segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sem medo

Às vezes o coração fica apertado de medo. Como um frágil coração de passarinho. Assustadiço. Mas, e se eu voar?

(para um jogador de polo)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Tanto

Dezembro pra mim é misto de melancolia e um contentamento, que se alternam praticamente até o Natal. Depois, volto ao normal, alternando entre humores mais variados.



Hoje, quando eu me encontrar com você,
beija o meu ouvido.
E quando eu ficar nua,
escuta minha pele, toca minha alma.
Não mostra seu desejo, assim, rapidamente.
Mostra devagar.
Pra não me assustar.
Porque hoje carrego comigo uma alegria,
uma saudade, uma falta.
E elas podem ir, assim, de repente.
Porque de repente eu me vi aqui, frente a você.
O que eu queria dizer, era o que mesmo?
De mim e você?
De você sem mim?
Ou de nós dois?
Uma hora isso passa.
Um dia desses.
Depois daquela noite.
Antes do aviso.
Quem sabe, agora?
Me beija devagar?
Me beija?
E deixa eu sentir o beijo,
abraço, sua pele.
Deixa eu roubar com os dedos
um pouco de você.
Pra poder ir.
Sem adeus.


Carlota

15122010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Morto vivo

O caso já acabou há anos e você ainda suspira? E procura cartões antigos, relembra perfumes, arruma desculpas para o namoro ter acabado e se considera o grande amor da vida dele (apenas ele não se deu conta disso)? Pois é, carregando um morto vivo por aí e nem sabe. Ou vai me dizer que acha normal seguir o perfil dele no facebook, olhar as fotos, vez em quando engatar um papo via email (para relembrar as vezes em que eles foram pródigos e calientes) e ter uma resposta lacônica?

Querida, a fila anda e a catraca gira. Em frente, certinho? Nada de se agarrar com aquela seleção musical que te lembra dançar com ele, nada de olhar a lua cheia e pensar naquela noite em Japaratinga, nada de ir na Livraria Cultura catar o livro de um autor que, você sabe, ele adora.

Medida profilática um é deletar o número dele da sua agenda do celular. A dois é, ai, deus lhe dê forças, apagar os emails dele da sua caixa postal, incluindo aí também as mensagens românticas ou sacaninhas que ainda habitam o seu telefone. Doeu, pois é, mas é preciso ir adelante, cariño, se não, corre o risco de virar uma moçoila suspirante e aflita, com rancores e rompantes inimigos de qualquer cara que queira se aproximar de você.

Então que estamos decididas. Felizes. Recomeçando. Do curso de idiomas a uma aula de sapateado. E vai que quando você decide ficar em casa, naquela sexta à noite, a assombração te liga perguntando onde você está. Assim, na maior tranqüilidade, pra não dizer cara de pau. E você fora de si porque resolveu ficar em casa e ela fica a quilômetros de qualquer oportunidade de reencontro. Nem pense em sair, viu? Melhor brincar que vai dormir.

Tá. Combinado. Eis que o céu conspira e te traz um outro telefonema, em plena manhã de terça-feira. Um tchau tão definitivo – você pensa – devia mesmo era ter dito: fui! E uma conversa mansa, sem pé nem cabeça, com certeza não envolvia álcool que eram apenas 9h30. A surpresa só não é maior porque você conseguiu ser articulada o suficiente pra dizer: meu bem, já era.

E você, que está levinha, comprou duas saias vaporosas e cinco camisetas para curtir o verão, planeja a viagem do próximo ano e quer romper o ano sozinha e de branco em uma praia linda (ainda bem que parcelam pacotes de réveillon), só consegue pensar que dezembro, definitivamente, é o mês do malassombro. Portanto, querida, se benza, espante os morto vivos e os nem tanto e caia na farra com sua solteirice. E nem precisa ter lido Simone de Beauvoir pra saber que essa liberdade às vezes é solitária, mas garante algo compensador: a verdade de estar com quem você quer, apenas quando você quiser.

Carlota
08122010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Como quando a gente volta (ou se encontra)

Caixas se espalhavam por todos os lados. Porta retratos, bichos de pelúcia, lindas xícaras prateadas, pantufas coloridas. Um computador, calculadora, canetas, três mulheres quase enlouquecidas com tanto a fazer. Eis que há uma pausa rósea, aliás, sorridente, rósea e gentil. Um amigo que decide fazer um brinde delicado, trazendo flores, abraços e braços para o trabalho que não findava naquela noite de quinta.

Em meio à confusão, ao esforço de iluminar as janelas fazendo com que o pisca-pisca de 15 metros desse pra tudo, deu oito da noite e era preciso correr. Mas a pressa foi bem vinda, porque abriu espaço para todos irem até o bar mais próximo, experimentar novamente beber juntos, numa barulhenta conversa entre quatro pessoas.

