e voltas e idas e agora Brasília. Primeira vez de Morrisey. De festinha de criança para adulto, com direito a lolitas, cachorro quente e dip lik.

Tu, andarilha, também me fez descobrir o pisco e a beleza de ver a rua da Aurora do 17º andar do edf. Caeté. Do café com canela. Do aprendizado sobre pimentas e temperos. Sobre a maravilha que é um manjar de coco com calda de manga e gengibre. Tu é assim. Chama o povo pra comer e faz festa com quem chega.

Pudesse eu, corria pra tu sempre. Assim como também corri de tu quando eu estava muito triste. Porque é quase impossível disfarçar as dores diante dos teus olhos verdes. Danada de menina pra ver o que se esconde. Pra dizer tanto. Pra amar cada um e sempre mais.

De quebra, além do aprendizado culinário, amoroso, vital, ainda conheci teus amigos e eles também se tornaram um pouco meus. Patrícia, Rodrigo, Mariana, Lourdinha, Maria, Laura, Black, Marcela, Paulão, Raquel, André, Íris e tantos outros que se alternavam em tua casa. Também conheci tua coragem, esperança, vontade. Saber quando ir, quando ficar, desejar. Pois tu agora se entrega mais uma vez à Brasília. Onde fará ninho pra receber não só tua vida, memórias, panelas. Mas o desejo de todos os amigos que festejam tua vida. Mulher, seja muito feliz nessa cidade. E prepare o cozido, que vou te visitar.

Xêro, lindeza :)

Carlota
150715

ps.: num teve pendrive, mas vai meu desejo com Nina.

Feeling Good | Nina Simone





domingo, 29 de março de 2015

Fadas


















De morar em casas e ter árvores.
Uma mulher olha o jardim.
E, pronta, sempre enxerga belezas.
Até as escondidas.

terça-feira, 24 de março de 2015

Para Alice

Uma menina ensolarada e diva inspirou a crônica de hoje. E trouxe de volta um baú de coisas que trago comigo. Aquelas sobre as quais falei durante cinco anos na terapia. A necessidade de ser aceita, me sentir igual, fazer parte do grupo ou passar despercebida. A lacuna fez parte de minha adolescência. Porque fiquei muito magrinha, porque adorava ler, porque ficava em casa curtindo esse mundo fantástico e terminou que de menina sapeca, comunicativa e abraçante, fui para a sensação de desencaixe e uma timidez intensa.

Era ela que me impedia, por exemplo, de dar boa noite àquele grupo reunido na frente da casa da vizinha (não, não era falta de educação, Dona Creusa era primorosa neste sentido). Era ela, também, que me fazia observar as pessoas com extrema atenção, percebendo nuances e vibrações – legais ou não. E que me deixou desconfiada por muito tempo. Medo de gente, sabe? Medo do que as pessoas poderiam dizer. Porque uma frase inesperada podia gerar aquela dorzinha incômoda, um ranço na alma, um jeito cinzento de olhar o dia. Ou tirar minha alegria.

E se a timidez foi embora, o processo de autoconhecimento foi longo.  Envolveu olhar pra esse baú um sem número de vezes e sair descartando a opinião alheia e tão formada sobre minha pessoa, mesmo que não me conhecessem tão bem. Envolveu ainda eu perceber que criar rótulos para mim ou para outro tem dois gumes: se encaixa, também limita. Nem tudo precisa ser um universo conhecido. Nem tudo tem explicação.

Vai daí vez por outra ainda estranho – e procuro controlar a sensação ao reconhecê-la – a quantidade de gente curtindo estar ao meu lado. Pessoas recém-chegadas me trazendo brindes inesperados. Nessa de deixar rolar afeto e ter abraços quentes e muita conversa. Alegria com café, bolo, vinho ou cerveja. Encaixe. Mesmo que nem sempre de ideias.

Então me espalho em amorosidades, em dengos derretidos, em noites que se tornam manhãs. Vou entregando alguns sorrisos, conto pequenas histórias, falo de comida e sonhos. Escuto. Entendo. Discordo. Ou dou um mergulho no mar sem medo da noite fria. Porque os que chegam perto trazem o coração desarmado e não tem vontade de ferir.

Sim, Alice, palavras doem muito. E como todo mundo às vezes fala besteira, sem nem notar ou porque não consegue ter palavras boas, a gente segue tentando aprender a espalhar amor e alegria, fazendo deles um escudo legal para o coração. De verdade, a gente não precisa se encaixar. A gente é que molda a vida ao nosso redor.

Com muitas lindezas, cachinhos e batom vermelho pra você

Carlota

24032015

segunda-feira, 23 de março de 2015

Sobre ontem




Há um ano, mais ou menos, vi no instagram a foto de Mariana Freitas. Ela casou direitinho com um haicai antigo, feito há mais tempo ainda para alguém por quem fui completamente apaixonada. A paixão foi se esfarelando ao longo dos anos, tal qual o buraco nessa parede, que aumentou gradativamente. Mas foi uma das mais gratas experiências que vivi, sem arrependimento. Feliz.

Carlota
23032015