segunda-feira, 1 de outubro de 2012

De abraços e aniversários

Em tempo de tanta virtualidade, recebi mensagens lindas, mostrando que os avisos de aniversário do facebook surtem efeito. E que, por alguns instantes, a gente para e escreve pra desejar um bom desejo ao aniversariante: dias legais, festinha, sorrisos, uma vida boa, parabéns, saúde, sucesso, beleza, projetos, tanta coisa e sempre tão boas... E se a gente dedicou esse tempinho aí pra desejar, é porque temos doses de afeto a distribuir, do mais simples parabéns até os textos mais elaborados, de quem se prolonga no desejar.

Decidi comemorar meu aniversário com três criaturas tremendamente especiais, meus filhos Igor, Marina, Ian. Em raras ocasiões acontece do aniversário ser em um sábado, então que saí do trabalho após aplicar provas e fomos juntos a um hotel pertinho, mas que nem parecia ser. Ficamos ilhados entre praia, piscina, restaurante. Em um quarto propício às nossas brincadeiras e à surpresa que eles me prepararam à noite, logo após o jantar. Dava para curtir a praia ouvindo eles próximos, brincando, festejando com alegria esse momento de cumplicidade com a mãe.

Mas na sexta-feira, 28, uma amiga linda e libriana também comemorava. E fui pra lá, dar meu abraço e esperar a meia-noite chegar, porque queria dividir o dia que começava com pessoas que me querem bem (e que podem esperar o avançado da hora pra festejar). O maior presente foram os abraços de Catarina, Antonio, e outros dos quais não sei o nome (perdoem, foram vários). Também o abraço coletivo: eu, Verônica, Gabriela. Três librianas juntinhas, desejando amor, sorte, dias amenos. Abraçando como se não desse mais pra se desvencilhar do aperto, do círculo fraterno que se formou . Sempre choro, sou a criatura mais besta do mundo pra alegria. Me despedi com todo amor possível me aquecendo a alma, feliz que só.

Para ser justa, preciso dizer que quem primeiro me abraçou foi Renata Victor, ainda no dia 28. Logo após, Niedja. Pedro Bezerra veio tomar um shake no Bogart me garantindo conversa, afeto e afagos. Minha comadre, Margarette Andrea, chegou à noite e antecipou a festa que acontecerá no próximo sábado, 6 de outubro, com todas e todos juntos – comadres, sócias, amigos, recém-casados que vão abrir a casa especialmente pra gente festejar. Durante mais uma prova, aparece Marcone para abraços e xeros. Também Xica e Wlaudimir, na secretaria, pouco antes de ir embora.

Na manhã do aniversário, primeiro Jeziel, depois Alfredo e fui sendo invadida por pequenas alegrias, essas, de todo dia, como ganhar abraço de pessoas queridas. Yanna, minha aluna, logo após a prova deseja feliz aniversário com abraço. Assim como Gil. Recebo mensagem de Laís, abraço também. E aí que, no final, outro abraço coletivo e carregado de ternura quase me deixa sem ar de tão feliz: Gyvisson, Jessica, Renata, Laís, todo mundo junto pra desejar um dia bom.

E eu que saí tão cedo e deixei os filhos dormindo, recebi pequenos beijinhos e outros abraços de cada um desses meninos e menina. Ansiosos todos para a nossa pequena viagem. Eu também. Chegaram ainda telefonemas, carinhos, gestos felizes. E nesse tempo que foi o sábado e o domingo, fomos uns dos outros, só a gente, brincando e querendo mais. Até a volta pra casa e o encontro com a cachorrinha mais doidinha e meiga do mundo: Estrela. Manhã, tarde, noite de lua. Um aniversário inteiro pra curtir os filhos, sentir os abraços virtuais e concretos, planejar, viver. Feliz.

Carlota
01102012

sábado, 4 de agosto de 2012

Vez em quando

Vez em quando é preciso amar. Mas não aquele amor carnal, tão bom, intenso e desejado. É preciso amar a humanidade. É preciso olhar o trabalho com amor. É preciso, sim, é preciso, entender o ser humano que se esconde por trás de todos os defeitos de sua empregada, que às vezes lhe tira do sério ao desconhecer os mistérios culinários que se escondem em um prato de macarrão.

Partilhar a dor, a saudade, a tristeza é considerado sinônimo de amizade. A gente sabe que aquele que nos oferece o ombro é solidário. Mas vamos ser solidários na alegria. Vamos invadir a todos com uma energia tão boa, como se o dia hoje tivesse tido um passeio de bicicleta, uma caminhada à beira-mar, um abraço de filho cheio de dengo. Vamos parar de reclamar só um pouquinho, pintar as unhas de vermelho, dividir as impressões sobre um filme, dar uma parada para um banho frio de chuveiro. Vamos acordar.