Da cerveja inicial a opção ficou para o clone de uísque. Todos bebemos e brindamos, brindamos e bebemos. Era dia 25, aniversário de um ano e, também, sabíamos apenas as três, de uma semana de uma briga intensa e um retomar cuidadoso, como se ainda fosse preciso reconhecer o terreno que sempre fora nosso.

Mas a pausa era conversa pra horas. E a comida demorava, o garçon se chamava Max (Groucho Max, será?) porque simpático e amistoso e todos com fome até que a carne veio e nos fizemos carne também. Vivos, presentes, alegres. Naquele papo que diz muito e quase não diz nada, surge o convite para um café. Aliás, para um licor, café foi sugestão para acompanhar. E, porque não dizer, diminuir o teor alcoólico do meu sangue, que já beirava o limite do aceitável, face ao cansaço de quem ainda queria encadernar oito blocos (projeto que se revelou impossível ao chegar em casa a uma da manhã).

Eu me instalo na cozinha, para mim o espaço mais interessante de uma casa, quando preciso me ambientar sem me intrometer demais no espaço alheio. Vou lá, pra moka, explicando ser necessário colocar apenas 2/3 de água, o café no filtro sem apertar, indo para a sala apenas durante o licor (ou antes corremos o apartamento, as três? Não lembro). Amarula é maravilhoso com café. Puro também. Mas o melhor da noite foi ser surpreendida com tanta gentileza.

O perfume do café invadiu a sala. Achei que podia ter ficado mais forte, mas todo mundo curtiu. Eu estava curtindo estar ali. Sem preocupações com uma festa iminente, com uma dia em que teria no mínimo 12 horas consecutivas de trabalho, com voltar para casa. Acho que só senti falta de música, que ando procurando-a por onde vou. Mas não foi uma falta percebida no momento. Só agora, lembrando, lembrei disso.

Diferenças entre críquete e pólo. Entre alazões, baios e outros dos quais me esqueci o nome. Observar uma negrita muy bella, que parece um convite à liberdade e ao vento no rosto. Encerrar a noite com um abraço curto e gostoso. Estávamos todos um pouco altos. E muito, muito alegres. Entreguei-me à minha cama e nem pensei na ressaca que poderia surgir. O aniversário fora pleno. E feliz.
Carlota. 29112010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Apenas

Não vou pedir desculpas.
Não adiantariam.
Sinto-me estranha, apenas.
Como se uma amiga tivesse razão
E houvesse duas de mim.
O adeus que eu dei doeu.
Mais uma vez.
E me provoca
Por ter sido escolha.
Sinto-me estranha apenas.
Estrangeira no meu corpo
Em minha casa
Entre os meus.
De novo esse afastamento.
De novo um coração ressentido.
Mesmo ele, de perdão.
Sinto-me estranha, apenas.
E a sensação é de perda.
Como se alguém precisasse dizer:
seja gentil.
Então essas lágrimas não se vestem
Elas me despem, desnudam
Mas o que fica é conhecido demais.
Não precisava ser.
Sinto-me estranha, apenas.
Mesmo sem querer.


Carlota.
21112010

domingo, 24 de outubro de 2010

Nuvens

Coisinhas bobas de domingo. Escolher esmaltes com a filha no supermercado. Terminei trazendo três, um preto para ela (vai ter Hallowen na escola) e um verde água e outro vermelho para mim. Experimentei-os assim que cheguei em casa e cá estou digitando com três dedos da mão esquerda pintados. Eles foram unânimes: preferem o verde água ao vermelho – acho que não querem ver a mãe pintada de paixão.

Um pouquinho antes do jantar, me deixo ficar no jardim da minha casa. Finalmente hoje tive coragem de podar umas plantas que ameaçavam invadir até os muros vizinhos e cresciam totalmente desorientadas. Aproveitei as cadeiras de praia que ganhei de presente e resolvi dar uma parada para escutar música, tomar uma cerveja e olhar o céu. Fiquei sentindo a brisa e lembrando de chamar minhas amigas para curtir um céu desses num sábado próximo, ouvindo música e tomando cerveja, sem necessidade de falar.

Marina inventou de ficar ao meu lado um pouquinho, mas ela queria falar, falar, falar. Tentei dividir o fone de ouvido, mas não houve acordo. Então despachei-a pra dentro, depois de tirar umas fotos lindas. Estava eu admirada da beleza dessa menina, com seus cabelos longos e cacheados e esse riso franco de quem sabe que está atrapalhando meus devaneios mas vai dar uma colher de chá durante um tempinho. Ian também apareceu, deu sorrisos, ganhou um registro a mais no celular.

