quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Será?

Quem escreve tem uma cobra venenosa dentro de si, diz lindamente Cícero Belmar (pela boca de uma mulher cheia de rancor, personagem de um dos contos) em sua nova obra Aqueles livros não me iludem mais, que ainda não li, mas que me provocou uma imensa vontade desde. Porque ele trata justamente do papel da literatura na vida das pessoas, não como uma coisa boa, mas como algo que atormenta os personagens de seus contos. Li a entrevista no Caderno C do Jornal do Commercio e como me deu vontade de sentar com o escritor e jornalista para uma conversa sobre como foi que ele chegou a essa conclusão tão reveladora.

Porque os livros podem sim, salvar uma pessoa. Podem tirá-la do tédio, da ignorância, da mesmice, do que a gente nem sabe. Mas que algumas vezes a gente para e reflete se ter lido tanto, ter conhecido Edgar Allan Poe, Simone de Beauvoir, Anaïs Nin, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Luis Fernando Veríssimo, só pra citar alguns, permitiu que a gente fosse mais feliz além do espaço de tempo dedicado a essas leituras.

Estava em uma livraria, pensava em uma decepção e não contive o impulso de comprar, vai ver porque estava triste. E lá vou eu carregando para casa um volume de contos de 600 páginas de um autor do qual eu nunca tinha ouvido falar. Antes de levá-lo, junto com outro sobre manias, um de Woody Allen (com o simpático título de Que Loucura) e mais outro sobre a prática da escrita, li um trecho apenas de um dos contos. E ele me fisgou. Porque o personagem estava praticamente na mesma situação que eu, procurando sentidos. E travava um diálogo quase ininteligível com o coadjuvante daquela cena. Pois é. Não me arrependi do impulso. E as explicações para o sentido das coisas deixei de procurar, pelo menos naquela semana.

Passado um tempo me deparo com a entrevista de Belmar, cuja obra lança hoje, na livraria Potylivros, a partir das 19h. Diga-me, meu querido, porque não poderei ir, o que a gente faz com essa cobra? Porque ela morde e não assopra. Ela invade e não respeita. Ela se torna um pedaço impregnado de sangue a respingar veneno. E como por vezes odeio a escrita.

Porque nela consigo ser mais desenvolta, delicada, explícita. Porque me apaixono por textos inteiros. Porque morro de inveja das crônicas de Xico Sá, sem volteios e mesmo assim tão repletas de poesia quando tratam de paixão, seja por mulheres ou por uma cidade inteira. E odiei Rubem Fonseca após Pequenas Criaturas. Quase matei Chico Buarque por Budapeste. E como agora sinto desejo por Aqueles livros não me iludem mais.

Ele, então. O grande burilador da alma. O desejo. Será?

Carlota
190112

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O garoto da bicicleta

Li as críticas sobre o filme em revistas e jornais. Fiquei com vontade e, em um sábado solitário, vou para um cine de arte na cidade. Encontro uma amiga, ela compra meu ingresso, entramos juntas naquela sala. Primeiro espanto é saber que alguém simplesmente não desgruda de um celular mesmo estando num cinema tão específico, com filmes fora do circuito comercial. O cara atende na maior tranqüilidade e, ao invés de dizer que não pode falar (porque tem gente que ao invés de não atender diz isso), começa a conversar. E aí que a gente fica meio constrangido e meio irritado, esperando o diálogo terminar. Foi curto e chato. O diálogo.

As cenas de abertura mostram um menino loiro ao telefone. Mostram de novo ele sem acreditar que o número discado não atende mais. O enredo do filme trata desse menino abandonado pelo pai e sobre uma mulher que surge em seu caminho. A dor do abandono, afeto, escuridão. Daí que a primeira metade para mim foi mais intensa. E a cena na qual o menino encontra a realidade junto com seu pai e, no processo, começa a se flagelar, foi dolorosa. Porque a cena faz a gente lembrar de dores que nós próprios já sentimos.

Como quando ela é tão insuportável que nos dilacera. Como quando o grito sai mudo para não acordar os vizinhos. Como quando a gente vê que não tem volta. Alguém que se foi. Alguém que não virá. Um dia perdido, nublado, esquecido. Uma perda. E quando saí de lá fiquei imaginando Almodóvar, não me peçam explicações sobre isso. O filme não tem nada a ver com ele. Tinha a ver com a necessidade de ver algo mais forte, mais denso, visceral. Porque, confesso, eu gosto de Almodóvar.

Ele constrói personagens vivos. Que tem conflitos, que tem sexo, contradições. Porque ele me surpreende com suas narrativas, me incomoda, me deixa aflita. Porque também já me deixou amena. De Ata-me à Tudo sobre sua mãe, Má Educação, entre tantos outros, completamente fisgada já pelos títulos, não vi A pele que habito. Estou preparando uma noite para assisti-lo. E para ser assaltada pelo inesperado de uma história que, peço, não me contem.