Sou reclamona por natureza. Não, não é da minha natureza. TPM, dor e ex-marido às vezes me enchem o saco e sinto que os ombros estão sobrecarregados. Vou correr pra onde quando bate a vontade de colo? Foi simbora minha avó, minha mãe maior. Foi simbora o tio companheiro. Ainda tenho uma família por vezes arisca, outras afetuosa. E, com quase 43 anos, que desejo de colo é esse? Vez por outra é só a necessidade de dar uma pausa. Que ninguém para no colo no outro e se entrega às reclamações. Sim, elas iniciam essa espécie de terapia casual. Mas no final o que acontece é o descanso. A necessária pausa para se recuperar do tombo, da noite mal dormida, das dores, dos problemas, do cansaço.

Esse colo a gente quando cresce vai oferecendo. Aos filhos, aos amigos, à família. E descobre que esse dar colo também vai garantir uma pausa feliz. Porque nos desligamos momentaneamente do que somos ou do que estamos vivendo para apenas ajudar aquele que nos procurou. Para suavemente passar as mãos nos seus cabelos. E desejar em palavras ou só no pensamento que tudo se resolva, que a dor passe, que a vida acalme ou que ela se sacuda, cheia de malemolência para alegrar.

Dia desses estava no aniversário de uma amiga, que também é comadre, que também é sócia. E fiquei lá lembrando das batidas de cabeça que a gente dá. Pode escrever que somos três mulheres fortes, determinadas e absurdamente cabulosas. E olhando pra ela, a de olhos verdes, cantando pra ela ao lado de outra grande amiga pensei: meu olho agora é de amor. Vou olhar com amor essa amizade. Essa sociedade, esse trabalho. Apenas isso. Amor.

E amor a gente pode sentir ao ler um livro e se aquecer com uma história que se passa em Budapeste. Ou com um ciclista que surge durante a tarde. Amor a gente sente quando vê que conseguiu. Quando compra um esmalte laranja com glitter pra única filha que tem. Quando vê o amigo desenhar com um traço lindo. Quando vê um trabalho pronto. Quando a dor passa e a gente percebe que o dia é de sol.

Por isso, vez em quando, é preciso amar. Cuidar dos vínculos e do pertencimento, cuidar e se deixar cuidar, num enlevo suave como colo de mãe e de pai. Ou de vó, minha avó, minha querida. Hoje estou com saudade, é fato. Dolorida, tipoia no braço esquerdo, mas com vontade de amar essa Carla Patrícia que eu sou. Vez em quando. Vez em quando.

Carlota
04082012

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Manhã de chuva


Fiquei pensando meio bestamente nos ex-casos, amores, ficantes. Aqueles que ficaram na memória. E me peguei pensando na pegada maravilhosa de um deles, no jeito como me abraçava no sofá. E me deu vontade de agarrar aquela mão quentinha novamente e sair por aí dançando forró sem parar, até o dia nascer, a gente cansar. Me deu vontade de acender malboros e fumar junto, só olhando um pro outro curtindo o divertimento de ser apenas nós por ali.

E nessa manhã de chuva surgiu alegria. Porque o tão recente dia dos namorados solitário que vivi não me deixou triste. Se eu queria chamego, dengo, derretimento? Sim. Mas se não tive nessa noite específica, consegui parar apenas hoje para curtir ser dona de uma alegria que às vezes até irrita. Porque houveram momentos tão bons e inteiros, que nem uma convivência mais longa iria garantir o sorriso e a alma que trago hoje.

Pode ser porque cortei os cabelos, resolvi pintar as unhas de vermelho, carreguei no rímel e as músicas que por hora escuto são legais. Deve ser porque entrei de férias, para tirar as férias da sócia e amiga. Deve ser porque algumas coisas estão se resolvendo em mim, decisões que não preciso ter agora, mas que estão delineadas e surgem no esquema passo-a-passo, um de cada vez.

Pensando em meus amores, me senti feliz. Porque ainda lhes tenho um carinho que Deus me guarde um reencontro. Porque minhas tríades são implacáveis em não abandonar a memória dos afetos e dos sentidos. Porque quando foi, foi simplesmente, sem dor, sem mágoa, sem rancor. Porque tinha esgotado o a partir dali. Porque era apenas mais uma forma de não estar disponível nesse momento em pleno estado de graça.

Se um me convida ao café, a conversa é tarde inteira. Se encontro no chat, o que antes era reserva vira tranqüilidade. E se ainda há tempo para emails, sei bem que eles apenas nos falam de amizade e brincadeira.

Como faz tempo não escrevo feliz. Como faz tempo não me sinto tão assim. Como faz tempo. E na manhã chuvosa, que abriu-se em sol e se fez tarde nublada, surge esse querer bem que esquenta a alma esteja eu alegre ou triste. Hoje, alegre. Pois sim.

