De repente eu ouvi você dizer que me amava. E de nada valia aquilo, porque não havia mais nada. Mas de repente eu ouvi você dizer que me amava. E todo o desejo de ouvir enquanto vivemos juntos e não ouvi e agora, o que é que eu faço, não, não vale mais. E eu ouvi, de repente, você dizer que me amava. E me deu uma vertigem, sei lá, uma coisa ruim, peito apertado, pra que isso, eu não ouvi. E de repente você estava sentado ao meu lado e dizia me amar e eu olhava sua boca e parecia uma dublagem mal feita, o som não batia com o movimento dos lábios e eu me descobri tentando fugir.
E de repente todo o amor que eu senti foi pro espaço, foi à merda, foi embora dali. Porque de nada me adiantava agora você dizer que me amava. Meu olho já fechava, minhas mãos e eu não corria em direção a você. Mas de repente me deu uma alegria, era seu jeito, menino, que jeito é esse de dizer que me ama assim, descaradamente, sem pudor de me deixar sem jeito e feliz?
E foi batendo uma vontade de lhe beijar com toda fome, de lhe tocar com meu desejo, de mostrar que ainda havia tempo. Havia? E isso, pra mim, era um tormento. Por que abrir a porta, entregar minhas chaves, meu jeito de precisar de você, se só hoje ouvi você, de repente, dizer que me amava? E eu digo, porra, eu amo você e não amo mais. Eu amo você quando me derreti nos seus braços, eu amo você quando vi seu olho brilhando pra mim em uma noite clara, eu amo você quando suas mãos deslizam e me dizem de um desejo que é anterior a esse amor que, de repente, você me disse ter.
E hoje eu quero só um passo, escuro, em falso, e nós dois.
Carlota
31072011
domingo, 31 de julho de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
O desejo
Ele cala fundo na alma e no corpo. Não a voragem que me incendeia ou que me destrói as esperanças de ser tranqüila. O desejo que cala fundo em minha alma é justamente esse, o de me sentir apaziguada. Mas o corpo me cobra movimento, articulação, inquietude. O corpo me exige ser. E ser toda, totalmente entregue e viva.
Desejo de amar você. Desejo de ser amada tão intensamente, tão apaixonadamente, tão ler junto e querer e descansar a cabeça nos seus ombros e beijar de mansinho e confiar e deixar o medo para depois, para um dia em que eu me encontrar com algo que eu não reconheça. Não agora, quando posso tudo nos seus braços.
Tão racionalmente eu pergunto porque preciso de algo externo a mim que me traga alegria? Ou a plenitude e a cumplicidade? Mas também reagimos ao outro, também vivemos porque outros nos vivem e pensam e vêem. Também nós vemos, queremos, buscamos. E o outro se revela presente. Assim como nós estamos, ele também está.
Se desejo tanta tranqüilidade por que meu peito arde? Por que me sinto furacão? Por que o céu está vermelho, tingido de morte e dor? Por que o céu surgiu rubro, carregado da vida inteira que trago e que me faz intensa assim, feliz assim, plena assim? Por que a necessidade de sentir com tanta força? Para provar a minha? Para dizer que posso? Para mostrar que sou?
Porque meu caminho no mundo poderia ser de suaves passos. Mas sempre os tenho firmes, sempre são ligeiros, sempre fujo para o calçadão quando preciso de mim. Quando me encontro, quando me revelo, quando quero. Porque no sagrado instante em que sou só no mundo, ele pode ser todo meu. Porque no exato minuto em que me entrego à minha alma, ela se espalha por toda a minha pele e me leva para qualquer lugar.
Ah, esse desejo de ser apaziguada no que eu tenho de mais forte. De encontrar alguém que vença a resistência de muros tão frágeis. Dessa parede de nãos que eu mesma construí. A negação da própria força, da minha leveza, da minha sabedoria, do meu perdão. Negar meu desejo de ser o que eu sou. Não menina, delicada, incapaz. Inquieta, sedenta, em busca.
E se eu pudesse me tornar incandescente? Por que, pergunto, não ser feita do que já sou e continuar a me refugiar em histórias tão antigas, medos, incompletude? Por que meu desejo de ser amada como se o amor só fosse possível entre seres iguais nos gestos e não na compreensão do que temos de incomum?
