quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Vou ser Carnaval pra você


Nas vésperas do Carnaval escolhi umas músicas lindas para escutar (entre elas Fix You, de Coldplay). Dessas que embalam sonhos, perfumam, relembram saudades. E um sorriso ao meu lado surgiu na tela do celular, enquanto a música escolhida rodava no meu quarto... Um sorriso de folião, de felicidade, de um cúmplice perfeito. Ricardo Pacheco.

E decidi que vou curtir esse Carnaval lembrando do seu  gosto por essa farra. Deixa eu lhe trazer à tona assim, com alegria, com amor, com os poucos passos de frevo em que me arrisco, com minha – lembra? – fantasia de palhacinho (diferente nos detalhes, igualzinha na essência). Saudade boa essa agora, meu amor. Saudade de sua vida bem colada na minha. E da sua mão na minha, para eu não me perder no Galo da Madrugada.

Recusei convite para curtir a paz, a natureza, em uma ilha deserta, tão bela e em boas companhias. Vou brindar você com cerveja, sentindo o coração e a pele arrepiarem com o som do Vassourinhas. Vou beber você, amar você, vestir você, dançar você nesses três dias. Sim, vai ter folia, meu bem.

Vou me aliar aos amigos carnavalescos. Vou olhar a cidade com olhos de turista, vou cansar o corpo em movimentos precisos de quem quer só dançar.

Ouvindo o frevo.
No passo, sem pressa.
Vou ser Carnaval pra você.

Eita saudade!

Carlota
160212

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Como se faz?


Uma fantasia, um Carnaval, um samba, uma ode, um romance? Como se faz o concreto quando o que a gente pensa nem existe ainda? Como se faz? Como se quer, como se pretende, como se chega nisso aí? Acabei de criar um quadro com metas/pretensões/ideias/propostas para os próximos 10 meses. Até dezembro tem coisa por lá. Tem tanta, na verdade. E eu torcendo mesmo para fazer tudo o que estou propondo, assim, suavemente, mas com um tanto de imposição – é pra ser, é pra fazer, é pra abstrair -, viu, moça?

Devo ter esquecido coisas fundamentais, tipo ser mais amena, mais alegre, mais contemplativa. Devo ter esquecido de anotar que é preciso parar também. E que é fundamental não ficar parada. O que mais curti nesses esboços de hoje foi anotar as palavras que eu quero que comandem 2012 para mim (vou aproveitar que é um ano par, que o astral começou bem): entusiasmo, compromisso, alegria, amor, persistência, família, disposição, vontade, amizade. Tinha outras lá, mas estou esquecendo. Aliás, estou esquecendo um monte de coisas desnecessárias também. Carregar uns pesos chatos. Desconfiar de que, em algum momento, eu não vou dar conta. Outras lembrei com felicidade: vai ter viagem, sim, vai ter partilha, vai ter coisas bem legais para aprender. E relembrar.

Revista Piauí de fevereiro (edição _65) me traz uma seção denominada questões afeto-desportivas. O autor, Ricardo Lísias, começou a correr após uma crise, após ter se separado, no meio de um romance acordado com uma editora, antes de uma oficina literária que iria ministrar. E foi a corrida que o impediu de sucumbir/perecer/enlouquecer (fiquei na dúvida sobre qual palavra usar). E hoje, aproveitando a momentânea licença do trabalho por conta de uma conjuntivite, fui caminhar na praia (santo remédio para quem quer pensar). Mudei o horário, que não estou agüentando o sol por enquanto. E assim, próximo às oito da noite, vou para o calçadão. E resolvo tirar o fone de ouvido e escutar, de verdade mesmo, os meus pensamentos.

E o que era caminhada foi corrida bem umas seis vezes. O fôlego ainda não me dá o direito de correr mais do que cinco minutos intercalados com a caminhada. Mas quando eu corro, é de boa, é de vontade mesmo, é pra deixar o que quer que esteja me incomodando lá pra trás. E tanta coisa está, nesse momento, nesse tempo incômodo. O maior, talvez, seja o não sentir. Sem grandes entusiasmos, sem um tanto de indignação, sem choque, sem medo, sem transgressão.

E me vi pensando que eu quero muito, muitas coisas diferentes. Aprender está em praticamente todas elas. Aprender a viver comigo, com os outros, com a vida que existe a cada dia, a cada pessoa que conheço. Aprender que eu não quero ser compreendida, explicada, esclarecida. Quero ter pontos obscuros, quero ter pontos excessivamente claros, quero tanto, tanto, que nem sei.