Até que Igor resolveu chegar e nossa semelhança também. Que ficamos os dois olhando o céu, dividindo o fone de ouvido, admirando e imaginando formas para as nuvens que passavam devagarinho. Falei daquela estrela que tinha um brilho fixo, não é estrela, é planeta, Vênus, vésper, a estrela da manhã e da tarde (a estrela Dalva dos poetas). Ele não sabia e eu fiquei contente em dividir algo que aprendi há tanto tempo.

Tocávamos com os pés um no outro, nesse encaixe de quem é cúmplice. E ser cúmplice dele nessa noite foi deixar de ser a mãe exigente que cobra o uso do aparelho, o estudo e o compromisso com ele mesmo. Tão bom só curtir a companhia desse menino de quase 12 anos. Que também gosta de ouvir música e olhar o céu, dividindo os nossos silêncios sem espanto. Partilhando a amizade. A lua resolveu sair nesse momento e aí a gente ficou assim, numa de dizer: putz, tá muito linda. Tá nascendo. Vamos tentar tirar uma foto. Dá um zoom, mãe, dá um zoom! E a gente subiu no portão, no muro e ficou lá, tirando foto e olhando ela subindo no céu.

Depois que ele entrou ainda fiquei um pouco lá fora, tentei ligar pra matar uma amiga de inveja, mas nada de atender. Descalça e naquela cadeira de praia, curtindo ouvir música sozinha, lembrando do que senti no supermercado. Tremendo mau humor antes do almoço, mas quando fomos às compras eles se sentiram em um parque de diversões. (coisa de criança que não paga as contas e escolhe besteirinhas pra comer depois).

Em plena escolha das laranjas, peço que cada um vá pegar algo e eles foram tão decididos, tão contentes com a divisão de responsabilidades, que apenas fiquei parada sentindo uma conhecida onda de amor. Um lance de adorar ter essas crianças comigo. De curtir ensiná-los a serem independentes, a colaborar e contribuir um com o outro no que for preciso. Se bem que às vezes isso não funciona de jeito nenhum. Brigam, gritam, irritam-se. Mas estavam minhas crianças amenas.

Ainda tenho de enfrentar a tintura. Ainda tenho de colocar cada um para dormir. Os pratos do jantar estão chamando, mas acho que vou deixar essa parte para amanhã. Sim, tenho de tirar esse esmalte, vai ficar estranho chegar no trabalho amanhã com três unhas pintadas. Eles me chamam pra assistir TV, enquanto escorrego um pouco e venho pra cá, escrever. Registrando um dia bom.

Carlota
24102010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Neve

Daquelas vezes em que eu nem te tocava direito e já ia ao infinito, tortuosa forma de amar essa minha que te queria sem precisão, mas precisando muito e tudo e mais de uma vez. Daquele tempo em que a gente podia se encontrar tranquilamente porque nada havia que a gente não soubesse, tudo era aberto e não havia esse querer. E a gente era tranqüilo e não se evitava onde quer que a gente fosse.

De todas as formas em que encontrar era um modo de fugir da solidão e de amar sem ser amado, sem afeto, só essa fome e no final o desespero era não querer mostrar que a pele já dizia de um jeito de querer diferente para além da fala que não se fazia presente ali.

Aquele pegar nos meus cabelos e arrancar os fios, segurar sua nuca e murmurar juntinho, aquelas pernas entrelaçadas e beijos úmidos, não havia ninguém, ou havia porque a janela sempre ficou aberta, a porta e os nossos olhos.

Sem explicação que não precisava disso. Precisava era do teu beijo desse jeito sem perdão. Porque eu ia ao seu encontro sem culpa e ainda dele saía com a alma lavada, as roupas amassadas pelo chão. E nem que me digam o contrário e já disseram eu vou deixar de pensar que esse toque quase meu me dizia do desejo de ter, uma posse idiota e infinita, porque nada tinha de seu.

E o meu nesse caso é partida todo tempo, é calar e separar e ir embora sem vontade porque ficaria mais um pouco mas me arrumo antes que alguém faça o convite e me desligo do que eu poderia ser porque não quero pensar, bastava sentir desse jeito de quem não aprendeu direito e se apega porque ainda não sabe esperar.

E a espera podia ser um pouco de tudo, podia ser de dois anos ou 15 dias ninguém sabia direito e porque não deixar isso passar e ser apenas isso tranqüilo sem evitar um ao outro além daquele espaço de tempo curto em que um era para o outro e só. Mas nada havia a fazer além de saber do que a gente não tinha em comum para além daquele tempo em que a vontade era uma e de nós dois.

Carlota
09092010