O desejo de encontro. De minha tranqüilidade e da minha paixão. Minha alegria e minha leveza. Meus dias de caminhar a passos largos, como se o mundo fosse meu. E é. O mundo que construí e que vai se erguendo a cada dia. E não importam furacões, voragens, céus vermelhos. Trago mares de águas mornas e calmas, velas esfumadas, viagens. Trago olhos de enxergar beleza e um caminho inteiro. Trago desejo.
Carlota
21062011
Desejo de amar você. Desejo de ser amada tão intensamente, tão apaixonadamente, tão ler junto e querer e descansar a cabeça nos seus ombros e beijar de mansinho e confiar e deixar o medo para depois, para um dia em que eu me encontrar com algo que eu não reconheça. Não agora, quando posso tudo nos seus braços.
Tão racionalmente eu pergunto porque preciso de algo externo a mim que me traga alegria? Ou a plenitude e a cumplicidade? Mas também reagimos ao outro, também vivemos porque outros nos vivem e pensam e vêem. Também nós vemos, queremos, buscamos. E o outro se revela presente. Assim como nós estamos, ele também está.
Se desejo tanta tranqüilidade por que meu peito arde? Por que me sinto furacão? Por que o céu está vermelho, tingido de morte e dor? Por que o céu surgiu rubro, carregado da vida inteira que trago e que me faz intensa assim, feliz assim, plena assim? Por que a necessidade de sentir com tanta força? Para provar a minha? Para dizer que posso? Para mostrar que sou?
Porque meu caminho no mundo poderia ser de suaves passos. Mas sempre os tenho firmes, sempre são ligeiros, sempre fujo para o calçadão quando preciso de mim. Quando me encontro, quando me revelo, quando quero. Porque no sagrado instante em que sou só no mundo, ele pode ser todo meu. Porque no exato minuto em que me entrego à minha alma, ela se espalha por toda a minha pele e me leva para qualquer lugar.
Ah, esse desejo de ser apaziguada no que eu tenho de mais forte. De encontrar alguém que vença a resistência de muros tão frágeis. Dessa parede de nãos que eu mesma construí. A negação da própria força, da minha leveza, da minha sabedoria, do meu perdão. Negar meu desejo de ser o que eu sou. Não menina, delicada, incapaz. Inquieta, sedenta, em busca.
E se eu pudesse me tornar incandescente? Por que, pergunto, não ser feita do que já sou e continuar a me refugiar em histórias tão antigas, medos, incompletude? Por que meu desejo de ser amada como se o amor só fosse possível entre seres iguais nos gestos e não na compreensão do que temos de incomum?
O desejo de encontro. De minha tranqüilidade e da minha paixão. Minha alegria e minha leveza. Meus dias de caminhar a passos largos, como se o mundo fosse meu. E é. O mundo que construí e que vai se erguendo a cada dia. E não importam furacões, voragens, céus vermelhos. Trago mares de águas mornas e calmas, velas esfumadas, viagens. Trago olhos de enxergar beleza e um caminho inteiro. Trago desejo.
Carlota
21062011
sábado, 21 de maio de 2011
De como a vida é assim
Assim, sem mais nem menos, deu pra me dar um banzo vez em quando. Banzo que aparece quando as amigas mais próximas estão correndo tanto, como eu, que mal tem tempo de conversar e trocar papos legais, daqueles que trazem coisinhas miúdas ao seu redor. De como o ônibus estava cheio, do caos no qual se transforma a cidade em dias de chuva, que quase nos faz ser tragadas pela maré, do filho que tirou a nota máxima em um dos trabalhos que você ajudou a fazer. Também acontece dessa incomunicação se tornar incômoda, daí que o banzo vai, vem, como se ausência implicasse na diminuição do afeto que sentimos uns pelos outros.
Sei que estava tão esfuziantemente contente nesta quarta-feira, tão cheia de planos e de beleza, que não me dei conta da quinta na qual ministro 10 horas aula. E quando ela nasceu, a alegria foi minguando de mansinho. Talvez porque me lembrei mais dos problemas do que da aparente solução deles. E caiu de começar a chover e bater uma puta ventania que quase me arrasta junto. Calhou também de eu não conseguir resolver um lance e chegar atrasada no trabalho. E de não ter almoçado e de estar cansada e de não ter notícias de gente querida.