Carlota
180112

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A vida não tem o menor sentido

Conversa com ex-caso dá nisso. Resolvemos ser amigos naquele café e em meio ao cotidiano apresentado a cada um, à divisão de novidades, leitura de textos, comentários sobre vestidos e blusas e um de leve segurar as mãos; no meio daquela comida que dele foi muito melhor (e em raríssimas vezes eu erro o que pedir no cardápio), aquele cara de signo chinês igual ao meu tenta me convencer que a vida não tem o menor sentido. Não tem, viva um dia de cada vez, pra que procurar explicação?

E hoje, que andava envolta em musas e motes, tive a frase entranhada no que seria uma tarde entre a cozinha e os layouts no computador. E o que martelou a cabeça, veio me pegar assim de madrugada. Porque acho que começo a concordar, o que é isso, como é que é?

Quer dizer que não foi o destino que me fez ir àquele aniversário, provar ainda na mesa uma sandália altíssima e desistir de vez e ficar com a rasteirinha, mais adequada à simplicidade de um forró? E que nessa de estar cansada e alegre e festejando a vida da amiga, fico dançando soltinha e pousa uma mão em minha cintura?

E eu, que nem estava pensando em nada, me viro pra começar a dançar com você? E que um dia antes eu tinha ficado arrasada com um cara de signo chinês igual ao meu? Rá! Foi destino não. Mas foi ótimo, tanto mais porque de rasteirinha a gente ficou exatamente do mesmo tamanho.

E nesse cruzar de caminho da gente, a gente foi se vendo e foram o que, três, quatro, cinco anos? Nem sei. Porque todo encontro é quase vontade de começar de novo e se a gente não começa é porque já sabe onde vai terminar. A vida não faz sentido mesmo.

Não faz nenhum sentido. Porque não dá pra explicar o que acontece quando duas pessoas se encontram e, absolutamente, não conseguem se aproximar. Pode ter amizade, respeito, tesão, alegria, ironia. Mas não vai, emperra, eita filminho repetido esse. Não tem sentido. Absolutamente como ter sido feliz com o ex-marido, como tê-lo conhecido muito antes, ter voltado a conhecer, ter permanecido junto e depois ter ido.

Mulher é que cria romances, histórias, crônicas, declarações (sim, Marisa Monte já disse isso. Ou quase). Mulher é que sai procurando um sentido para aquela pessoa, naquele momento específico, ter cruzado o caminho, ter aberto a porta, ter olhado com olhos quentes, ter se aproximado dela. Por que foi que eu tropecei e esbarrei logo nessa criatura? Por que, entre tantos mortais, eu encontro você logo no show do cara que eu mais detesto (e você também), só porque estava acompanhando uma amiga e ela meio que me deixou por aqui? E seus amigos resolveram também se perder?

E se a solidão chega, se o caso acaba, se a dor recomeça, se a tristeza se instala, lá vai a mulher pensar que o cara era o homem da sua vida, que ela era a mulher da vida dele e que o destino, esse indefinível e cruel arrebentador da vida alheia, é que cuida para que nessa encarnação nada dê certo, a incomunicação se instale, a cumplicidade não aconteça. Algum motivo há. É o destino, rarará.

Não por acaso escolhi você entre aqueles que pousaram a mão em minha cintura naquela noite. A sua era a mais quentinha. Nada a ver com destino. Coincidência ou não, você sabia dançar.

Carlota
170112

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Anfitriã (de como receber pressupõe uma predisposição da alma em sê-la)

Que não pensem os amigos que os recebo com falsidade. Entrar pelas portas da minha casa implica em ser neste momento muito querido. O coração faz festa mesmo que ela não seja. Ou seja apenas um café.

É preciso, quando se recebe, abrir bem as janelas, aspergir perfumes pela casa, ungir com óleos os pés dos convidados. É preciso aquecê-los, se faz frio, e refrescá-los, se o calor por vezes é insuportável.

Quando há na alma um bem querer expansível nesse receber, a tarde, a noite, a madrugada, viram uma coisa só. Um lapso de tempo onde ele próprio não existe.

Quando os recebo, caros amigos, é porque quis vocês com tudo o que eu tenho em mim. É porque minha alegria prevalece. É porque sou música. E ela me deixa leve. E faz ser possível arrastá-los nessa onda benfazeja de quem bate o bolo, prepara a calda, põe a mesa e faz café. Capaz de produzir entre cantos, risadas, abraços, deliciosas lolitas que derretem na boca e quase nos queimam a língua, porque a gula impele a todos a comê-las tão logo saem do forno.