Como se faz uma vontade? Como se faz a realidade? Como se faz para trazer à tona o que é preciso para aquele exato momento? Não tenho nenhuma resposta. Aliás, parece que não tê-la é o requisito fundamental para viver. Que a vida então se faça. E me faça renascer.

* Sobre a corrida. Ao falar com uma amiga sobre uma ocasião em que simplesmente não pensei em nada, só fiquei sentindo o vento, o piso, o corpo em movimento, ela me explicou ser uma experiência de presença, algo que a gente sente quando faz ioga, por exemplo. Porque eu estava completamente, inteiramente ali. E, posso dizer, é uma das melhores coisas que se pode sentir. Thanks, Anamaria, pela explicação.

Carlota
150212

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Doce

Um casal de mãos dadas. Uma menina nos braços da mãe. Uma cacheada garota brincando com o cachorrinho. O jeito que você sorri.

O casal de mãos dadas traça um percurso igual quase todos os dias, duas pessoas que devem ter mais de 50 anos de partilha. Ele, um senhor grisalho e de óculos, me deseja bom dia. E eu retribuo com meu melhor sorriso, com minha vontade, com passos mais firmes, porque vejo que os deles são vagarosos, como se já nem tivessem pressa em cumprir a rotina de caminhar. Ela parece mais velha – terá sido a vida mais dura – ou mais frágil.

Quando não os vejo, me preocupo. Porque já lhes quero bem há muito. Pois ele também é adivinho, não disse? Há cerca de um ano deparou-se comigo quase em prantos, na volta de um exame que confirmou a lesão no meu ombro. E não é que me olhou bem fundo e disse: saúde, filha, saúde. No corpo e na alma. Como não melhorar depois disso? Eles não sabem, mas lhes tenho um afeto cheio de ternura, porque me acompanham em poesia.

Ela não tinha um ano. Para onde eu ia? Não lembro. Sei que estava em um ponto de ônibus e olhei ao redor. Vi uma jovem com uma menina nos braços. Chamou minha atenção e foi aumentando a doçura da tarde observar o encantamento da filha pela mãe. E não o contrário. Tocava o rosto, os brincos, os fios soltos do cabelo materno. E sorria. E puxava e ria de riso solto e alegre. E seu olho era um descobrimento, então é essa, minha mãe, e é linda, será que sou igual? E a mãe, entregue, não a largava do colo, cheia de cuidado mesmo na ameaça de ter seu brinco arrancado pelas mãos buliçosas.

Reduzo o ritmo da caminhada na praia e penso em como queria saber desenhar. Porque vi pai e mãe passeando cúmplices com a filha e o bichinho de estimação, um poodle tão cacheado quanto a menina que não parava nunca. Avançavam, voltavam e a brincadeira dela era deleite para os dois. Como descrever a roupa que não consegui desenhar? Era início de noite, beira-mar, um tanto de frio. Camisa branca de mangas compridas, camiseta rosa por cima, sainha, meias escorregadas pelos tornozelos, tênis. Só a vi de costas, de cachos negros, de felicidade.

Sorriso. Jeitinho enviezado esse de demonstrar alegria. Mas quando ele se abre, é menino. O olho brilha, perfeito. E recebo como presente raro.

Vou adoçando a alma, a vida. Porque ela se mostra como quem é tímida e se revela aos poucos. Como quem não quer dizer e diz. Como quem precisa ser descoberta. De pura beleza, de doçura, dias inteiros. As noites também.

Carlota
070212

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

De como eu preciso matar você

Sim, meu amor, preciso. Porque não seria justo comigo permanecer com você tão vivo e tão perto. Preciso que você morra, querido; que seja transformado, pranteado em um altar imenso e cremado e espalhado pelos ventos em algum lugar que não me lembre você. Uma geleira, uma salina, uma cova rasa. Um bueiro, um beco, um buraco em algum caminho.

Perdoe-me, querido, se sou assim. É porque preciso matar você. Mas não é fácil. E não imagino câmaras de gás, latrocínio, suicídio. Imagino apenas suas cinzas espalhadas em algum lugar que não me lembre você. Uma esquina, um bar sujo, um banheiro impregnado de urina.