Só consegui dormir a 1h30 da manhã, para dar conta de três pareceres que eu tinha de dar como avaliadora de um congresso. Pois é, inventei de me inscrever para ser avaliadora e lá estávamos frente aos três trabalhos e ao computador. Quanto sono. Daí que acordei às 6, consegui fazer os meninos irem para a escola no horário e decidi arrumar logo as roupas, os livros e ir caminhar na praia. Porque para mim essas caminhadas intercaladas com corridas estão contribuindo para a minha sanidade. E no caminho de volta foi voltando também a alegria. Porque enquanto corria ao sabor do vento (e não contra ele), a leveza foi chegando também. E eu pude flutuar em um espaço vazio, no qual o banzo, mal entendidos, chateações e ônibus cheio no final da noite não tem vez.
Deixei que a alegria se mostrasse na areia da praia, no mar, no céu cinzento, nas pedras, agudas como alguns pensamentos. Deixei que se infiltrasse em mim o prazer de estar ali, naquele momento, ao invés de estar na cama, entre meus lençóis quentinhos. Mas quem quer um lençol maravilhoso se o sono embota os sonhos? Se a gente fica perdendo tempo parado, ao invés de fazer algo que goste muito? Se todas as chances, movimentos, idas, voltas, ficam presas num esquema que é meio medo e meio apatia mesmo?
Lembrei de quantas decisões tomei nessas caminhadas. De como construí textos inteiros em minha cabeça. Como as palavras formaram frases impregnadas de verdade, porque vinham do que eu estava deixando fluir. Não digo que não estou mais cansada, as pernas doem após 50 minutos em ritmo intenso. Mas decidi hoje ficar alegre, leve, atenta. Para aquilo que começa, o que termina, o que vai permanecer. Esse último aí, sem dúvida, sou eu. Eu permaneço. Completamente fora de prumo às vezes, totalmente inquieta, com vontade de ficar em silêncio absoluto, de não trocar palavras, gestos, arrepios. E também, insanamente, arrepiada quando quero viver. Porque pra mim é tudo intenso. Tudo parece estar a um passo de acabar, como se não houvesse mais tempo. E o tempo de ficar parada, em apatia, chorando as mágoas, deixei passar.
Carlota
20052011
(em resposta a uma amiga muito gente boa, Anna Constantino)
Sei que estava tão esfuziantemente contente nesta quarta-feira, tão cheia de planos e de beleza, que não me dei conta da quinta na qual ministro 10 horas aula. E quando ela nasceu, a alegria foi minguando de mansinho. Talvez porque me lembrei mais dos problemas do que da aparente solução deles. E caiu de começar a chover e bater uma puta ventania que quase me arrasta junto. Calhou também de eu não conseguir resolver um lance e chegar atrasada no trabalho. E de não ter almoçado e de estar cansada e de não ter notícias de gente querida.
Só consegui dormir a 1h30 da manhã, para dar conta de três pareceres que eu tinha de dar como avaliadora de um congresso. Pois é, inventei de me inscrever para ser avaliadora e lá estávamos frente aos três trabalhos e ao computador. Quanto sono. Daí que acordei às 6, consegui fazer os meninos irem para a escola no horário e decidi arrumar logo as roupas, os livros e ir caminhar na praia. Porque para mim essas caminhadas intercaladas com corridas estão contribuindo para a minha sanidade. E no caminho de volta foi voltando também a alegria. Porque enquanto corria ao sabor do vento (e não contra ele), a leveza foi chegando também. E eu pude flutuar em um espaço vazio, no qual o banzo, mal entendidos, chateações e ônibus cheio no final da noite não tem vez.
Deixei que a alegria se mostrasse na areia da praia, no mar, no céu cinzento, nas pedras, agudas como alguns pensamentos. Deixei que se infiltrasse em mim o prazer de estar ali, naquele momento, ao invés de estar na cama, entre meus lençóis quentinhos. Mas quem quer um lençol maravilhoso se o sono embota os sonhos? Se a gente fica perdendo tempo parado, ao invés de fazer algo que goste muito? Se todas as chances, movimentos, idas, voltas, ficam presas num esquema que é meio medo e meio apatia mesmo?