Então, se recuso um convite ao recebimento, é porque hoje, infelizmente, não poderia acolhê-los. Com certeza não ofereceria nem um copo d´água, que dirá um abraço amigo. Haveria fumaça em meus olhos, as janelas teriam cerradas as suas cortinas e o sofá, a mesa, as cadeiras, não seriam os móveis que são. Antes desenhos pintados sem nenhuma utilidade.

Se tive meu coração fechado, não queria que o vissem. Precisava de uma trégua que começa apenas quando me retiro em parte do mundo. Apenas escuto e respondo e acolho as infantis vozes e apenas dos meus filhos. Suavemente, eles me tomam pelas mãos e me levam para caminhar na praia. Uma pena só ter tido dois deles hoje comigo. Queria me sentir envolvida pelos três.

E, ouvindo as conversas entre eles, me sentir amada. E, ouvindo as conversas entre eles, resvalar devagarinho pelo meu próprio caminho em uma conversinha mansa comigo mesma.

Se não os recebo ou se digo, claramente - hoje não – peço perdão. Eu nada poderia dar. Nem receber.
Carlota
150112

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Jano

Bem que você podia estar comigo nessa noite escura. Bem que essa noite podia clarear. E virar mar. E meus cabelos, que penso em cortar, se entrelaçam nos meus dedos, enquanto alterno a música que escuto com o que eu imagino. Resolvi escrever. Porque é essa ânsia de viver não sei o quê que vai criando uma angústia ou será apatia ou será qualquer coisa tipo saudade tipo uma vontade de não estar aqui e estar em qualquer lugar e não ser ou ser para você? Vai saber.

Dezembro filho da puta que me traz melancolia, dezembro filho da puta que me incomoda a ponto de quase me encher de tristeza e se ela não me invade assim com tanta força é porque tem gente ao meu redor. E eu leio almas e ninguém enxerga a minha. E eu me desdobro e enrolo mil fitas e não encontro prata, brilho, fome. Dezembro filho da puta que só me serve porque antecede janeiro, que eu recebo como o deus de duas faces, mas essa aí que olha pra trás eu esqueço, quero o novo, o recente, o que ainda não vi.

Que aninho foda, que aninho triste, que aninho insuportável. Já vai tarde, ano velho, feliz ano novo, que eu quero todo meu. De projetos sonhados, de verdade, de paixão, de felicidade. Porque corri e fui e perdi. Porque não houve apesar de ter havido, não tive apesar de ter buscado, putaquepariu, quanto lamento, lamento, lamento.

Tá, estou aqui olhando minhas dores, fazendo a porra de um balanço desnecessário, minto, odeio balanços, não reflito, não pondero, eu vivo. E nessa de estar perdida na noite escura do meu tempo, só me sinto só. Apenas. E como se não bastasse, me sinto só de novo e de novo e de novo. A noite é linda e eu estou dizendo pra mim mesma que eu quero que tudo acabe pra começar de novo. E eu fumo um malboro, bebo a terceira dose de uísque e me pergunto por que essa ausência que hoje é falta, por que impossibilidades, por que surpreendentemente não estou triste?

Por que tanta inquietação se na aparência sou uma pessoa apaziguada pela felicidade de ser tão bem sucedida ah quanto engano quanta vontade de dançar e dar uma sonora gargalhada e lhe surpreender. Ah, amanhã eu preciso correr. Vou à praia, de ressaca, três doses com gelo e muita água, mas me rendo, sou da noite e dela me alimento quando estou sozinha e minha cama tem mais de 20 vestidos que eu resolvi contar. E coloquei o guarda-roupa abaixo, sai pra lá, que eu não quero nenhuma memória afetiva em uma roupa que eu não vou usar.

E ainda é noite, bem que o sol podia agilizar, minha empregada chegar e eu, simplesmente, colocar o biquíni e ir à praia. Feliz, decidida a perder um quilo em uma semana como se meu peso todo fosse esse e como se eu não me sentisse leve e completamente solta do que eu sou ou aparento ser. De boa, a vontade é de não me encaixar em nenhuma expectativa, por favor não espera nada de mim eu só quero ir embora e só quero estar aqui e só preciso disso, desse conflito, dessa invasão que me diz que estou viva porque se houvesse paz o tempo todo, calmaria eu iria definhar porque não quero viver sem essa voragem, essa inquietude e no fim agradeço pela noite escura, agradeço o dia que vai clarear daqui a pouco, agradeço a você que me fez escrever e fazia tempos que eu não escrevia nada e era tão ruim e que vontade de um beijo seu, adeus.

