Prometi a uma mulher de olhos verdes que ela ganharia uma tatuagem de aniversário, pelos seus anos iguais aos meus. Estou praticamente enfrentando a dor e investindo em uma também. Mas ela, que não tem coragem de deletar meus emails, merece mais do que uma tatuagem. Porque a vida é árida por vezes e é preciso falar de amor, de afeto, de amizade.
Dona Ana Maria é uma baixinha invocada. Mas que entende meus rompantes, tanto os que me deixam no brilho quanto os que me provocam ataques de fúria. Sabe um pouco de mim, porque a amizade começou antes de nos tornarmos sócias. Não nego, me apaixonei primeiro por seu filho, encantador e gentil, capaz de escolher opções para jantarmos em conjunto, driblando minha alergia a frutos do mar.
Gosta tanto de música, essa menina. De tantas que eu também curto. De se sentir livre, por isso ser tão rápida no volante. Até ouvir minha medrosa ameaça, faz isso não, que eu tenho medo. E ela, gentilmente, reduz um pouco a velocidade, contendo essa fome de vida que eu também trago comigo, mas que vou transformando em textos, dança e caminhadas.
Acho que aniversários devem ser feitos para comemorar. Pra festejar com alegria, por mais idade que a gente vá acumulando, por mais cabelos brancos que surjam (e que são implacavelmente pintados de castanho), por mais que a vida nos ofereça embates doídos demais. Vibrar com pequenas coisas, com as conquistas, com a beleza de um dia que amanheceu bonito, a lua que nos faz querer namorar, um telefonema que traduz praticamente o quanto somos queridas, por tão inesperado ou aguardado. Isso é viver. Sabendo sonhar, esperar, colher as sementes que plantamos todos os dias.
Para não ficar parecendo texto de auto-ajuda, vou dizer outras coisas. Dizer que estou por perto quando precisar. Que minha casa também é sua, aceito dividir até o caçula, que você ainda não conseguiu conquistar (porque ele é quase inteiramente meu). Dizer que sempre vou estar por perto para arrumar vitrines e confusão. Para beber em uma sexta-feira ou acordar cedinho em um domingo. Para curtir a praia, seus amigos, dançar.
Aninha, você é especial por vários motivos. Mas o primeiro deles, para mim, é a proximidade sem frescura de quem está por perto e conhece meus defeitos. E me aceita. Porque é capaz de se encantar com coisinhas bestas que falo ou escrevo. Porque tem no sangue a vibe de uma mulher que sabe que é isso, mulher, toda cheia de conflitos e felicidade, toda alegria e tristeza, toda beleza, vaidade, querer.
Para minha Ana Maria, vale sempre dizer: você é uma pessoa querida. E que sabe estar no lugar certo quando a gente precisa. Mesmo que dormindo ou com cara de cansaço, ou dizendo, tem que fazer, tem que ter isso ou aquilo, fulano merece, tão preocupada com todo mundo. Pudesse eu hoje, abriria uma casa de festas pra gente ser criança de novo. Pra brincar de cama elástica, pula-pula, comer pipoca e brigadeiro, tomar uísque e guaraná (sem mistura, para não estragar).
Lembre: estou aqui. Ao seu lado. Como uma tatoo. Enquanto a vida me mantiver em Recife, enquanto a inquietude não me levar a outras paragens. Beijo, minha querida, feliz aniversário.
Carlota
03072010.
sábado, 3 de julho de 2010
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Amigas
Marina, fuçando comigo meu blog (apresentei-o a ela, explicando que a gente publica textos, fotos etc - ninoca está querendo um agora), viu minhas tags. A de amigas. E aí que ela criou uma frase para a amizade:
"Amigas são para o sempre, não para o nunca". Marina Teixeira, 10 anos neste 30 de junho de 2010.
"Amigas são para o sempre, não para o nunca". Marina Teixeira, 10 anos neste 30 de junho de 2010.
domingo, 27 de junho de 2010
Fábula da gentileza
Sofria. Não de indecisão, medo, insônia. Era daquela ânsia de ser gentil, até mesmo quando sibililava as palavras entre os dentes, sentindo-as uma a uma sobre a língua, como fossem se misturar e formar outras frases. Estas, as frases, não seriam suas, mas de um outro, revelado ríspido.