Lembrei de quantas decisões tomei nessas caminhadas. De como construí textos inteiros em minha cabeça. Como as palavras formaram frases impregnadas de verdade, porque vinham do que eu estava deixando fluir. Não digo que não estou mais cansada, as pernas doem após 50 minutos em ritmo intenso. Mas decidi hoje ficar alegre, leve, atenta. Para aquilo que começa, o que termina, o que vai permanecer. Esse último aí, sem dúvida, sou eu. Eu permaneço. Completamente fora de prumo às vezes, totalmente inquieta, com vontade de ficar em silêncio absoluto, de não trocar palavras, gestos, arrepios. E também, insanamente, arrepiada quando quero viver. Porque pra mim é tudo intenso. Tudo parece estar a um passo de acabar, como se não houvesse mais tempo. E o tempo de ficar parada, em apatia, chorando as mágoas, deixei passar.
Carlota
20052011
(em resposta a uma amiga muito gente boa, Anna Constantino)
terça-feira, 10 de maio de 2011
Submersa
Sob a água pressinto o desejo.
E no seu beijo.
Sob a água afogo meus medos,
deixo a vida aflorar.
Submersa, a alma subverte
a ordem das coisas
e eu, novamente,
me encontro em você.
E no seu beijo.
Sob a água afogo meus medos,
deixo a vida aflorar.
Submersa, a alma subverte
a ordem das coisas
e eu, novamente,
me encontro em você.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Intervalo e 3 atos (Dor)
Comecei a caminhar devagar pelas ruas. Quase tateio a calçada com meus pés. Se vou à praia o cuidado é com o terreno arenoso. Se no campo, com as folhas derramadas de tantas árvores. Sigo lenta, buscando o equilíbrio, sentindo a firmeza ou encontrando antecipadamente aquele espaço vazio onde posso resvalar e cair.
Uma torção no pé direito me obriga a isso, a um excessivo cuidado com a forma como piso. A uma extrema consciência do entorno, não apenas feito ele de concreto e coisas, mas de pessoas que me olham e enxergam alguém que segue devagar. E observa.
Nessa fase, de começar lentamente porque não há como ir rápido, pelo menos por enquanto, estou retomando meus diálogos impossíveis. As longas conversas que eram pródigas quando caminhava com velocidade na beira-mar. Cerca de 50 minutos de reflexão em quatro quilômetros de calor e convivência pacífica com outras pessoas, nem sempre comigo.
Primeiro a desilusão com minhas férias. Dez dias com o pé imobilizado me obrigou a deixar as tarefas domésticas de lado, os planos de fazer pratos deliciosos para a família, as ruidosas saídas com minhas amigas, a dança a qual me entrego quando estou feliz. Foram dias em casa, ouvindo as conversas miúdas de meus filhos, suas brincadeiras, de ver a bagunça e tentar dar um jeito quando o pé melhorava.
Mas a dor me aguardava. Intensa, feroz, incômoda. Dessa vez, no ombro direito. Parecia apenas que eu havia dormido de mau jeito. Não. Meu corpo avisava da necessidade de parar. Parar totalmente. Não olhar email, não encostar no computador, não encadernar blocos, projetar layouts, aceitar convites de trabalho.
Não escrever. Como doeu tudo isso. Sentir-me incapaz, impotente e, ainda, sofrendo uma dor tão atroz que não conseguia dormir. Que me incapacitou temporariamente para qualquer raciocínio lógico. Que me fazia chorar silenciosamente porque um grito me tiraria o fôlego. Que me deixou dependente de minhas crianças e amigos.
A dor provocou mais. Me fez perceber o que todos que sofrem uma dor aguda observam. A desimportância de inúmeras coisas, ínfimas essas coisas, pequenas, quase manias. Perdi a vontade de reclamar da bagunça que as crianças naturalmente fazem. Elas, em suas brincadeiras, me deixavam descansar. Olhavam preocupadas as minhas lágrimas e me ajudavam no que era possível: vestir, pentear, arrumar minha cama. Meu filho mais velho me surpreendeu com sua delicadeza ao desembaraçar meus cachos. A mão suaveconduzia o pente com imenso cuidado, com medo de machucar.
Entreguei-me à generosidade desses cuidados, no aprendizado de aceitar ser cuidada. De também receber atenção. Minha amiga se dispunha a sair do trabalho para me levar às sessões de acupuntura. De me levar em casa quando a noite chegava. Meu ex-marido me surpreendeu lavando os pratos de dois dias, arrumando minha casa, fazendo compras, incentivando a quietude entre nossos filhos. Deu-me a atenção necessária para que eu me sentisse melhor. Em meio à dor, aprender a receber sem reciprocidade, apenas sendo grata, me fez refletir ainda mais.