Carlota
261211

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tempo

Uma das coisas que nos ensinam na infância é que há tempo para tudo: para estudar, para brincar, para dormir, para acordar, para entrar de férias, para voltar às aulas. Tempo de namorar quando entramos na adolescência, de se apaixonar, tempo de escolher a profissão a seguir. Tempo de parar de procurar um amor porque ele chegou e a gente encontrou nossa metade da laranja.

Está certo que existem variantes. Cada um com sua história, essa pode ter sido a minha. Ou o que minha família me dizia. Sei que descobri que o tempo passa, não necessariamente os tempos. Pelo contrário, eles se alternam, a vida não é linear ou algo tão simples assim. Sinto não ter mais tempo (e dinheiro) para aprender tudo o que eu quero: espanhol, inglês, ilustração, flamenco, corte e costura. Sinto ter tão pouco tempo para me dedicar aos meus filhos (a vida me exigiu ser a provedora), aos meus amigos, às descobertas de novos afetos.

Nesse meio tempo, vou me sentindo irritada com quem pensa ter todo o tempo do mundo. E peço desculpas se a carapuça lhe serviu. A gente não tem tempo. A gente tem uns dias aí que se transformam em meses e depois em anos e de repente a gente vê uma senhora no espelho. Ou recebe a notícia de que alguém muito querido se foi. E, nessa agonia cotidiana de sobreviver, a gente tinha até deixado de conversar. Deixado de conviver, apesar de ter sido acolhida com tanta gentileza em um período de transição para casa e vida nova.

Não sei se me inquieta o fato de achar que às vezes perdemos tempo com histórias que foram mal resolvidas, com amores que ficaram latentes, com certezas nem sempre tão certas assim, com a grosseria que encontramos quase que diariamente, inclusive em nós. Não sei se consigo superar todas as mágoas e ir adiante em todas as vezes. Mas eu tenho tentado, já há algum tempo. Talvez pela morte ter sido uma figura próxima de mim desde criança. Perdi avô, pai, mãe, tio, avó (essa no seu tempo, mas continua me fazendo falta). E aí que as palavras que eu não disse, a convivência que me foi tomada, a cumplicidade que deixou de existir, criaram seus próprios espaços dentro de mim.

Também eu passei pela experiência de quase ter morrido. E sei que meus amigos estavam no hospital rezando por mim, na minha casa com meus filhos rezando por mim, imaginando o que seria deles e de meu então marido sem minha presença. Mas fiquei. E me cobro o tempo primordial de ser feliz. Quero ter sempre meus tempos de aprender, conviver, amar, me apaixonar, me equilibrar, me desequilibrar, continuar, viver. Porque pode haver tempo para tudo. Mas quando ele acaba, não há volta. Eu não estarei aqui.

Com amor, para Fábio e Botelho.
Carlota
05122011

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Vestida

Meu amor pelos vestidos me fez divulgar o desejo de recebê-los como presentes de aniversário. Sim, está pertinho, 29 agora para quem ainda não gravou, aprendeu ou sabe. Dia 29 Carlota faz 42 anos, com muito prazer. Pelo fato de estar aqui, na convivência com as pessoas que escolhi ter ao meu redor.

Sim, volto aos vestidos. São lindos sempre. Soltos ou justinhos, compridos ou curtos, de alcinhas, floridos, vermelhos, intensos, ingênuos. Vestidos. É tão feminino, é tão brincadeira, é tão criar personagens quando se quer... Vestida para matar, para o cinema, a caminhada na praia, o dia de sol, um breve passeio, uma voltinha ali onde não vou contar.

No entanto, em um momento desses, um desejo mais premente surgiu. Desejo de leveza. De um fio de alegria enrodilhado no meu calcanhar, puxando como um balão de gás hélio em uma caminhada um pouco mais dançante, quase desequilíbrio, pequeno flutuar acima das coisas.

Sim. Quero uma saia vaporosa. Um dia de sol. Leveza de ver sorrisos, sentir abraços, soltar amarras. Estou me garantindo no fato de que o inferno astral este ano foi em julho (apesar de alguns incômodos em agosto) e se limitou a aquele mês para pedir a vocês: leveza. Pode ser a espuminha do leite com café expresso, um algodão doce, mas pode ser também um jeito de olhar a vida, né? Preciso de leveza de presente! De uma sonora e sincera gargalhada, de um brinde! Um chocolate aerado, um pensamento arejado, uma vontade de alçar a alma ao infinito e curtir a dança, a festa, a pausa a fazer para um estado de contentamento. Sim, em espanhol: estoy contenta! Mais que uma simples alegria, é quase um arrebatamento.

Então, dia 29, eu quero algo melhor do que um vestido. Eu quero que você dê uma pausa, sinta-se contente e divida isso aí. Dá um sorriso, agradece, faz uma prece, sei lá. É primavera, como diria Tim Maia. E tem essa brisa no ar...


Carlota
14.09.11