Educado em bons colégios, a gentileza não fora fruto desses aprendizados. Parecia intríseca a sua personalidade, que conquistava seguidores, aliados, companheiros em um ambiente para muitos doloroso. Professores, amigos, mulheres, funcionários das escolas e até mesmo o jardineiro mal humorado que praticamente afogava as plantas quando não havia ninguém olhando, até com ele haveria de ser gentil, menino de olhos claros e tez suave.
Crescendo, desenvolvera ainda mais o seu dom, tornando-se irresistível. Havia, certamente, algo escondido. Um ponto ameaçando a paz de sua sincera gentileza. É preciso dizê-lo, não era falso nem ardiloso. Por vezes o ponto escuro doía, pelo desconhecimento que tinha dele. Como se fosse um apêndice e não algo necessário, como a chuva, a morte, um beijo.
Não resistiu por muito tempo ao chamado da escuridão. Formou as frases inversas e soltou-as não por entre os dentes, mas aos gritos. Passou por louco, apaixonado, por devasso, incoerente. Causou espanto e, no fundo, alívio entre os que lhe conheciam.
A mulher que vivera observando-o de longe sorriu. Finalmente, após tantos anos, seria cúmplice. Toda aquela gentileza lhe parecera um vício. No qual ela também estivera presa por tempo demais. O olhar entre os dois era agora de reconhecimento. Dois seres irmãos nos olhos gentis e gestos impossíveis.
Carlota
25062010
Educado em bons colégios, a gentileza não fora fruto desses aprendizados. Parecia intríseca a sua personalidade, que conquistava seguidores, aliados, companheiros em um ambiente para muitos doloroso. Professores, amigos, mulheres, funcionários das escolas e até mesmo o jardineiro mal humorado que praticamente afogava as plantas quando não havia ninguém olhando, até com ele haveria de ser gentil, menino de olhos claros e tez suave.
Crescendo, desenvolvera ainda mais o seu dom, tornando-se irresistível. Havia, certamente, algo escondido. Um ponto ameaçando a paz de sua sincera gentileza. É preciso dizê-lo, não era falso nem ardiloso. Por vezes o ponto escuro doía, pelo desconhecimento que tinha dele. Como se fosse um apêndice e não algo necessário, como a chuva, a morte, um beijo.
Não resistiu por muito tempo ao chamado da escuridão. Formou as frases inversas e soltou-as não por entre os dentes, mas aos gritos. Passou por louco, apaixonado, por devasso, incoerente. Causou espanto e, no fundo, alívio entre os que lhe conheciam.
A mulher que vivera observando-o de longe sorriu. Finalmente, após tantos anos, seria cúmplice. Toda aquela gentileza lhe parecera um vício. No qual ela também estivera presa por tempo demais. O olhar entre os dois era agora de reconhecimento. Dois seres irmãos nos olhos gentis e gestos impossíveis.
Carlota
25062010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Guerreira, não. Só mulher.
Engraçado duas mulheres terem dito isso de mim. Que eu sou uma guerreira. Como se fosse uma luta a vida que eu levo. Não é. É cheia de afeto. Acho que a vontade de correr para um lado e outro, de enfrentar a rotina sem medo, de criar meus filhos de peito aberto, porque eles sabem que também sofro e tenho dúvidas, não é luta. É apenas a vida que escolhi viver.
As escolhas poderiam ter sido outras. Em algumas ocasiões foram. Por vezes me dá vontade de apenas sair por aí, sem compromisso, sem pressão, sem destino. Me dá alegria saber que em alguns momentos poderei fazer isso. Porque minha mente viaja, porque tenho esperança ou porque eu sonho.
Não há guerra. Há conflitos. Não há luta. Há meus dias. Há coisas ruins, sem dúvida. Solidão seria uma, se eu não tivesse por perto amigos tão queridos. Todos. Os abusados, os calados, os em dúvida. Os atrevidos, os inquietos. Sim. Talvez seja isso. Inquietude.
Isso eu sinto e sei que sou. Parece que algo sempre está prestes a acontecer. Parece que posso perder o bonde, o trem, o avião. Parece que, se eu deixar, o tempo vai passar por mim e eu não estarei com a janela aberta.
