Li as críticas sobre o filme em revistas e jornais. Fiquei com vontade e, em um sábado solitário, vou para um cine de arte na cidade. Encontro uma amiga, ela compra meu ingresso, entramos juntas naquela sala. Primeiro espanto é saber que alguém simplesmente não desgruda de um celular mesmo estando num cinema tão específico, com filmes fora do circuito comercial. O cara atende na maior tranqüilidade e, ao invés de dizer que não pode falar (porque tem gente que ao invés de não atender diz isso), começa a conversar. E aí que a gente fica meio constrangido e meio irritado, esperando o diálogo terminar. Foi curto e chato. O diálogo.
As cenas de abertura mostram um menino loiro ao telefone. Mostram de novo ele sem acreditar que o número discado não atende mais. O enredo do filme trata desse menino abandonado pelo pai e sobre uma mulher que surge em seu caminho. A dor do abandono, afeto, escuridão. Daí que a primeira metade para mim foi mais intensa. E a cena na qual o menino encontra a realidade junto com seu pai e, no processo, começa a se flagelar, foi dolorosa. Porque a cena faz a gente lembrar de dores que nós próprios já sentimos.
Como quando ela é tão insuportável que nos dilacera. Como quando o grito sai mudo para não acordar os vizinhos. Como quando a gente vê que não tem volta. Alguém que se foi. Alguém que não virá. Um dia perdido, nublado, esquecido. Uma perda. E quando saí de lá fiquei imaginando Almodóvar, não me peçam explicações sobre isso. O filme não tem nada a ver com ele. Tinha a ver com a necessidade de ver algo mais forte, mais denso, visceral. Porque, confesso, eu gosto de Almodóvar.
Ele constrói personagens vivos. Que tem conflitos, que tem sexo, contradições. Porque ele me surpreende com suas narrativas, me incomoda, me deixa aflita. Porque também já me deixou amena. De Ata-me à Tudo sobre sua mãe, Má Educação, entre tantos outros, completamente fisgada já pelos títulos, não vi A pele que habito. Estou preparando uma noite para assisti-lo. E para ser assaltada pelo inesperado de uma história que, peço, não me contem.
Carlota
180112
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