Carlota
15062012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Estrada


Neste sentido eu nunca disse que haveria. Nesse sentido.

Então que foi preciso olhar de novo a estrada, consultar o mapa, ajeitar os óculos que escorregavam no nariz, oleoso àquela altura.

Nem posto de gasolina, nem pousada e ainda um completo desentendimento sobre as instruções que recebera.

Mapa, para ela, era sinônimo de labirinto. Não tinha nenhuma habilidade espacial ou de localização. Não sabia como discernir linhas de rio ou de estrada, não via, no caminho, o que o papel em mãos indicava.

E a porra do ar condicionado resolveu quebrar e o lugar nenhum onde havia parado estava quente. Não conseguia saber se o inferno era ela ou aquilo ali. Vai dar empate.

Desceu do carro e procurou ouvir em pensamento o cara a quem pedira informações. Nada. Nesse sentido, e em tantos outros, estava perdida.

Carlota
05062012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Beleza

Eu sempre amarei a beleza. A linha do horizonte. O mar com nuvens pairando logo acima dele à noite. Eu sempre vou amar pessoas que amam a felicidade. Que se alegram. A música.

Eu sempre vou amar quem me encontre em uma tarde cálida e me fale verdades e mentiras. Eu sempre vou amar o barulho do mar. E cada abraço de cada um dos filhos amigos você.

Eu sempre vou odiar mesmice. Sempre odiarei um dia atrás do outro sem noites legais no meio. Vou odiar quem pensa que o começo pode ser mais tarde. Vou odiar meu tempo perdido.

Guardarei meu rancor mais profundo para os que tiram a vitalidade dos outros. Para quem se ofende após ter ofendido. Para quem torce a história e se faz de vítima. Vou odiar mortalmente minhas noites insones.

No amor, entrego: odeio cartas melosas, odeio silêncios abismais, separações. No ódio, amo a vibração que a ira provoca. Amo a intensidade com a qual a raiva nos torna humanos, a velocidade com que o desespero é dissipado para que o olhar dizime a pessoa com a qual travamos a batalha.

No amor, no ódio, sou cada um. Em cada face que cada um revela.

Carlota
23042012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Um começo de história

A menina anda e esbarra em um começo que de brincadeira estava por ali, assim, de bobeira. Achou bonita, a menina. Quis conversar. Mas ela, que não dava mole para inícios toscos, apressou o passo e foi.

Nem percebeu o princípio de sorriso que o começo esboçava. Nem notou, quando almoçava, que o mundo parecia outro. Era só o começo que chegava. Na pressa, não viu folhas de árvores ou abraços. Corria. Temia o fim do dia.

O começo insistia. Fazia cócegas, cantava músicas, dedicava olhares... Fazia com que percebesse o som da caminhada. De repente, não estava mais cansada. E diferente se sentia. Já era um começo, pensava ele. E a provocava.

A angústia das luzes vespertinas se transformou em uma espécie de alegria. Soltou espirros, tossiu, engasgou. Os olhos se encheram de lágrimas e teve de parar e ouvir o que o começo lhe dizia. Rendida, pois nem respirava. Era o fim. Não. Começo. Não, é fim. Não resisto. Aflito, o começo lhe dá uma trégua. E ela, sabida, corre o que pode e o deixa para trás. 

Desconsolado, o começo olha para o lado. O meio e o fim, não satisfeitos, zombam do pobrezinho. Dia seguinte vem de novo a menina. Vestida de flores na blusa, com passos lentos, olha o começo, deseja bom dia. O meio então se levanta. Obrigado, amigo, agora é comigo. No que ela reage horrorizada. "É só o começo. Mais nada".

Carlota
15042012 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Coisinhas

Sou apegada a coisas miúdas. Rascunhos, brincos, gestos uns. Pequenos objetos, como o vasinho de porcelana florido que o vento fez cair do terraço. O cheiro de giz de cera. Seixos coloridos.

Parecem eles mais abertos a serem amados. Os traços com bico de pena, aquele terço embaraçado. Eu amo coisinhas.

Como a cachorrinha lá de casa, divertida companhia que me roubou das manhãs os passarinhos. Quem ousaria entrar na sala agora a buscar farelos, se há entre nós uma caçadora? As manhãs, quando invadiam suavemente o debaixo da mesa em voos rasos, eram mais frescas.

Também me encanto com rostos desarmados, olhares escuros, sorrisos, alguns chuviscos. Lembram espaços a ocupar, memórias, marcadores de páginas. Pedem presença, inspiram afeto.

Uma contradição olhar todas as folhas miúdas do flamboyant. Mas é que o vento sugere a leveza que elas tem. E, nessa dancinha, o que é estático ganha movimento. Minha árvore vibra em raiz.

Do céu, a nuvem. Da praia, o grão. E, surgindo um besourinho, corre o menino e o prende na mão.

Carlota
040412