Ah, meu amor. Vou matá-lo de um jeito doce, você nada irá sentir quando eu lhe beijar por último e rir depois. Nem vai perceber que está morrendo lentamente nos meus braços, porque demorou a entender que eu já nem queria. Nem notou que meus olhos são covardes e não lhe olham mais?

E minhas pernas irão se alternar com as suas. Minha boca, sua boca, que beijo é esse que me inspira bohemias e malboros e uísques, pão de queijo, sorvete, vinho do porto? Vou matar você. E jamais sentirei fome, nem sede, nem frio. Mato você com requintes de crueldade. Olhando juntinho, lambendo sua orelha, abraçando o vizinho. Meu amor, é preciso.

Quando o príncipe vira sapo ou um sátiro e cai por terra a imagem de um, de outro, de nós, só a morte. Só matando você e enfiando suas cinzas num envelope pardo e eu lhe despacho pra Groelândia, pra Finlândia, qualquer lugar onde eu jamais irei. E no escapamento de um carro, na garagem, na escada, no fio da navalha, eu mato você. E é bom.

Carlota
31012012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Surpresa

Engraçado como cansaço vai embora rapidinho quando a gente, de repente, percebe que está feliz. Comigo aconteceu após uma crise pessoal, irritadiça, chata. E resolvo fazer algo que não fazia há anos, sair com outra turma que não a costumeira. Fui com minha afilhada de 18 anos e uma amiga sua de 21 para uma boate de música latina.

Uma terceira aparece com ingressos que nos garantiram 50% de desconto. Detalhe, só depois de uma conversa porque, infelizmente, as entradas eram para o dia seguinte. E lá vou eu pensando o que estava fazendo lá com duas meninas com metade da minha idade. Peço uma cerveja long neck, fico bebericando, vem um fotógrafo de um blog, registra minha passagem por ali.

Então que vendo aquelas meninas dançando tão sem frescura, sem pressa, fui ficando alegre. Porque fiz algo que eu adoro, dançar. É algo como correr na praia, comer uma fatia de bolo de chocolate, entre outras coisas bem legais que não preciso dizer. Pra mim é uma catarse.

Dançamos todas, no final éramos cinco (uma das quais conhecia todos os dançarinos), das 23 às 3 da manhã. Quatro horas ininterruptas de ritmos latinos, dance, bregas rasgados, tudo tão bem dosado, que não havia como não gostar de estar ali. Agradeci o fato das meninas terem se aventurado em sair com a tia e curtido dançarmos juntas, sem a pretensão de analisar se eu, nos meus 42 anos, devia ou não estar em casa lendo um livro (coisa que também adoro fazer) ou cuidando dos meus filhos.

Confesso: minhas pernas estavam arrasadas na manhã seguinte, no mesmo dia no qual iria para um aniversário. E minha delícia foi ter encontrado tanta gente boa reunida, de idades tão variadas, além de dois DJs irresistíveis. Não vou mentir. Dessa vez fui das 21 até quase duas da manhã, nem sei bem como. Vai ver porque era sábado, porque um dos aniversariantes era alguém querido, vai ver porque todo mundo queria se divertir. E foi bom. Quando percebi estava ao lado do DJ e o sono era mais do que uma insinuação. Ainda resistente, me despedi.

O domingo, chuvoso, me fez acreditar no cancelamento da última farra do final de semana. Que nada. Poucos de nós foram, mas quem estava queria participar da orgia de beber, comer e estar entre amigos falando da vida e acreditando que a gente se alimenta disso, dessa partilha. Após 21 dias sem empregada, sem férias, em crise, aflita, tive um final de semana perfeito.

Principalmente pelo inesperado. Naquela chuva, em meio a um certo desânimo, apenas decidi ir aos três lugares, sem nenhuma expectativa e, confesso, sem grandes entusiasmos. Para minha surpresa, me diverti muito. O cansaço foi para o espaço e eu, de banzo, fiquei feliz.

Carlota
24012012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Irritação

Como eu ando irritada, meu Deus. Como quase tudo implica em arranhões na alma, som de tampinha arrastando no asfalto, apito no ouvido, sol de meio dia. Como quase tudo me deixa tão à flor da pele. E sai triscando em uma sensibilidade de carne viva.

Não queria mais um telefonema, uma pergunta, asfalto molhado de chuva caindo o tempo inteiro. Não queria mais dar explicações, esconder os olhos, baixar a cabeça na incerteza. Não queria hoje nem amanhã. Só ontem, que foi melhor.