Assim como o tratamento. No percurso inteiro, médicos, amigos, fisioterapeuta, acupunturista se revelaram pessoas extremamente gentis. E como, em um processo de dor aguda, é preciso gentileza. Aquele traço de humanidade que indica respeito pela dor alheia.
A acupuntura trouxe ganhos inesperados. As longas conversas que mantinha comigo enquanto era obrigada a ficar mais de 20 minutos imóvel, com o corpo permeado de finíssimas agulhas. De início apenas dor. Depois gratidão. No final, encontro. Encontrei a mim mesma naquelas 11 sessões. Era uma imersão em minha alma, me livrando de pesos que não precisavam estar.
Uma torção no pé direito me obriga a isso, a um excessivo cuidado com a forma como piso. A uma extrema consciência do entorno, não apenas feito ele de concreto e coisas, mas de pessoas que me olham e enxergam alguém que segue devagar. E observa.
Nessa fase, de começar lentamente porque não há como ir rápido, pelo menos por enquanto, estou retomando meus diálogos impossíveis. As longas conversas que eram pródigas quando caminhava com velocidade na beira-mar. Cerca de 50 minutos de reflexão em quatro quilômetros de calor e convivência pacífica com outras pessoas, nem sempre comigo.
Primeiro a desilusão com minhas férias. Dez dias com o pé imobilizado me obrigou a deixar as tarefas domésticas de lado, os planos de fazer pratos deliciosos para a família, as ruidosas saídas com minhas amigas, a dança a qual me entrego quando estou feliz. Foram dias em casa, ouvindo as conversas miúdas de meus filhos, suas brincadeiras, de ver a bagunça e tentar dar um jeito quando o pé melhorava.
Mas a dor me aguardava. Intensa, feroz, incômoda. Dessa vez, no ombro direito. Parecia apenas que eu havia dormido de mau jeito. Não. Meu corpo avisava da necessidade de parar. Parar totalmente. Não olhar email, não encostar no computador, não encadernar blocos, projetar layouts, aceitar convites de trabalho.
Não escrever. Como doeu tudo isso. Sentir-me incapaz, impotente e, ainda, sofrendo uma dor tão atroz que não conseguia dormir. Que me incapacitou temporariamente para qualquer raciocínio lógico. Que me fazia chorar silenciosamente porque um grito me tiraria o fôlego. Que me deixou dependente de minhas crianças e amigos.
A dor provocou mais. Me fez perceber o que todos que sofrem uma dor aguda observam. A desimportância de inúmeras coisas, ínfimas essas coisas, pequenas, quase manias. Perdi a vontade de reclamar da bagunça que as crianças naturalmente fazem. Elas, em suas brincadeiras, me deixavam descansar. Olhavam preocupadas as minhas lágrimas e me ajudavam no que era possível: vestir, pentear, arrumar minha cama. Meu filho mais velho me surpreendeu com sua delicadeza ao desembaraçar meus cachos. A mão suaveconduzia o pente com imenso cuidado, com medo de machucar.
Entreguei-me à generosidade desses cuidados, no aprendizado de aceitar ser cuidada. De também receber atenção. Minha amiga se dispunha a sair do trabalho para me levar às sessões de acupuntura. De me levar em casa quando a noite chegava. Meu ex-marido me surpreendeu lavando os pratos de dois dias, arrumando minha casa, fazendo compras, incentivando a quietude entre nossos filhos. Deu-me a atenção necessária para que eu me sentisse melhor. Em meio à dor, aprender a receber sem reciprocidade, apenas sendo grata, me fez refletir ainda mais.
Assim como o tratamento. No percurso inteiro, médicos, amigos, fisioterapeuta, acupunturista se revelaram pessoas extremamente gentis. E como, em um processo de dor aguda, é preciso gentileza. Aquele traço de humanidade que indica respeito pela dor alheia.
A acupuntura trouxe ganhos inesperados. As longas conversas que mantinha comigo enquanto era obrigada a ficar mais de 20 minutos imóvel, com o corpo permeado de finíssimas agulhas. De início apenas dor. Depois gratidão. No final, encontro. Encontrei a mim mesma naquelas 11 sessões. Era uma imersão em minha alma, me livrando de pesos que não precisavam estar.