Guerreira pra mim é a cobradora do ônibus, a catadora de papel, a mulher de sandália rasteira que vai buscar o bolsa-família carregando os filhos, a mãe de uma criança doente, a minha empregada. Ela sim, e mesmo assim dona de um sorriso tão bonito e de um olhar generoso para com meus filhos.
Não me considerem, nem hoje nem amanhã, uma guerreira. Seria valorizar demais a rotina de uma mulher que sustenta casa, família, trabalha, e encontra tempo para amar, divertir-se, encontrar amigos onde eles estão. Não há guerra. Meus fantasmas se afastaram há muito. Continuo a viver. Estou impregnada de vontades e paisagens escondidas. E com a alma plena.
Carlota
16062010.
As escolhas poderiam ter sido outras. Em algumas ocasiões foram. Por vezes me dá vontade de apenas sair por aí, sem compromisso, sem pressão, sem destino. Me dá alegria saber que em alguns momentos poderei fazer isso. Porque minha mente viaja, porque tenho esperança ou porque eu sonho.
Não há guerra. Há conflitos. Não há luta. Há meus dias. Há coisas ruins, sem dúvida. Solidão seria uma, se eu não tivesse por perto amigos tão queridos. Todos. Os abusados, os calados, os em dúvida. Os atrevidos, os inquietos. Sim. Talvez seja isso. Inquietude.
Isso eu sinto e sei que sou. Parece que algo sempre está prestes a acontecer. Parece que posso perder o bonde, o trem, o avião. Parece que, se eu deixar, o tempo vai passar por mim e eu não estarei com a janela aberta.
Guerreira pra mim é a cobradora do ônibus, a catadora de papel, a mulher de sandália rasteira que vai buscar o bolsa-família carregando os filhos, a mãe de uma criança doente, a minha empregada. Ela sim, e mesmo assim dona de um sorriso tão bonito e de um olhar generoso para com meus filhos.
Não me considerem, nem hoje nem amanhã, uma guerreira. Seria valorizar demais a rotina de uma mulher que sustenta casa, família, trabalha, e encontra tempo para amar, divertir-se, encontrar amigos onde eles estão. Não há guerra. Meus fantasmas se afastaram há muito. Continuo a viver. Estou impregnada de vontades e paisagens escondidas. E com a alma plena.
Carlota
16062010.
domingo, 13 de junho de 2010
Chuva
Chuva num dia de Santo Antônio pós dia dos namorados em que eu tive de ir a uma festa infantil (e graças a Deus uma mãe teve pena de mim e me chamou pra conversar) é dose. Só queria dormir, curtir meu edredon, comer bolo do aniversário da comadre, que a ressaca foi dureza. Desde quinta a gente comemora - cada uma aos trancos e barrancos - pois o mês de junho está sendo pauleira de tanto trabalho.
Tenho andado aérea. Mas o forró estava ótimo. Aliás, ter saído na quinta, organizado uma festa, produzido cartões para outros namorados, dançado dois dias seguidos contribuiu para manter a mente longe do que eu não quero nem pensar. Porque mulher é um bicho que gosta de complicar. E de ficar nessas de refletir.
Parei para me perguntar o porquê das coisas. Adianta não. Não tenho nenhuma resposta convincente. Só sei que está chovendo né? E quem sai nesse tempo ou se molha e pega um resfriado, ou curte o frio e esses beijos gelados que chegam com o vento.
Apois, tenho o que dizer mais não. Só que seria bom alguém conversar bem muito comigo para me distrair. Tipo assim, horas a fio. Até eu dormir.
Carlota
130610
Tenho andado aérea. Mas o forró estava ótimo. Aliás, ter saído na quinta, organizado uma festa, produzido cartões para outros namorados, dançado dois dias seguidos contribuiu para manter a mente longe do que eu não quero nem pensar. Porque mulher é um bicho que gosta de complicar. E de ficar nessas de refletir.
Parei para me perguntar o porquê das coisas. Adianta não. Não tenho nenhuma resposta convincente. Só sei que está chovendo né? E quem sai nesse tempo ou se molha e pega um resfriado, ou curte o frio e esses beijos gelados que chegam com o vento.
Apois, tenho o que dizer mais não. Só que seria bom alguém conversar bem muito comigo para me distrair. Tipo assim, horas a fio. Até eu dormir.
Carlota
130610
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