E uma música se sucede à outra e eu escuto Tulipa Ruiz, escuto Teatro Mágico, escuto Zeca Baleiro. Alguém me diz Vinícius, para alegrar, mas não me deixou alegre, Vinícius. Poesia demais, amor demais, paixão demais para quem está tão irritada, meu Deus.

Não devia ter tempo pra isso. Não devia ser tempo disso. Mas se há tempestade, não quero mais sentir. Se há tempestade, não quero nem saber. Se tem alguém que não quer saber agora nem mais tarde sou eu.

Quero uma cerveja gelada, uma tarde engraçada, umas cinco mil gargalhadas, em uníssomo, de alegria, de alegria, de alegria. Um abraço, de derreter todas as geleiras e calotas polares, quente, inteiro, feliz.

Mês que vem é Carnaval. Momo, me espera, me dá uma trégua, uma chance, me concede uma dança pra eu poder me levar. Me arrasta, me faz foliã, me deixa descalça, no passo, até encontrar o asfalto molhado nas cinzas da quarta-feira. Pra essa irritação passar.

Carlota
210112

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Encaixotando

Uma tentativa de me libertar de qualquer doçura, mas isso já é frescura, que homem não começa texto desse jeito. Lá Mané é doce? Então, estava lendo a prosa de Rubem Fonseca, de Luis Fernando Veríssimo, de Xico Sá. Tá certo, Clarice Lispector me enreda, faz minha cabeça, mas tem horas que eu queria pensar como esses caras, sem tantos tortuosos caminhos e elaborações femininas. Sabe aquela expressão: pei, buf? Pois. Essa aí. Ir direto ao ponto. Então que vou esquecendo esse rodeio todo pra entrar no que me interessa. A teoria das caixas.

Acredito piamente que cada um deve ter uma coleção de caixas bem escondida em lugar incerto e não sabido, a não ser pelo dono, é claro, que vez por outra pode até esquecer que ela existe, mas vez em quando também amplia a coleção com uma maior, outra pequeninha, quando viu, depois de anos, já tem um acervo considerável.

São segredos. Coisinhas que você fez e não vai contar nem na hora da extrema unção. Que só você e Deus (para os que acreditam em uma força onipresente maior) sabem. A última fatia de bolo que você, obviamente, disse que não comeu. A mordida no lábio, pra sangrar mesmo, de puro ciúme. As noites rolando na cama ou esperando uma ligação. O medo de perder o emprego que você não contou a ninguém. O caso com o marido da sua amiga, da sua mãe, da sua filha. Aquela vez que você mentiu que não estava em casa, quando tinha resolvido ir pra balada sozinha. Ou a doença inventada pra queimar uma segunda feira chata, chata, chata.

Até o mais correto cidadão tem uma caixinha, vá lá. Aquele tesão incontrolável pela estagiária que, obviamente, não vai dar em nada, mas o tesão está lá, presente. O troco que esqueceu (mesmo?) de passar. O sinal vermelho ignorado. O ressentimento, a poesia escondida, o esqueleto no armário.

Alguns são mais hábeis. Ao invés de uma coleção para guardar segredos, guardam a vida em compartimentos bem lacrados, cujos conteúdos não se misturam, para não desandar. São praticamente insolúveis. E então dá pra manter uma amante e continuar casado. Dá pra ser correto no trabalho e a peste no trânsito. Ter cara de anjo enquanto come até a mulher do vizinho. Detestar alguém mas manter a casca de civilidade porque é importante para a carreira. Manter um romance na clandestinidade enquanto preserva a imagem de alguém praticamente assexuado. Pois é. Uma vida feita em caixinhas.

Vai daí que entendi uma crônica de Luis Fernando Veríssimo, sobre uma senhora casada que começou, de repente, a colecionar caixas. E aí que todos adoravam, sabiam o que lhe dar de presente de aniversário. Até o marido contribuía, parentes, amigos. De caixas de chapéu francesas a lindas miniaturas indianas. Então que um dia a polícia chega na casa e encontra o marido da fulana completamente distribuído entre as centenas de caixinhas. Em cada uma um pedacinho. E os amigos comentaram, depois de terem narrado o horror dela ter usado os presentes desse jeito: alguma ele deve ter aprontado, lá isso deve. No que eu absolutamente concordo com Veríssimo.

Carlota