Intervalo e 3 atos (Morte)
Minha sogra morreu no dia 14 de fevereiro, quase dez anos após a morte do meu sogro. Sofria no hospital com dores, inchaços, escaras. Sofria daquela vontade de ir embora e se livrar de um corpo que já não lhe pertencia. Fui visitá-la apenas uma vez, após uma das sessões de acupuntura em que me senti tão cheia de amor, que precisava extravasá-lo em carinho e palavras amenas.
Quando a encontrei agradeci por tudo o que me deu. Toquei suavemente seu rosto, toquei, toquei, dizendo como gostava dela. E ela disse-me: “Você não sabe como isso é um conforto”. Resgatei o que sentia por ela quando nos conhecemos, quando ela me amparou após o meu primeiro filho, sem lembrar dos atritos que me afastaram de sua casa, a qual só visitava quando era seu aniversário. Só quis dizer, tocando o seu rosto,que estava ali e queria por alguns instantes amenizar a sua dor.
Não fui ao velório. Cheguei em cima da hora para o enterro, ainda com medo de encontrar a atual esposa de meu ex-marido. Não seria uma ocasião interessante para trocar palavras, nós que já nos encontramos outras vezes. Nenhum com a família dele presente. Como seria assumir o posto de ex e ver a nova mulher receber os pêsames junto à família? Sabia que iria me sentir constrangida. Mas ela não foi. E terminou que eu recebi o carinho de gente que não me via há muito, muito tempo.
Meu ex-marido desamparado. A morte faz isso, dos pais principalmente. Fiquei ao seu lado, caminhando abraçada. Perguntei se precisava de algo, avisei estar disponível para conversar. Lembrei da visita ao hospital e falei sobre isso, sobre ter me despedido dela. Enredei-me em tristeza, na constatação do envelhecimento, da irreversibilidade da vida. Não gosto de despedidas.
Quando a encontrei agradeci por tudo o que me deu. Toquei suavemente seu rosto, toquei, toquei, dizendo como gostava dela. E ela disse-me: “Você não sabe como isso é um conforto”. Resgatei o que sentia por ela quando nos conhecemos, quando ela me amparou após o meu primeiro filho, sem lembrar dos atritos que me afastaram de sua casa, a qual só visitava quando era seu aniversário. Só quis dizer, tocando o seu rosto,que estava ali e queria por alguns instantes amenizar a sua dor.
Não fui ao velório. Cheguei em cima da hora para o enterro, ainda com medo de encontrar a atual esposa de meu ex-marido. Não seria uma ocasião interessante para trocar palavras, nós que já nos encontramos outras vezes. Nenhum com a família dele presente. Como seria assumir o posto de ex e ver a nova mulher receber os pêsames junto à família? Sabia que iria me sentir constrangida. Mas ela não foi. E terminou que eu recebi o carinho de gente que não me via há muito, muito tempo.
Meu ex-marido desamparado. A morte faz isso, dos pais principalmente. Fiquei ao seu lado, caminhando abraçada. Perguntei se precisava de algo, avisei estar disponível para conversar. Lembrei da visita ao hospital e falei sobre isso, sobre ter me despedido dela. Enredei-me em tristeza, na constatação do envelhecimento, da irreversibilidade da vida. Não gosto de despedidas.
Intervalo e 3 atos (Verdade)
É que um dia pensei em resgatar algo. E me envolvi com alguém por quem fui muito apaixonada.Como se concretizar a paixão fizesse voltar o tempo. Ou melhor, o sentimento mútuo. Talvez por isso a gente se encontrasse. Até constatar o óbvio. O que sentimos não volta. E ler a verdade em um de seus emails me fez perder a vontade de estar. Decisão tomada, aceitar as coisas, seguir com leveza. Para combinar, me vesti de palhaça dois dias no Carnaval. Não o clown melancólico, mas o pândego que se
espalha em sorrisos, dança e brinca alegremente. Sem máscaras, apenas os olhos pintados. Pra realçar a vida que trago em mim.
espalha em sorrisos, dança e brinca alegremente. Sem máscaras, apenas os olhos pintados. Pra realçar a vida que trago em mim.
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